sábado, 28 de maio de 2022

"Nós contra eles" ou Porquê não voto em Lula - Capítulo II




O ano de 2006 (ano da eleição) foi um ano muito "rico" em escândalos no Governo Federal. Além dos citados no Capítulo anterior, nem bem começara o ano, a Petrobrás comprou uma Refinaria em Pasadena, cidade localizada no sudeste do Texas nos Estados Unidos. A Empresa justificava: "esta operação de compra está alinhada com o plano estratégico da Petrobras que estabelece, entre seus objetivos, consolidar-se como uma empresa integrada de energia, com forte presença internacional, expandindo as atividades de refino e comercialização, no país e no exterior, em sintonia com o crescimento dos mercados". Na época, quem presidia o Conselho de Administração da estatal que deu aval à operação, era a ex-presidente da República Dilma Rousseff e o Presidente da Petrobrás era José Sérgio Gabrielli.

Mas o que há de inusitado nessa operação? Em 2006, a Petrobras pagou US$ 360 milhões por 50% da refinaria. O valor é muito superior ao pago um ano antes pela belga Astra Oil pela refinaria inteira: US$ 42,5 milhões. Enquanto isso, no seio da Petrobras, a refinaria era “carinhosamente” chamada de “ruivinha”, pois estava “enferrujada” (veja a foto) até o núcleo e precisava, urgentemente, de reparos. Pasadena era motivo de chacota desde o início. Dois anos depois, a Petrobras e sua sócia Astra Oil "se desentenderam" e uma decisão judicial obrigou a estatal brasileira a comprar a parte pertencente à empresa belga. A Refinaria de Pasadena, segundo o Valor Online, acabou custando US$ 1,249 bilhões ao Brasil (28 vezes o valor que a sócia comprara). Alguns anos depois, Pasadena foi negociada pela Petrobrás com a Chevron pelo preço de US$ 467 milhões.

Seguiram-se o Escândalo dos Sanguessugas, "também conhecido como máfia das ambulâncias, foi um escândalo de corrupção que estourou em 2006 devido à descoberta de uma quadrilha que tinha como objetivo desviar dinheiro público destinado à compra de ambulâncias"; O Escândalo dos Aloprados, ou escândalo do dossiê "foi uma tentativa de compra de um dossiê contra o candidato a governador de São Paulo, José Serra." A tentativa levou à prisão em flagrante, em 15 de setembro de 2006, de alguns integrantes do PT acusados de comprar um falso dossiê, de Luiz Antônio Trevisan Vedoin, com fundos de origem desconhecida"; e outros menos votados.

Para a eleição do segundo termo, a equipe de marketing de Lula esqueceu o "Lulinha paz e amor" e a "Esperança venceu o medo" para acertadamente radicalizar. Foi uma sacada inteligente, dado o desgaste do primeiro mandato, com o pipocar de escândalos e principalmente o não cumprimento de compromissos da campanha anterior. Com efeito, "a maior parte das promessas de sua contundente mensagem de mudança feita no Congresso, há quatro anos, não chegou a ser cumprida."

O Primeiro Emprego não se concretizou, atendendo apenas a 0,5% dos jovens que pretendia acolher. A promessa da criação de 10 milhões de empregos não chegou nem perto da metade do que se afirmou em campanha. Lula prometeu segurança pública mais eficiente e durante seu quatriênio os números de mortes violentas permaneceram iguais, chegando inclusive a aumentar em 2003 para 51534, de 49816 em 2002. A reforma agrária “pacífica, organizada e planejada” foi desclassificada por seus próprios apoiadores, a ponto de o líder do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, pedir o fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário. “As reformas que a sociedade brasileira reclama” e que ele se comprometia a fazer, como as da Previdência, tributária, política e da legislação trabalhista, nunca tiveram o empenho do Governo.

Junte-se ao fiasco da realização das promessas na primeira campanha, aos escândalos descobertos e divulgados ao longo do primeiro termo, o caminho foi criar o "Nós contra eles". Em discurso festejando a vitória na Avenida Paulista, em São Paulo, o Presidente recém-reeleito disse que o resultado do 2º turno marcou a "vitória do andar de baixo contra o andar de cima".

Esperava-se que o Presidente Lula e seu Partido, no segundo mandato, tivessem um comportamento recatado, decente, decoroso, honesto. Afinal, o país (não a justiça) havia relevado todos os "malfeitos" do primeiro mandato, dando-lhes vitória nas urnas. A avaliação completamente equivocada dos principais partidos de oposição ("vamos deixar ele sangrar até a eleição") permitira a competente construção de uma narrativa de que Lula não sabia nada da corrupção em seu Governo, que eram as "elites" que queriam derrubá-lo e que ele era o defensor dos pobres ("nós contra eles"). Essa narrativa foi estimulada pela consolidação de programas sociais (alguns vindos do Governo de Fernando Henrique) e pelo cenário externo altamente favorável, mormente pelo boom das commodities.

De fato, no website oficial do FMI, colhe-se:

"No nosso mais recente relatório sobre as perspectivas econômicas regionais para a América Latina, mostramos que a taxa de pobreza caiu de cerca de 27% para 12%, e a desigualdade recuou quase 11% em toda a América Latina entre 2000 e 2014. Nesse período, comumente chamado de boom das commodities, os preços de produtos como o petróleo e os metais, subiram de forma constante graças à demanda crescente de economias emergentes como a China e a Índia." (Como o boom das commodities ajudou a reduzir a pobreza e a desigualdade na América Latina - Ravi Balakrishnan e Frederik Toscani).

Mas foi no segundo Governo Lula que a corrupção tornou-se uma metástase no organismo brasileiro. "A Operação Navalha deflagrada pela Polícia Federal no dia 17 de maio de 2007, visou desbaratar esquemas de corrupção relacionados à contratação de obras públicas feitas pelo governo federal. O esquema utilizado pela quadrilha consistia em superfaturar obras previstas no PAC"; O BNDES e Moçambique: "em Moçambique, a Odebrecht construiu o aeroporto (fantasma) de Nacala, financiado pelo BNDES. Moçambique devia ao Brasil 315 milhões de dólares que não conseguia pagar. Essa dívida foi integralmente perdoada por Lula da Silva em 2004"; O Governo Lula desviou R$ 111,4 bilhões da CPMF que eram da Saúde; O ecumenismo da corrupção: a construção das hidrelétricas do Rio Madeira (Jirau e Santo Antônio), obras que uniram na corrupção PT, PSDB, índios, ruralistas, CUT e Força Sindical. "Desde o processo licitatório das duas obras, iniciado em 2007 e 2008, respectivamente, se seguiu um turbilhão de repasses ilegais, caixa 2 e subornos que abasteceram lados antagônicos" (El País Brasil).

O ano de 2009 foi extremamente "profícuo" em relação à corrupção. A Refinaria Abreu e Lima (PE), seria construída por uma parceria entre a Petrobrás (Brasil) e PDVSA (Venezuela), acordada pelos então presidentes Lula da Silva e Hugo Chávez. A Venezuela não honrou o compromisso e a Petrobrás resolveu tocar o projeto sozinha. A refinaria que era para custar 12 bilhões de reais, saiu por mais de 100 bilhões, custando portanto 8.5 vezes a mais que o previsto para os cofres públicos. Consta de apuração do MPF que o contrato rendeu R$ 90 milhões em propinas a ex-executivos da Petrobras ligados ao PT, PP e PSB; O ex-ministro Antônio Palocci, que comandou a Fazenda e a Casa Civil em governos do PT, narrou em depoimento à Justiça Federal, em Brasília, uma reunião entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, da França, em que teria sido negociado o pagamento de propina para a compra de helicópteros e a construção de submarinos nucleares pelo Brasil; Em 01/10/2015, a Revista Época estampa na sua capa chamada para reportagem na qual descreve a compra da Medida Provisória 471, que garantiu a manutenção de incentivos fiscais na ordem de R$ 1,3 bilhões ao ano. Essa MP teria rendido a deputados, senadores e pessoas ligadas ao então governo Lula, o valor de R$36 milhões.

O último ano da gestão Lula foi marcado pelo escândalo do Bancoop - empreiteiros que prestavam serviços a Bancoop teriam que emitir notas frias em favor da Banco por serviços não realizados e o dinheiro era entregue ao na época sindicalista João Vaccari Neto. O dinheiro desviado seria usado para fomentar o caixa dois da campanha de Lula em 2002; O escândalo dos Novos Aloprados, a quebra ilegal de sigilo fiscal de centenas de contribuintes brasileiros na Receita Federal, entre os quais dirigentes do PSDB e familiares do então candidato à presidência pela referida legenda, José Serra; O tráfego de influência da Ministra Chefe da Casa Civil, Erenice Guerra. Reportagem da revista Veja afirma que Erenice estaria envolvida em um suposto lobby para beneficiar empresários interessados em contrato com o governo federal. O esquema seria comandado por seu filho, Israel Guerra.

O grande escândalo do Governo Lula, aquele que foi considerado o maior processo de corrupção orgânica do Brasil em todos os tempos, só foi descoberto em 2014. Trata-se do que se convencionou chamar de Petrolão e objeto de apuração pela Operação Lava Jato, a maior operação contra a corrupção na história do país.

Mais sobre Petrolão e Lava Jato no Capítulo III.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

"A Esperança venceu o Medo" ou Porquê não voto em Lula - Capítulo I




O segundo mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentou uma série de crises, crises internacionais e crise energética e uma crise cambial que desaguou em desemprego, aumento da dívida pública e queda na taxa de crescimento. Isso abriu espaço para a quarta tentativa do líder sindical, Lula da Silva, em busca do cargo de Presidente da República em 2002.

Com 61,27% dos votos válidos no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva venceu o candidato do PSDB, José Serra, que conseguiu apenas 38,73% dos votos. O país celebrou sob uma grande festa e uma enorme esperança, a eleição de um operário migrante nordestino de origem muito pobre, em uma legenda partidária que havia sido criada sob o figurino da decência.

Em seu discurso de posse, calou profundamente na sociedade a afirmação de que “o combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo”. Era o Brasil em lua de mel com seu novo Presidente.

Em junho de 2005, Maurício Marinho, chefe do departamento de Contratação dos Correios, foi flagrado recebendo propina de três mil reais supostamente para o deputado federal Roberto Jefferson (PTB). Divulgado o vídeo, o Deputado Roberto Jefferson em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo em 6 de junho de 2005, afirmou que o Partido dos Trabalhadores (PT) pagou a vários deputados 30 mil reais por mês para votar a favor de legislação do interesse do governo. O escândalo consistiu nos repasses de fundos de empresas, que faziam doações ao Partido dos Trabalhadores (PT) para conquistar o apoio de políticos. O esquema de corrupção começou em 2003 e só em 2005 foi descoberto.

Estabelecida a crise no coração do governo, o Deputado Federal e todo poderoso Ministro da Casa Civil José Dirceu, acusado de chefiar a organização do esquema de propina, anunciou o seu pedido de demissão. Em entrevista coletiva com a imprensa, acompanhado de outros ministros, amigos e companheiros de trabalho, anunciou a volta ao cargo de deputado federal para atuar em defesa do governo e do PT. Era uma tentativa de debelar a crise que se aprofundava, especialmente no Congresso com ameaças de Impeachment do Presidente.

Após a delação de Maurício Marinho, sobre os detalhes do "Mensalão" que envolvia não apenas os Correios e o PTB, mas também o PT, o Presidente Lula convocou pronunciamento em rede nacional de TV (12/08/2005), afirmou que foi traído e pediu desculpas à nação; ""Quero dizer com toda franqueza que me sinto traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado com as revelações que aparecem a cada dia e que chocam o país". Sua Excelência confirmava assim o escândalo do "Mensalão", gestado e operado no âmago do seu primeiro governo.

Naquele momento, provavelmente haveria condições favoráveis para um pedido de impeachment do Presidente. O PSDB e o DEM, partidos mais robustos de oposição, em estratégia depois constatada completamente equivocada, decidiram continuar denunciando os "malfeitos" do Governo Lula e do PT para fazê-lo "sangrar" até a eleição de 2006. Esqueceram da generosidade e ingenuidade do povo brasileiro, de que Lula é "um encantador de serpentes e mentiroso" (royalties para Ciro Gomes) e do poder da caneta do Executivo.

Apesar da cassação de José Dirceu pela Câmara e pelo desenrolar do que se convencionou chamar de "Escândalo do Mensalão" - Ação Penal 470 julgada no STF condenou 24 políticos, empresários, banqueiros etc (entre eles José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e João Paulo Cunha), em entrevista ao Programa Roda Viva de 07 de novembro de 2005 (portanto pouco menos de um ano para a eleição de 2006), o Presidente Lula começou o processo de negação do "Mensalão" e de um sem número de denúncias que pairavam sobre ele e seu Governo.

Sobre o "Mensalão", afirmou: "Eu tenho certeza que não teve. Isso me cheira a folclore dentro do Congresso Nacional". Sobre Roberto Jefferson ter-lhe avisado e que ele teria chorado, disse não lembrar do choro mas confirmou a informação do Deputado e que ele teria mandado auxiliares seus apurarem e a denúncia não foi confirmada. Sobre José Dirceu: "Eu sou defensor dele porque não sei qual é a acusação contra o José Dirceu. A tese original era de dinheiro público nas contas do PT e até agora não tem comprovação. Não posso dar essas denúncias como verdade, porque estaria cometendo uma injustiça". Sobre o suposto financiamento de Cuba para sua campanha eleitoral em 2002: "Eu não posso acreditar que Cuba tenha passado dinheiro para campanhas eleitorais. Eu sei o 'miserê' que Cuba vive". Sobre o assassinato de Celso Daniel: "A Polícia Civil de São Paulo e a Polícia Federal deram o crime como caso comum. Eu acho engraçado que, toda vez que chega perto de ano eleitoral, tentam transformar a vítima em algoz". Sobre a afirmação de Duda Mendonça de que foi pago com dinheiro depositado em contas no exterior, Lula disse que o publicitário é que deve dar explicações. Quando perguntado sobre os recursos irregulares (caixa dois) usados na sua campanha, disse que o dinheiro irregular pode ter sido usado nas campanhas para prefeito, mas não na campanha para Presidente.

Pouco tempo depois do início da campanha de negação dos escândalos frequentes em seu Governo, em março de 2006, veio a público a denúncia de que seu superministro, Antônio Palocci, teria chefiado um esquema de corrupção na prefeitura de Ribeirão preto. "Palocci teria cobrado 'mesadas' de até R$ 50 mil mensais de empresas que prestavam serviços à prefeitura destinados aos cofres do PT, para financiar campanhas eleitorais e fraudar a democracia."

Como afirmei anteriormente, a generosidade e ingenuidade do povo brasileiro, apesar de tudo que está descrito neste texto, concedeu-lhe a oportunidade de redimir-se dos "malfeitos" do seu primeiro termo. Infelizmente, seu segundo mandato serviu para montar as bases do maior escândalo de corrupção de que se tem notícia em países ocidentais: o "Petrolão".

Fim do Capítulo I.

sábado, 21 de maio de 2022

Elon Musk no Brasil




Deve ter sido uma feliz (para Bolsonaro) coincidência e em política a criação de fatos positivos é extremamente importante. Ainda que Ulisses Guimarães tenha tido uma preferência especial pela expressão "sua excelência, o fato", nessa área a simbologia tem mais valor do que o fato em si. A verdade é que numa semana em que toda a mídia seria dedicada ao casamento do seu principal adversário, o Presidente Bolsonaro consegue ocupar não apenas as manchetes nacionais, mas citações positivas na grande maioria dos veículos de comunicação internacionais.

CNBC: "Elon Musk traveled to Brazil on Friday to discuss projects to protect the Amazon rainforest with President Jair Bolsonaro."
France24: "Billionaire Elon Musk arrived in Brazil Friday, announcing a project to bring internet access to schools in the Amazon and improve satellite monitoring of the rainforest."
Forbes: "Elon Musk made a surprise visit to Brazil on Friday to discuss Starlink connectivity with Brazilian President Jair Bolsonaro and other projects in the Amazon."
WashingtonPost: "Tesla and SpaceX chief executive officer Elon Musk met with Brazil’s President Jair Bolsonaro on Friday to discuss connectivity and other projects in the Amazon rainforest."
CBSNews: "Super excited to be in Brazil for launch of Starlink for 19,000 unconnected schools in rural areas & environmental monitoring of Amazon."
Bloomberg: "The world’s richest man was invited by the Brazilian government to discuss investment plans, implementation of new technology to monitor Amazon deforestation and a project to take broadband Internet to far-flung regions, including rural schools and indigenous communities."

Até agora o que se sabe dos frutos da visita do homem mais rico do mundo ao Brasil é que foram discutidas ações tais como conectividade com internet de alta velocidade em 19 mil escolas rurais e comunidades indígenas na Amazônia; a instalação de uma fábrica de carros elétricos da Tesla no país; o lançamento de foguetes da SpaceX em Alcântara, no Maranhão; investimentos em energia solar e eólica no Nordeste; todos assuntos muito importantes para o país, mas nada mais importante, e ponto central da viagem, do que a implementação de novas tecnologias para monitorar o desmatamento da Floresta Amazônica.

O desmatamento da floresta tem sido usado através de relatórios e estudos nem sempre baseados em dados confiáveis, gerados por universidades e ONGs no país e no exterior, para criminalizar o agronegócio brasileiro. O monitoramento da floresta por uma empresa privada internacional com credibilidade, terá o condão de definitivamente separar o que são notícias criadas para prejudicar politicamente o governo de plantão, aquelas forjadas pelos agronegócios de países concorrentes e as intervenções ilegais por queimadas e desmatamentos que exijam uma atuação firme e robusta, principalmente comprometendo a economia daquele que agrida a lei.

A verdade é que a visita do CEO da SpaceX é extremamente importante para o Brasil e deve ser festejada por todos, independente de trazer (e trará) dividendos políticos para o Presidente candidato á reeleição, em um momento em que é flagrante sua recuperação nas tão questionadas pesquisas de intenção de votos.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

O cabo de guerra da apuração das eleições.




“Eu considero totalmente sem importância quem do partido votará, ou como; mas o que é extraordinariamente importante é isso: quem vai contar os votos, e como.” (Joseph Stalin - 1923).

Porque é um assunto que tem persistido ao longo do tempo insistentemente, discutido até em mesas de bar e porque é uma área em que já atuei profissionalmente com algum sucesso (https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2020/11/um-dinossauro-da-computacao.html), arrisco-me a fazer uns poucos comentários despretensiosos sobre sistemas automáticos de apuração de eleições.

No Brasil no momento, o TSE há convidado profissionais e instituições para fazerem testes preventivos antifraude nas urnas eletrônicas que serão usadas na eleição de 2022. Foi criada a Comissão de Transparência das Eleições (CTE), destinada a “ampliar a transparência e a segurança de todas as etapas de preparação e realização das eleições”.

Colhido do website oficial do TSE:

"Por parte das instituições e órgãos públicos, compõem a CTE o senador Antonio Anastasia (PSD-MG); o ministro Benjamin Zymler, do Tribunal de Contas da União (TCU); o General Heber Garcia Portella, comandante de Defesa Cibernética, pelas Forças Armadas; a conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Luciana Diniz Nepomuceno; o perito criminal Paulo César Hermann Wanner, do Serviço de Perícias em Informática da Polícia Federal; e o vice procurador-geral eleitoral Paulo Gustavo Gonet Branco, pelo Ministério Público Eleitoral (MPE).
Os especialistas em Tecnologia da Informação e representantes da sociedade civil que também fazem parte da CTE são: André Luís de Medeiros Santos, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Bruno de Carvalho Albertini, professor da Universidade de São Paulo (USP); Roberto Alves Gallo Filho, doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Ana Carolina da Hora, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-DireitoRio); Ana Claudia Santano, coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil; e Fernanda Campagnucci, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil."

Evidentemente é importante o teste nas urnas eletrônicas apesar de funcionarem "stand-alone". Como não estão ligadas à internet, argumentam, não podem ser "hackeadas". Mas devem ser testadas principalmente para garantir que o software ali hospedado vai executar a tarefa que se pretende: registrar com fidedignidade o voto do eleitor. A preocupação com a urna em si é importante mas não é o ponto mais vulnerável do sistema, a meu juízo. Existem outras etapas tão ou mais importantes do que essa.

Encerrada a votação, o presidente da seção usando uma senha pessoal, emite o Boletim de Urna (BU) que é o somatório dos dados coletados. Os BUs são tornados públicos e uma via segue então para a junta eleitoral responsável por aquela seção. Ali os dados são autenticados e transferidos ao respectivo Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Este os retransmite para o TSE através de uma rede exclusiva do sistema eleitoral. Isto torna menos vulnerável o sistema de transmissão. No sistema de transmissão do resultado da votação na urna, portanto, é menos provável que haja alguma tentativa de modificação dos desejos do eleitor.

“Esses dados só conseguem ser lidos nos equipamentos da Justiça Eleitoral que possuem as chaves para as diversas camadas de segurança, integrantes do sistema eletrônico de votação. Assim, depois de ser verificada na zona eleitoral, a autenticidade dos votos da urna eletrônica é checada mais uma vez no TSE, antes de serem incluídos na totalização”, informa o TSE.

A totalização centralizada é, sem dúvida, o elo mais vulnerável do sistema. Uma vez testado aleatoriamente um (estatisticamente) considerável número de urnas eletrônicas, checada a autenticidade dos BUs na junta eleitoral respectiva, utilizado um enlace privativo do TSE para a transmissão criptografada dos dados, resta assegurar-se que o software programado e hospedado no mainframe para a totalização esteja desenhado para cumprir o que determina a lei. Um qualificado profissional de TI, programador experiente e que tenha acesso ao sistema, certamente saberá como modificar os softwares mesmo durante o processo de apuração, para o benefício de algum candidato ou partido.

Isso já aconteceu de forma sistêmica? Não creio. É possível acontecer? Sim, é possível. Portanto, "seguro morreu de velho..."

domingo, 8 de maio de 2022

Stalin, o Papa e as Divisões Militares




Em 1935 era Presidente da França o engenheiro Albert François Lebrun. O Sr. Lebrun encarregou seu Ministro de Negócios Estrangeiros, Pierre Laval, para ir à Rússia tentar negociar com Joseph Stalin, o todo-poderoso Secretário Geral do Partido Comunista da Rússia Soviética, um pacto de não-agressão franco-soviética. A França já antevia o desejo expansionista de Hitler e temia uma agressão alemã ao seu território (o que de fato aconteceu em maio de 1940).

Na reunião, Stalin teria demonstrado interesse em saber qual a situação do exército francês, de que equipamentos militares dispunha, quantas Divisões possuía, etc. O Ministro Pierre Laval tentava convencer Stalin usando toda espécie de argumentos. Stalin era um perseguidor implacável de católicos no seu território, por isso era visto com muito maus olhos pelo Vaticano. O Papa Pio XII não perdia oportunidade para fazer restrições públicas ao dirigente russo. O Ministro Laval fez saber a Stalin que a assinatura do pacto certamente atrairia a boa vontade do Papa para com ele. Quando ele teria dito: “Ah, o Papa! Quantas divisões tem o Papa?”

Existem várias versões dessa alegada frase de Stalin. Uma outra versão divulgada em 1944 pela mídia americana é que numa conferência em Teerã, em dezembro de 1943, entre Joseph Stalin, Franklin Roosevelt e Winston Churchill, este último teria sugerido a possibilidade de o Papa estar associado a algumas das decisões tomadas. “O Papa", teria dito Stalin pensativo. "O Papa. Quantas divisões ele tem?".

Entre tantas versões existentes, existe uma em que o Presidente Roosevelt expressara a confiança de que a liberdade de culto seria restaurada na Rússia. Como parte desse desejo, em Teerã sugerira que o papa pudesse ser convidado para a conferência de paz, ao que Stalin teria respondido: “Com quantas divisões ele contribuirá para a vitória?”

Se a história é autêntica ou não e em que circunstância, é irrelevante. Serve para ilustrar as tendências da época em quase todo o mundo de que a espada é mais poderosa do que o pensamento. De que a democracia é uma concessão das armas e que os exércitos garantem diretamente não apenas segurança e prosperidade, mas também direitos humanos e liberdades.

Li ontem nos veículos de comunicação que o Ministro da Defesa do Brasil havia pedido uma audiência ao Ministro do STF Luiz Edson Fachin. Fachin está Presidente do Tribunal Superior Eleitoral e sob a alegativa de agenda lotada, não concedera a audiência e sequer marcara para uma data qualquer. Não entendi porquê, mas veio-me imediatamente à mente a suposta frase de Stalin.

Freud explica!

quinta-feira, 5 de maio de 2022

"Vai ser um ditadorzinho dos diabos!"




Era início de abril de 1986. Viajávamos, o Senador Virgílio Távora e eu para Lavras da Mangabeira em um Cessna Bimotor. A justificativa era uma palestra que Virgílio daria sobre a Constituinte que se instalaria em fevereiro de 1987, mas que já polarizava as atenções do país. Virgílio sempre havia sido membro preeminente do Senado e não surpreendia que ele fosse procurado diariamente por seus pares, lideranças diversas, imprensa etc, para comentar sobre o processo constituinte.

O assunto podia ser importante para a sociedade lavrense, mas eu não estava interessado no que diria o Senador. Eu era candidato a Deputado Estadual e tinha tido dificuldade de aproximar-me do Prefeito de Lavras, Chico Aristides. Era uma grande liderança na região e seu apoio significaria muito para mim. Não apenas pelos votos que ele conduziria no seu município, mas pela repercussão que causaria nos municípios vizinhos. Eu sabia da atenção e amizade que Chico nutria por Virgílio e liguei para o Senador. Expliquei-lhe que havia feito contacto com o Prefeito mas ele disse-me que ainda ia resolver em quem votar, que aquele município era extremamente conveniente para mim pela fronteira com Várzea Alegre, onde eu estava montando um expressivo grupo de apoio e que os votos de Lavras da Mangabeira provavelmente consolidariam uma presença forte do grupo virgilista que eu representaria naquela região.

Voltemos ao voo do Cessna. Virgílio pedira-me para marcar uma palestra dele em Lavras que ele falaria com o Prefeito. E estávamos então voando com esse objetivo: a palestra do Senador e como pano de fundo, não transparente para o resto da humanidade, a ajuda do líder político a um dos muitos que o procuravam para ter a sua benção. Durante o voo o Senador lia o Jornal "O Estado" que trazia notícias sobre a próxima campanha para Governador. O PMDB acabara de escolher seu candidato, o empresário Tasso Jereissati, por inspiração do então Governador Gonzaga Mota e apoiado pelo presidente do Partido, Mauro Benevides. Em determinado momento o Senador fecha o jornal e dirigindo-se a mim, afirma: "Nilo, se esse doutorzinho se eleger governador, vai ser um ditadorzinho dos diabos!".

O resultado da viagem e da eleição poderei elaborar em outro momento. Saltemos 35 anos no tempo. As candidaturas para Presidente estão (quase) postas. Mas como "o Brasil não é para amadores", os candidatos estão em campanha mas não podem dizer que são candidatos (são pré-candidatos) nem podem pedir votos (a não ser cantoras de sucesso da Bahia). Imaginemos o seguinte cenário: Lula perde a eleição para Bolsonaro ou desiste de sua candidatura e lança um poste qualquer (estou apostando em Boulos, Jaques Wagner, Haddad ou Gleise). Bolsonaro reelege-se Presidente e no seu vácuo elege-se Tarcísio em São Paulo, reelege-se Zema em Minas e mais uma dezena de Governadores alinhados com o bolsonarismo. Essa ecologia remete-me à frase premonitória do grande Virgílio Távora: "Nilo, esse doutorzinho vai ser um ditadorzinho dos diabos!"

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Triste sina




Deus é brasileiro, reza o dito popular. Mas Esse conterrâneo parece ter abdicado de sua cidadania. Se não, está mostrando sua face apocalíptica, obrigando-nos a nos reconhecermos pecadores e aceitarmos o cenário atual como castigo pelos pecados cometidos.

Ainda que seja cedo para cravarmos como definitivo o quadro que se desenha, as campanhas presidenciais cada vez mais afunilam para termos o atual Presidente e o ex como disputando o privilégio de dirigir esta grande nação.

De um lado, a chapa centauro, figura da mitologia grega formada metade humana, metade animal. Ou mesmo a chapa lobisomem (lendas brasileiras), com corpo de homem e cabeça de lobo. Sim, porque inimaginável o ex-Governador Alckmin da Opus Dei, batendo palmas para o hino da Internacional Socialista ("Crime de rico a lei o encobre/ O Estado esmaga o oprimido/ Não há direitos para o pobre/Ao rico tudo é permitido…”). Aliás, ele e seu grupo político (?) sentem algum constrangimento pelo apoio do PSOL e PC do B? E estes entregam seus corações e mentes neste apoio?

De outro lado, a tentativa de reeleição do atual Presidente que se elegeu de forma brilhante, com muito pouco recurso de mídia e financeiro e as negativas de bandeiras de campanha ao longo do mandato. Uma rachadinha aqui, um depósito em conta corrente ali, mas nada nem de longe comparável aos escândalos da era PT (importante reler - https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2019/09/nao-esperem-de-mim.html). O que decepciona é a amasia com o Centrão, a demissão de quadros da melhor qualidade como os Generais Otávio Rêgo Barros e Santos Cruz, além do fiador do combate à corrupção e ao crime organizado, Sérgio Moro, entre outras.

Alguns argumentam que Bolsonaro não teve sorte durante seu primeiro mandato: Brumadinho, óleo na costa brasileira, pandemia, guerra na Europa Oriental etc. Ora, brasileiras e brasileiros, se não podemos permitir sob nenhuma hipótese, o fantasma da volta da quadrilha que assaltou o país durante mais de uma década e meia, também não necessitamos de um dirigente azarado! O Brasil precisa de alguém com sorte, com muita sorte. E que Deus reassuma a sua cidadania.

Triste sina do nosso país.

P.S. Continuo sem acreditar que o ex-Presidente Lula manterá sua candidatura até a eleição.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Bolsonaro e Patton




O jornalista e âncora da CNN, William Waack, afirma em comentário que o indulto concedido por Jair Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira realmente não rende votos. Diz o jornalista: “O ‘golaço’ de Bolsonaro contra o STF gera picos nas redes sociais, mas está distante da realidade da grande massa de eleitores brigando com inflação. Ou seja, de escasso efeito eleitoral amplo”. Concordo com ele, mas o incremento de mais de 100% no "Bolsa Família", hoje "Auxílio Brasil" (para citar apenas um exemplo), rende votos.

Chegue às três horas da tarde de um dia qualquer da semana (dia dito útil) na Bodega de Fuíta, no Distrito de Canindezinho no Município de Várzea Alegre, e você encontrará meia dúzia de rapazes em volta de uma sinuca, "assessorados por uma garrafa da marvada", jogando e gargalhando. Em tempos outros, eles estariam ao sol, brocando mato, fazendo cerca, limpando a roça ou espalhando veneno no arrozal. Tudo isso para ganhar 15 reais ao fim do dia.

Os indivíduos aos quais me refiro não se importam com o indulto, nunca ouviram falar em Daniel Silveira, sequer sabem onde fica Brasília. Mas têm a certeza de que no final do mês irão ao Banco e sairão dali com "quatrocentões no pé do cipó". Isso dá voto!

Ademais não creio que Bolsonaro, na avaliação juntamente com seus estrategistas, tenha pensado em ganhar votos com essa ação. Imagino que a sua intenção foi mais aquela registrada por outra desafeta do Presidente, Vera Magalhães: "Está conclamando seus seguidores à guerra, e a batalha final todos sabem qual é: a eleição."

Os discursos de Bolsonaro após a concessão da Graça ao Deputado, remete-me à série de discursos feitos pelo General George S. Patton (já herói de guerra) às tropas do Terceiro Exército dos Estados Unidos em 1944, antes da invasão aliada da França. Os discursos pretendiam motivar o Terceiro Exército para o seu dever de combate. Nos discursos, Patton estimulava os seus soldados a cumprirem o seu dever, independentemente do medo pessoal, e os exortou à agressividade e à ação ofensiva constante.

Você, lulopetista, certamente vai entender que eu estou comparando Jair Bolsonaro com George Patton. Infelizmente a geração Paulo Freire tem um certo grau de dificuldade para interpretar o que lê. São histórias de vida incomparáveis. Este era General e herói de guerra, aquele é Capitão reformado em situação confusa, para dizer o mínimo. Devo reconhecer, no entanto, que eles têm semelhanças: o General americano tinha a "habilidade de inspirar tropas por meio de discursos cheios de palavrões. A sua ênfase em ações ofensivas agressivas mostrou-se eficaz."

Assista aos vídeos dos últimos discursos do Presidente que você certamente compreenderá melhor este texto. E eu serei eternamente grato pela sua generosidade de lê-lo.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

"Moro foi parcial e direitos de Lula foram violados, conclui Comitê da ONU"




"Moro foi parcial e direitos de Lula foram violados, conclui Comitê da ONU

O Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) concluiu que o ex-juiz Sergio Moro foi parcial no julgamento dos processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na "lava jato". Também considerou que os direitos políticos do petista foram violados quando ele foi impedido de disputar as eleições de 2018.

O órgão tem a atribuição de supervisionar o cumprimento do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, assinado e ratificado pelo Brasil.

A defesa de Lula e o governo federal já foram informados sobre o resultado, mas o anúncio oficial acontecerá apenas nesta quinta-feira (28/4)."

O que é esse Comitê? O Comitê de Direitos Humanos da ONU não é um órgão permanente, reúne-se três vezes por ano (março, julho e outubro), em Genebra, por um período de cerca de três a quatro semanas em cada oportunidade.

Os 18 membros do Comitê de Direitos Humanos são especialistas independentes de direitos humanos de diversas nacionalidades, e atuam em suas capacidades pessoais e não como representantes dos Estados Partes (governos que adotaram os tratados). Eles trabalham de forma voluntária, não são funcionários da ONU e não recebem, portanto, um salário.

É importante que não deve ser confundido com o mais alto perfil, a Comissão das Nações Unidas para Direitos Humanos ou a sua substituição, o Conselho de Direitos Humanos, muito menos com a Assembleia Geral, estes sim órgãos permanentes.

Já em 2018, dois membros desse Comitê encaminharam uma recomendação para que o ex-Presidente Lula da Silva, que se encontrava preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro (portanto submetido à Lei da Ficha Limpa), participasse da eleição. Evidentemente o Tribunal Superior Eleitoral desconheceu a recomendação, priorizando atender aos ditames do ordenamento jurídico nacional.

Por oportuno, registre-se que A ONU ainda não conseguiu interferir para coibir as tristes violações de direitos humanos na Venezuela, na Coréia do Norte, em Cuba, para citar apenas alguns dos países membros.

Por último, mas não menos importante, esse mesmo comitê emitiu um Comentário Geral sobre o Direito à vida, e pasmem! Veja o que recomendaram: "o aborto é um direito humano, as mortes maternas evitáveis são uma violação do direito à vida e que o direito à vida começa no nascimento".

O Comentário Geral é o resultado de um processo no Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas. Os membros e as organizações não governamentais trabalharam juntos para criar padrões globais críticos de direitos humanos e garantir que o acesso ao aborto seja protegido pela lei internacional de direitos humanos. Reafirma o princípio de que os direitos humanos só se aplicam após o nascimento. Estabelece que a criminalização do aborto ou gravidez de mulheres e meninas solteiras, incluindo a criminalização de prestadores de serviços médicos, pode ser considerada uma violação do direito à vida de mulheres ou meninas. Nada, absolutamente nada sobre os Direitos Humanos da criança na barriga da mãe!!

Esse comitê, definitivamente, é criminoso e não merece a mínima atenção!

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Atualizado em 28/04/2022 às 14:09h


NOTA DE SERGIO MORO SOBRE RELATÓRIO DE COMITÊ DA ONU

Após conhecer o teor do relatório de um Comitê da ONU e não dos órgãos centrais das Nações Unidas, pode-se perceber que suas conclusões foram extraídas da decisão do Supremo Tribunal Federal do ano passado, da 2ª turma da Corte, que anulou as condenações do ex-Presidente Lula.

Considero a decisão do STF um grande erro judiciário e que infelizmente influenciou indevidamente o Comitê da ONU. De todo modo, nem mesmo o Comitê nega a corrupção na Petrobras ou afirma a inocência de Lula. Vale destacar que a condenação do ex-presidente Lula foi referendada por três instâncias do Judiciário e passou pelo crivo de nove magistrados.

Também é possível constatar, no relatório do Comitê da ONU, robustos votos vencidos que não deixam dúvidas de que a minha atuação foi legítima na aplicação da lei, no combate à corrupção e que não houve qualquer tipo de perseguição política.

domingo, 24 de abril de 2022

O Indulto a Daniel Silveira II




Em 18 de maio de 2020 sob o título "Do direito de manifestar opiniões", escrevi:

Todos temos o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos pessoais sem medo de retaliação ou censura, conforme Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, no seu Artigo XIX. Assim também, a Constituição brasileira de 1988 registra o direito à liberdade de expressão, como abaixo:

"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;"

Pois bem: protegido por esse direito universal e constitucional, ouso continuar a análise do Decreto Presidencial que concedeu indulto (Graça) ao Deputado Daniel Silveira.

Imaginemos, apenas por amor ao debate (não creio que vai acontecer), que o STF decida pela inconstitucionalidade do decreto que beneficiou o Deputado. Isso arrastaria o país a uma crise institucional sem precedentes. E com desfecho imprevisível.

Nesse caso hipotético, seria uma saída recorrer ao Art. 142 da Constituição? O que diz o artigo?

"Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem."

Existem interpretações desse dispositivo constitucional para todos os gostos:

1. O sociólogo, jurista e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, José Eduardo Faria, defende que a ideia de que o artigo 142 permite às Forças Armadas agirem como poder moderador de conflitos entre os poderes não procede, juridicamente. E elabora: "...os juízes já não são vistos como agentes presos a um sistema lógico-formal de regras, mas encarados como profissionais cujas decisões resultam da ponderação entre suas visões jurídicas, morais e políticas e os aspectos factuais dos casos sob sua responsabilidade. Desse modo, quando o STF examina um texto legal, não há sentido único a ser extraído dele – o que há são sentidos contextualizados pelas circunstâncias que balizam a escrita e a comunicação dos legisladores e juízes."

2. Jorge Rubem Folena de Oliveira, Doutor em ciência política (IUPERJ), com pós-doutorado (CPDA/UFRRJ), mestre em Direito (UFRJ) e graduado pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem uma visão menos radical que a anterior. Registra que desde a Constituição de 1824, no artigo 98, busca-se um poder moderador:

"Art. 98. O Poder Moderador é a chave de toda a organização Política, e é delegado privativamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nação, e seu Primeiro Representante, para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independência, equilíbrio, e harmonia dos mais Poderes Políticos”.

Essa necessidade repete-se nas Constituições seguintes até a vigente. "...a República deveria ter posto fim ao emprego das forças militares na manutenção da segurança interna; porém, a Constituição de 1891 manteve regra idêntica à do absolutismo..." "O ponto diferenciador da Constituição de 1988 em relação às constituições anteriores foi a extensão a todos os Poderes constituídos da capacidade de convocar as Forças Armadas, para sua própria garantia e da lei e da ordem."
"Vemos, então, que convocar uma GLO é muito mais simples do que declarar um estado de exceção; porém, uma vez que esta seja instaurada, as forças militares podem, em tese, ser empregadas para impor um regime autoritário, sob um manto de falsa legalidade constitucional."
"Por tudo isso, é importante que a sociedade se una para expurgar esse instituto de uma velha ordem, já superada..."

Como se depreende do texto, o jurista reconhece a existência do Art. 142 mas clama pelo seu expurgo.

3. Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifeo, Unimeo, do CIEE-SP, das escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), superior de Guerra (ESG) e da magistratura do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (ARG), San Martin de Porres (PER) e Vasili Goldis (ROM), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (ROM) e da PUC-PR e RS, e catedrático da Universidade do Minho (POR); presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio (SP); ex-presidente da Academia Paulista de Letras e do Iasp (Instituto dos Advogados de São Paulo).

O professor Ives Gandra tem uma posição francamente favorável à interpretação de que as Forças Armadas estão investidas do Poder Moderador por determinação constitucional no seu Art. 142. E justifica pelo acompanhamento e consultoria que prestou durante a Constituinte de 1988, seja ao seu Presidente Ulisses Guimarães, seja ao Relator Geral Bernardo Cabral.

"Minha interpretação, há 31 anos, manifestada para alunos da universidade, em livros, conferências, artigos jornalísticos, rádio e televisão é que NO CAPÍTULO PARA A DEFESA DA DEMOCRACIA, DO ESTADO E DE SUAS INSTITUIÇÕES, se um Poder sentir-se atropelado por outro, poderá solicitar às Forças Armadas que ajam como Poder Moderador para repor, NAQUELE PONTO, A LEI E A ORDEM, se esta, realmente, tiver sido ferida pelo Poder em conflito com o postulante."

"...vamos admitir que, declarando a inconstitucionalidade por omissão do Parlamento, que é atribuição do STF, o STF decidisse fazer a lei que o Congresso deveria fazer e não fez, violando o disposto no artigo 103, parágrafo 2º, assim redigido:
Art. 103. (...) § 2º Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias.
Ora, se o Congresso contestasse tal invasão de competência não poderia recorrer ao próprio STF invasor, apesar de ter pelo artigo 49, inciso XI, a obrigação de zelar por sua competência normativa perante os outros Poderes.

Pelo artigo 142 da CF/88 caberia ao Congresso recorrer às Forças Armadas para reposição da lei (CF) e da ordem, não dando eficácia àquela norma que caberia apenas e tão somente ao Congresso redigir. Sua atuação seria, pois, pontual. Jamais para romper, mas para repor a lei e a ordem tisnada pela Suprema Corte, nada obstante — tenho dito e repetido — constituída, no Brasil, de brilhantes e ilustrados juristas."

A partir dessas opiniões diversas todos temos o direito de formar um juízo de valor, mesmo um engenheiro velho aposentado como eu.

Que Deus se apiade desse imenso Brasil!

O Indulto a Daniel Silveira I




O STF condenou o Deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) pelos crimes de tentativa de impedir o livre exercício dos poderes e coação em processo judicial. Ele foi condenado a oito anos e nove meses de reclusão, inicialmente, em regime fechado, à perda do mandato de deputado federal e à suspensão dos seus direitos políticos. É bem verdade que ainda cabe alguma espécies de recurso, como os Embargos de Declaração para que seja a sentença transitada em julgado.

O artigo 84 da Constituição Federal diz que “compete privativamente ao Presidente da República: XII – conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei”. A Graça, também conhecida como indulto individual, está prevista no artigo 734 do Código de Processo Penal. “Art. 734. A graça poderá ser provocada por petição do condenado, de qualquer pessoa do povo, do Conselho Penitenciário, ou do Ministério Público, ressalvada, entretanto, ao Presidente da República, a faculdade de concedê-la espontaneamente”.

O Presidente Jair Bolsonaro não esperou sequer a publicação do acórdão (decisão) condenatório para usar sua faculdade privativa prevista no Art. 84 da CF combinado com o Art. 734 do CPP. Menos de 24 horas depois da condenação, editou Decreto em que concedeu ao parlamentar o benefício da “graça institucional”, que significa um perdão da pena.

O primeiro impasse desse processo é anterior ao Decreto Presidencial. Já no estabelecimento da pena ("...à perda do mandato de deputado federal...") surge o desencontro de interpretações. Quem tem o poder legal de cassar um agente público eleito pelo voto? O Art. 55 da CF reza: “Perderá o mandato o Deputado ou Senador:VI - que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.”
Neste caso, a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por voto secreto e maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa (art. 55, § 2º, CF). Portanto o STF não teria o poder de estabelecer no acórdão a perda do mandato de membro de qualquer das casas legislativas federais.

Com relação ao Decreto Presidencial ("que vai ser cumprido" frisou o Presidente quando do seu anúncio), repousam algumas dúvidas:

1. Se é privativo do Presidente da República, deve ele ser analisado pelo STF, se provocado?
2. O STF pode recepcioná-lo no todo, em parte ou simplesmente declará-lo inconstitucional?
3. Esse Decreto pode ser sustado por Decreto Legislativo?

O Supremo Tribunal Federal já foi provocado e sob sorteio escolhida a Ministra Relatora Rosa Weber. É essencial que Sua Excelência tenha sensatez e equilíbrio neste momento. Quem sabe uma saída honrosa para o STF seria recepcionar o Decreto do Presidente, reconhecê-lo como legal para impedir a execução da pena e estabelecer que não tem o poder de extinguir o crime nem a condenação imposta, como defendem alguns juristas. Isso tornaria o Deputado impossibilitado de concorrer à próxima eleição.

O evoluir desse processo poderá criar grave crise institucional com sua consequente instabilidade política, profundamente inoportuna e indesejável ao país.

sábado, 16 de abril de 2022

O que a Petrobras e o Mais Médicos têm em comum?

A U.S. Securities and Exchange Commission é uma agência federal independente de regulamentação e controle dos mercados financeiros. Equivale à CVM brasileira. Depois de uma profunda investigação iniciada em 2016, em 22 de junho de 2018, o Juiz Jed S. Rakoff do Tribunal Distrital dos Estados Unidos, Distrito Sul de Nova York, concordou (em decisão final) com acordo de quase três bilhões de dólares firmado entre a Petrobras e investidores daquele país.

Durante a investigação conduzida pela U.S. Securities and Exchange Commission e que contou inclusive com a participação do FBI e da Seção de Fraude da Divisão Criminal do Departamento de Justiça americano para a instrução do processo contra a Petrobrás, encontraram o que segue:

"A Comissão de Valores Mobiliários acusou a empresa brasileira de petróleo e gás Petróleo Brasileiro S.A. de enganar os investidores norte-americanos ao apresentar declarações financeiras falsas que ocultavam um esquema maciço de suborno e licitações na empresa."
"...altos executivos da Petrobras trabalharam com os maiores empreiteiros e fornecedores da Petrobras para inflar o custo dos projetos de infraestrutura da Petrobras em bilhões de dólares. As empresas que executam esses projetos pagaram bilhões em propinas aos executivos da Petrobras, que dividiram os pagamentos ilegais com políticos brasileiros que os ajudaram a obter seus cargos de alto nível na Petrobras."
"A ordem da SEC conclui que os registros falsos e enganosos da Petrobras incluíam declarações materialmente falsas e enganosas a investidores dos EUA em uma oferta de ações de US$ 10 bilhões concluída em 2010. Os registros deturparam os ativos da Petrobras, projetos de infraestrutura, a integridade de sua gestão e a natureza de seus relacionamentos com seu acionista majoritário, o governo brasileiro."
"A Petrobras levantou fraudulentamente bilhões de dólares de investidores dos EUA, enquanto seus executivos seniores operavam um esquema maciço e não divulgado de suborno e corrupção."

E o que tem o Mais Médicos a ver com isso? Simples: o Tribunal de Apelações dos EUA para o Distrito de Columbia confirmou uma decisão do tribunal distrital de primeira instância, determinando na semana passada a continuidade de uma ação movida por vários médicos cubanos contra a Organização Pan-Americana da Saúde. Essa ação contra a OPAS da Organização Mundial da Saúde é por seu suposto papel em um esquema de tráfico de médicos cubanos em benefício do governo comunista da ilha.

“A decisão é importante tanto como precedente legal quanto como uma oportunidade para os médicos, meus clientes que foram traficados para o Brasil pela OPAS, terem a oportunidade de responsabilizar a OPAS”, disse Sam Dubbin, advogado que representa os médicos cubanos. “O governo cubano nunca teria conseguido traficar meus clientes para o Brasil sem o papel central da OPAS como intermediário financeiro.”

O Governo Dilma Rousseff contratou cerca de 11.000 médicos cubanos. Evidente que os médicos que retornaram a Cuba, sob o tacão do Partido Comunista Cubano, não serão solidários com essa ação. Mas os muitos que fugiram para os Estados Unidos e as centenas que aqui permaneceram, esses certamente serão parte legítima do Processo.

Conforme apurou o site de notícias UOL, "A contratação de médicos cubanos foi definida por um termo assinado em 23 de abril de 2013 com a Opas --que é um braço da OMS (Organização Mundial da Saúde). A entidade, por sua vez, fez um segundo acordo com o governo cubano para pagamento e envio de médicos. Pelas regras, o Ministério da Saúde transfere ao órgão o valor de R$ 11.520 por profissional. A Opas repassa aos contratados cubanos cerca de R$ 3.000. A diferença fica com o governo de Cuba. Segundo apurou o UOL, o convênio já resultou num pagamento pelo Ministério da Saúde de R$ 7,1 bilhões, entre os anos de 2013 e 2017. O acordo prevê que 5% desse montante fique com a Opas, a fim de cobrir os custos indiretos".

Se o sistema de justiça dos Estados Unidos condenar a Organização Mundial da Saúde, certamente o Brasil também será condenado. Sabe você quem vai terminar pagando essa conta?

Esses são apenas dois exemplos da "doce" herança dos Governos do PT.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Vergonha alheia!




"Vergonha alheia é uma locução da língua portuguesa que define o sentimento de vergonha que uma pessoa sente ao testemunhar algo que outro indivíduo disse ou fez; o ato de sentir vergonha pelo próximo."

"A vergonha alheia é um sentimento de constrangimento ao presenciar alguma situação embaraçosa feita por outro indivíduo que, normalmente, não percebe o quanto ridículo, estúpido, ignorante ou vergonhoso foi o seu ato."

Em 1990 eu exercia o mandato de Deputado Estadual, líder de oposição, crítico mordaz ao Governo Tasso Jereissati a quem eu combatia sem trégua. Convidado por um amigo querido, por delegação do Grupo do Governador, para aderir ao seu partido e apoiar seu projeto, declinei do convite. Meu orientador político e chefe do Grupo do qual eu participava era Virgílio Távora, que havia falecido há pouco mais de um ano. Portanto, não havia nenhum óbice para que eu aceitasse a mudança de partido.

Eu tinha consciência de que esse movimento garantiria a minha reeleição e sabia quão difícil seria enfrentar a máquina governamental e a admiração que o povo cearense nutria pelo Governador. Mas o meu sentimento pessoal era de que eu não circularia com a cabeça erguida, especialmente entre os amigos e familiares, se negasse tudo que eu defendera ao longo de todo o mandato. E esses amigos e familiares certamente iriam sentir por mim, "vergonha alheia".

Recentemente presenciei no espectro político brasileiro uma guinada de 180 graus. O desmoronamento de uma história construída ao longo do tempo com sacrifício, com trabalho e com combate à esquerda representada pelo PT. Um líder tradicional do PSDB, com centenas de pronunciamentos denunciando "mal feitos" dos governos petistas, abraçar àqueles a quem sempre manifestou desapreço e mais do que isso, foi sempre um combativo soldado contra esse segmento da política brasileira.

Assistir aos vídeos de Geraldo Alckmin de 2021 para trás e ouvir o que foi dito recentemente em encontro de Lula/Alckmin com lideranças sindicais, é de morrer de tristeza. Mais do que tristeza, é desacreditar na atividade política e no ser humano. A política é "o conjunto de atividades que estão associadas à tomada de decisões em grupos, ou outras formas de relações de poder entre os indivíduos, como a distribuição de recursos ou status."

Não pretendo "dar palanque" ao ex-governador de São Paulo e ao ex-presidente, mas é importante que você assista ao vídeo da reunião dos sindicatos. E sinta o mesmo que eu senti: "vergonha alheia"!

Virgilio Távora, um homem não convencional




Nos tempos atuais, em que agremiações políticas executam uma perversão operesca das boas intenções, onde os fins justificam os meios, vem-me à memória a figura ímpar de Virgílio Távora, a antítese de tudo que vemos agora.

Recentemente, num encontro informal de políticos aposentados, um dos mais novos e que não tivera o privilégio de privar da companhia de VT em nenhum momento, perguntou porque depois de trinta anos da morte desse personagem, ainda se falava tanto nele. A questão foi prontamente respondida por um dos mais experientes do convescote: "porque era honesto e cumpridor de compromisso".

A sentença acima define talvez a faceta mais preeminente e valiosa para a atividade política, mormente nos dias atuais, tão carentes dessas virtudes. Mas não define a amplitude da alma de VT. O VT obstinado por mudar a economia do Ceará - "uma economia baseada no binômio boi/algodão é anacrônica, e não nos levará a lugar algum" - ou mais recentemente seu esforço para a industrialização e o fortalecimento do segmento de serviços no nosso estado. Menos ainda o VT na intimidade, marido dedicado, pai amoroso e avô bobo como todos os avós, alem de amigo incondicional. Portanto, Virgílio Távora era realmente um político honesto e escravo da sua palavra empenhada, mas era muito mais que isso.

O jornalista Jorge Henrique Cartaxo, numa magistral entrevista concedida pelo Senador Virgílio Távora já próximo ao seu falecimento, classifica-o como "o homem público mais completo que o Ceará produziu neste século", referindo-se ao século XX.

Quando leio o poema de Fernando Pessoa "O Guardador de Rebanhos" (pelo heterônimo Alberto Caieiro), lembro de Virgílio. Ou seria, ao contrário, quando lembro de Virgílio, remeto-me às estrofes sobre o rio Tejo, de "O Guardador de Rebanhos"?

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Sim, porque Virgílio sabia que o Brasil era um "mais belo rio" que muito precisava da sua inteligência e dedicação, mas não esquecia do "rio que corria na sua aldeia", o seu querido Ceará, e achava-o mais belo porque este mais necessitava dele.

Virgilio foi um intransigente defensor da liberdade, lato sensu. Que o digam aqueles que ele pôde proteger ou minorar o sofrimento durante a chamada Revolução de 1964. A liberdade pressupõe, sobretudo, bom senso e honestidade intelectual. E Virgílio tinha isso. É nesse segmento que entendo os cearenses ainda não fizeram justiça a VT. É certo que existem centenas, talvez milhares de equipamentos públicos nominados como Virgilio de Moraes Fernandes Tavora. Mas o nome impresso no mármore frio ou calcado no bronze, não perpetuam a história de um indivíduo.

O ser humano tem a insuperável inclinação para ser um atleta olímpico do genocídio aos seus membros de sucesso. Prncipalmente nas áreas intelectual e política. Os cearenses devem a Virgílio Távora um memorial, que registre para os pósteros todas as lutas capitaneadas por esse extraordinário ser humano, em prol do povo do seu estado e do Brasil.

Pt, saudacoes!

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Putin e Lula: qualquer semelhança é mera coincidência?




"Putin afirma que ganha US$ 140.000 e tem um apartamento de 240 metros quadrados. Seu patrimônio líquido real é um mistério que ninguém pode resolver." (fortune.com em 02 de março de 2022).

Embora amplamente considerado um dos homens mais ricos do mundo, documentos oficiais russos dizem que tudo o que ele possui são dois carros velhos, um pequeno apartamento e qualquer economia que o ex-agente da KGB de 69 anos conseguiu com um salário de cerca de US$ 140.000 por ano. Ninguém acredita que os documentos oficiais apresentam o quadro real. A maioria dos especialistas ocidentais diz que seus vastos ativos são secretamente mantidos por um círculo de comparsas – os chamados oligarcas russos, suas famílias e parentes, além de alguns bens em nome de suas filhas. Ou seja: tudo em nome de terceiros.

Em 2017, depondo no Senado americano, o financista Bill Browder testemunhou perante o Comitê Judiciário do Senado dos EUA ,que o presidente russo Vladimir Putin era o "homem mais rico do mundo", resultado de "crimes terríveis" cometidos pelo governo de Putin. Bill Browder, CEO da Hermitage Capital Management, uma empresa de investimentos que já foi a maior investidora de portfólio na Rússia, afirmou: "Acredito que ele valha 200 bilhões de dólares". Browder testemunhou também que Natalia Veselnitskaya, ligada ao Kremlin, era a "advogada da família" de família russa amiga de Putin, proprietária da Prevezon Holdings Ltd., alvo de um caso de fraude e lavagem de dinheiro de US$ 230 milhões.

Recentemente a Deputada Democrata pelo Estado da Califórnia e Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, disse que o líder russo é 'provavelmente o homem mais rico do mundo'. "Putin é provavelmente o homem mais rico do mundo. Ele tem essas residências palacianas - isso é realmente o que colocou as pessoas em apuros na Rússia porque eles mostraram a arrogância da riqueza com a qual ele vivia".

De acordo com seus adversários políticos, alguns presos, Putin tem quatro iates, incluindo um superiate de US$ 100 milhões, 43 aviões, 700 carros, 15 helicópteros, incluindo um jato de luxo com banheiro de ouro.

Seria Putin o Lula soviético? Não, não creio. Não me consta que Putin faz palestras...

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Política não é sua praia.




"O Juiz Moro tem uma tarefa que está sendo cumprida com a admiração e aplauso da grande maioria dos brasileiros. Ninguém, além do Lula de 2010, chegou tão próximo da unanimidade nacional. Fazer parte do ministério do presidente recém-eleito, certamente abrilhantaria aquele colegiado. No entanto, agora que muitos dos implicados na operação lava jato perderam o foro privilegiado, ausentar-se seria no mínimo alimentar uma forte decepção na sociedade brasileira. Apesar da sabedoria popular estabelecer que "o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis", a justiça precisa da sua mão firme e correta em defesa dos valores e leis nacionais. Ademais, vamos combinar que o Executivo pode não ser a "sua praia". Seguindo carreira no Judiciário, você terá eternamente o reconhecimento de (quase) todos. Você destemidamente deu o start a esse processo de expurgo e exorcismo dos "mal feitos" dos poderosos."

O acima foi escrito na terça-feira, 30 de outubro de 2018, como parte do artigo "Diga 'não', Moro!"(https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2018/10/diga-nao-moro.html). O único reparo que eu faria hoje, quase três anos e meio depois, seria na frase - Ademais, vamos combinar que o Executivo pode não ser a "sua praia". Não é o Executivo que não é sua praia, Moro. É a política na forma como se faz hoje.

Você seria capaz de arregimentar um bando de marginais para "mapear os endereços dos Deputados e 50 pessoas visitarem suas casas para conversar com suas esposas, filhos. Incomodar a tranquilidade deles?"

Ou talvez "recomendar a um Ministro que recebesse pastores evangélicos para intermediar verbas para prefeitos?"

Quem sabe, na eventualidade de ser Presidente, afirmar que uma guerra entre duas potências estrangeiras seria resolvida aqui "tomando cerveja. Se não na primeira, na segunda, se não na segunda, na terceira, se não na terceira, até acabar as garrafas."

Ou talvez, Moro, você no exercício do mandato de Presidente, diria que ia trocar determinado detentor de cargo público porque "não iria esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu", para proteger os seus próximos?

"Prezada, não estou à venda", e se você realmente não está disposto a prostituir seus princípios, (perdoe a expressão chula) mande todos esses políticos à merda. Você pode contribuir com o país sendo apenas um bom cidadão. Não se cansou de ser usado por pessoas "espertas" que apenas tiraram proveito da sua imagem, do seu caráter e do respeito que os brasileiros cultivamos por você?

Deus o abençoe, Sérgio Moro!

terça-feira, 5 de abril de 2022

Lula e o Comitê Exploratório




A política nos Estados Unidos tem características muito peculiares, a partir da eleição presidencial. Não obstante ser um País Republicano com Sistema de Governo Presidencialista, a corrida para a Casa Branca tanto pode ser feita através de um Partido como de forma independente.

Apesar de a grande mídia, em regra, só cobrir os candidatos Democratas e Republicanos, em 3 de novembro de 2020 os chamados Partidos de terceira via e candidatos independentes formaram um bloco de 9 candidatos além dos candidatos oficiais dos dois Partidos hegemônicos. Do rapper Kanye West (sim, aquele mesmo que foi casado com a modelo Kim Kardashian) que concorreu como membro independente ao ex-executivo do carvão Don Blankenship, que concorreu como candidato do Partido da Constituição. Do empresário de criptomoedas Brock Pierce que concorreu em uma chapa independente, ao Brian T. Carroll, um professor aposentado (concorreu pelo Partido da Solidariedade Americana) até Gloria La Riva, candidata do Partido para o Socialismo e Libertação, entre outros.

Interessante a forma de escolha dos candidatos dos Partidos, principalmente quando mais de um pré-candidato se dispõe a disputar o pleito. O sistema de primárias, além de mobilizar a base do Partido, seus militantes, teoricamente seleciona aquele que tem melhores condições de vencer a eleição.

Para participar das primárias, o pretenso candidato instala um Comitê Exploratório. Não é legalmente obrigatório, mas altamente desejável. Um comitê exploratório é a forma de "testar as águas" de uma candidatura antes de entrar oficialmente em uma corrida. Principalmente é um bom instrumento para arrecadar fundos. Nessa fase, os candidatos não são obrigados a divulgar o dinheiro obtido e como foi gasto.

As candidaturas independentes, apesar de tradicionalmente não terem sido competitivas nas eleições americanas, têm sido usadas seja como forma de divulgar determinado interesse de um grupo social, seja para subtrair votos de outros candidatos. Em 2015, Donald Trump usou para pressionar o Partido Republicano. O multimilionário deixou surpresos os espectadores do primeiro debate entre republicanos, ao afirmar que não descartava se apresentar como candidato independente, caso não conseguisse a indicação para disputar as eleições de 2016.

Nos Estados Unidos, a expressão "testando as águas" é usada para descrever alguém que está explorando a viabilidade de se tornar candidato a um cargo político. Essa expressão, a meu sentir, cai como uma luva na atual situação do pré-candidato Lula da Silva. Tanto é assim que, vez em quando, o ex-presidente sinaliza para o fato de que ainda não afirmou que será candidato. Aqui no Brasil, existe uma outra expressão muito usada na área política, que faz remissão à boca do jacaré. Do Blog de Merval Pereira, colhi:

"No jargão dos institutos de pesquisa, os gráficos de pontuação formam o desenho da boca de um jacaré. Quando os índices de um candidato são maiores que os do adversário, o desenho é de uma boca de jacaré se abrindo, e geralmente essa tendência se mantém ao longo da disputa. A boca do jacaré se abrindo é sinal de vitória. Ao contrário, quando a boca do jacaré vai se fechando, devido à redução da diferença entre os dois candidatos, é sinal de que a eleição pode estar caminhando para uma vitória apertada de quem está na frente, ou para uma reviravolta, dependendo do tempo existente até as urnas e as circunstâncias da disputa."

Pois bem: tudo indica que "o jacaré está fechando a boca". De fato, se observarmos as pesquisas publicadas a partir de janeiro de 2022, a diferença de intenção de votos (em média) entre Lula e Bolsonaro variaram assim: Janeiro - 23%; Fevereiro - 18%; Março - 12%, sempre em favor do ex-presidente. Esses dados foram obtidos de pesquisas estimuladas publicadas pela grande mídia e encomendadas por esses veículos ou por empresas da área financeira. Se olhadas as pesquisas espontâneas, as mandíbulas do jacaré estarão muito mais próximas. Sinal amarelo para o candidato da esquerda.

Infelizmente, o chamado Centro Democrático ainda não descobriu seu norte, não conseguiu estabelecer uma pré-candidatura que se aproximasse da disputa que se configura binária entre os dois extremos. Em fevereiro, quando o Centro Democrático ainda se chamava Terceira Via, escreví: "A terceira via, tendo como seu mais competitivo representante o ex-Juiz Sérgio Moro, patina na melhor das hipóteses nos arredores de 11%. Há já algum tempo escrevi que o Dr. Moro precisa chegar ao mês de maio com algo em torno de 15 ou 16%, preferencialmente tirando a maior parte do seu crescimento do percentual atribuído a Bolsonaro, sob pena de inviabilizar essa tão buscada terceira via e consolidar a desenhada bipolaridade esquerda/direita." (https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2022/02/de-pesquisas-e-pesquisas.html).

Muitos dias ainda vão amanhecer até a eleição. No momento é muito temeroso fazer-se uma previsão de resultados. Algo que se pode afirmar, no entanto, é que "nunca antes na história desse país", o tecido social esteve tão esgarçado, a sociedade esteve tão dividida.

Que Deus se apiade do Brasil!

domingo, 27 de março de 2022

“Opus Dei”




Em 2006, o assunto “Opus Dei” estava na ordem do dia. O candidato a Presidente pelo PSDB em quem eu desejava votar, Geraldo Alckmin, era acusado de ser membro dessa organização religiosa. Fiquei um pouco hesitante e busquei saber o que de tanto mal havia nesse segmento da Religião Católica. Eu não me recordava de ter ouvido falar antes, confesso minha ignorância.

Descobri que é não mais do que "uma organização católica romana leiga e clerical, cujos membros buscam a perfeição cristã pessoal e se esforçam para implementar os ideais e valores cristãos em suas ocupações e na sociedade como um todo".

O Opus Dei foi fundado em 1928 na Espanha por São Josemaria Escrivá de Balaguer y Albás, sacerdote formado em direito. Esse sacerdote foi canonizado em 2002 pelo Papa João Paulo 2º. Acreditando que a vida cotidiana pode ser santificadora, Escrivá procurou encorajar os leigos e sacerdotes católicos na busca da santidade por meio de suas próprias profissões.

Recentemente voltei à pesquisa e nela encontrei o website da organização - www.opusdei.org - extremamente informativo. Chamou-me a atenção principalmente o depoimento de um jovem cantor lírico espanhol, cujo primeiro nome é Henrique, contando sua trajetória de vida. Ele inicia sua história dizendo: "Nasci numa casa socialista, recebi uma educação 'soviética' assente na cultura, na música, na literatura e no desporto! Reinava a ditadura do proletariado, como dizia muitas vezes (por piada) a minha mãe: 'Eu trabalho, eu mando, vocês obedecem!' O dia mais celebrado lá em casa é, sem surpresas, o 25 de Abril - dia da comemoração da Revolução dos Cravos".

E segue o jovem português:

"Ao entrar para o 9º ano, segui os passos da minha irmã mais velha e juntei-me à Juventude Comunista Portuguesa. A partir do ano seguinte, a minha atividade política intensifica-se brutalmente, tornei-me uma figura de destaque na escola (incluindo ser presidente da associação de estudantes) e passei a fazer a vida negra a professores e diretores 'reaccionários e fascistas'!

Cheguei mesmo a ter uma namorada católica, através de quem fui mudando a minha forma de olhar para a realidade. Não porque os argumentos me servissem! Continuava a considerar um fetichismo, uma superstição antiquada! Mas porque a alegria destes meus amigos era genuína e contagiante. Eu vivia angustiado por querer mudar o mundo, não percebendo que quem tinha de mudar era eu...

Quando chegou a hora de ir para a faculdade, decidi fazer provas para me licenciar em teatro e ser ator. Estava totalmente confiante. Mas não fui admitido. E aqui começou a ser posta em causa a minha crença materialista da auto-suficiência do ser humano. Como se não bastasse, passados seis meses, a namorada católica põe fim à nossa relação…

Na manhã do dia seguinte, no meio de uma angústia inenarrável, de um modo inexplicável (só depois lhe chamei uma extraordinária graça de Deus), sou levado, diria mesmo: puxado!, até à Igreja do Campo Grande. E aí, pela primeira vez, encontro-me sozinho, cara-a-cara, com Jesus. Toda a tristeza foi sugada por Deus presente no Sacrário… Estava a converter-me e não sabia ainda como explicar este misterioso fenómeno! Eu que antes dizia: 'Nunca acreditarei em Deus!', fui obrigado a reconhecer que nunca mais poderia voltar a afirmar que não acredito em Deus..."

Você não é obrigado a acreditar nesse testemunho. Sequer a ser cristão. Nem mesmo crer na honestidade do depoimento do lusitano Henrique. Mas há aí um processo de aproximação com a doutrina do catolicismo. O socialista não se tornou católico da noite para o dia.

Este texto sintetiza a história da conversão de um jovem português que percorreu o caminho do socialismo para o Opus Dei.

Você lembra de alguem que recentemente fez o trajeto inverso? E sem que haja tido todo um processo de elaboração do novo conceito? É inimaginável que alguem negue toda um trajetória de vida num piscar de olhos, em um estalar de dedos, unindo-se a pessoas a quem recentemente acusava de responsável por todas as mazelas que afligem o país.

Perdoe-me Geraldo Alckmin mas não posso acreditar em você. Concordo com o jornalista José Roberto Guzzo que acaba de publicar no jornal O Estado de São Paulo que "Lula-Alckmin é a aliança mais cínica de que se tem notícia na vida pública brasileira. Alckmin, ao se unir a Lula, está se unindo a tudo que sempre combateu em sua vida."

E ainda: "O ex-governador Geraldo Alckmin está entrando para a história política do Brasil como um caso extremo de hipocrisia, de falsidade ou de oportunismo - ou, muito provavelmente, as três coisas ao mesmo tempo."

Que Deus se apiade do Brasil!

sábado, 19 de março de 2022

Estocolmo ou O dia em que quebrei o rádio




Estocolmo é uma cidade de cerca de um milhão de habitantes, abrangendo 14 ilhas e meia centena de pontes que fazem a ligação entre as diversas ilhas. É uma cidade pulsante, colorida e principalmente no verão, um lugar para ser visitado.

Desembarcando da viagem de Helsinque, fui de taxi direto para o Sofo Hotel que eu havia pré-reservado. O hotel é modesto, mas confortável e de excelente localização. Essa era a segunda vez que visitava a cidade. A primeira visita eu a fizera acompanhado e com uma programação estabelecida, palestras, etc. Não dessa vez. Estava sozinho, sem nenhum compromisso ou obrigação. Como dizíamos na minha infância em Várzea Alegre: "solto na buraqueira".

O resto do dia da chegada não conta. Depois do almoço, recolhi-me ao hotel para um merecido e necessário repouso. A noitada no navio da Viking Line deixara sequelas.

O dia seguinte foi para reconhecimento de terreno. Coisas como longas caminhadas a pé, sem destino e sem rumo certo, apenas observando o colorido da cidade e a fauna humana. Ouvindo os inaceitáveis e reprováveis comentários do Deputado Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas, confesso que lembrei dessa viagem à Suécia. Não pelo nojo que causa a afirmativa de que as mulheres "são fáceis porque são pobres", mas pelo fato de serem lindas.

O regime político sueco é uma Monarquia Parlamentarista, cujo Chefe de Estado é o rei Carlos XVI Gustavo, casado com a rainha Sílvia Renata, filha de um empresário alemão e mãe brasileira. Isso despertou minha curiosidade de, como primeira visita, conhecer o Palácio Real de Estocolmo. É uma pomposa construção do Século XVI, adaptado de uma fortaleza construída no Século XIII. Vaguei um pouco pelas cercanias sem direito a entrar (sequer sei se visitas são permitidas), mas imaginando o que havia de história e cultura enterradas naquela edificação.

O jantar foi em um restaurante próximo ao hotel com música ao vivo, e para minha surpresa a apresentação de um trio argentino tocando o melhor do jazz. Pedi uma massa com almôndegas que traduzido para o cearensês nada mais é do que macarrão com bolinhas de carne moída.

Nas viagens em que você está sozinho, por sua conta e sem compromissos de programação, deve separar pelo menos um dia para fazer o roteiro do turista tradicional. Foi exatamente o que fiz: a visita ao Swedish History Museum, um passeio de metrô onde e cada estação você encontra verdadeiras galerias de arte (esculpidas em rochas, muitas mantêm a sensação de uma caverna recém-descoberta) etc. O almoço foi no meio da rua, nos chamados "food trucks", que servem comidas das mais diversas origens.

Retornando ao hotel e depois de um necessário descanso, pedi na recepção uma indicação de um barzinho que fosse animado e, ao mesmo tempo em um local agradável. A sugestão não poderia ter sido melhor. No terraço de um edifício de 13 (ou 14?) andares, onde se podia ter uma vista abrangente de Estocolmo e muito bem frequentado, se vocês me compreendem. A ecologia do ambiente, a fauna humana, o cenário, envolveram-me numa euforia interna. Resolvi beber conhaque tirando o gosto com generosos canecos de chopp. Não foram muitos até que eu começasse a desconfiar estar na hora de "ir para casa".

Devia ser umas nove da noite, dia claro ainda, chegando ao hotel. O Sofo tem uma escada até a recepção, como mostrado na imagem. Talvez 15 degraus. Entre o primeiro e o segundo degraus perdi o equilíbrio e rolei escada abaixo até o hall de entrada. Fiquei alguns segundos inerte, tempo suficiente para que o recepcionista me acudisse, ajudando-me a levantar do piso atapetado e sentar na cadeira mais próxima. Havia sangue sobre a mão esquerda e um corte profundo no dedo anelar. O recepcionista aconselhou-me a ir a um hospital. Eu bem que podia ter ido, uma vez que sempre tenho a cautela de viajar com seguro saúde. Mas a mente obnubilada pelo álcool e ainda o temor de sofrer alguns pontos no corte do dedo, fizeram-me resistir à ideia. Trouxeram então um estojo de primeiros socorros e ali mesmo foi feito um curativo. Recolhi-me ao quarto e adormeci.



Foi a madrugada mais longa que já varei em toda minha agitada existência. Acordei por volta das duas da manhã com uma dor lancinante no punho esquerdo. Liguei para a portaria e pedi um saco com gelo. Tentei envolver o pulso com gelo fixado com uma toalha. A partir desse momento não consegui mais dormir. A espera até a manhã foi de uma monotonia estranha: um misto de cansaço e desamparo. E pressa, muita pressa para que o tempo passasse rápido.

Antes das sete da manhã, dirigi-me à recepção do hotel e pedi-lhes que me indicassem uma farmácia. Felizmente a pouco mais de uma quadra havia uma. Caminhei até lá e esperei uns dez minutos, atendendo ao aviso pendurado na porta de que seria aberta às 7:00 horas. Ali fui atendido por uma empregada que se disse estudante de enfermagem. Indicou-me um gel para massagear o pulso e um protetor desses usados por esportistas. Trocou, não sem criticar, o curativo do dedo, sem saber por quem e em que circunstância foi realizado.

Voltei ainda uma vez à farmácia, para trocar o curativo e comprar material para fazer o procedimento no resto da viagem. Afinal, ainda estava apenas na metade das férias. Prossegui para Oslo e Copenhague, sempre sentindo dor no pulso, já um pouco arrefecida pelo gel e às vezes um analgésico, bem como pelo protetor (munhequeira).

Apenas quando cheguei ao Brasil, cerca de 12 dias depois, fui ao ortopedista que após radiografia diagnosticou uma fratura no rádio. Eu nem sequer sabia que esse bendito osso existia no corpo humano. A partir daí foram três meses de fisioterapia e ainda assim não consigo até hoje fazer o movimento completo do pulso esquerdo. Lembrança sombria da Suécia onde quebrei o rádio.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Um Governo de 48 horas!




Antes de Constituição Estadual de 1989, a linha de sucessão estadual era, pela ordem: o Vice-Governador, o Presidente da Assembléia, o 1º Vice-Presidente da Assembléia e o Presidente do Tribunal de Justiça (essa sequência foi modificada na Constituição de 1989 por uma emenda do Deputado Francisco José de Figueiredo Correia que priorizava o Presidente da Assembléia e em seguida o Presidente do Tribunal de Justiça do Ceará - Art. 62).

Na renovação da Mesa Diretora da Assembléia, em 1989, o PDS cujo Presidente era Aécio de Borba, fez acordo com o PSDB de Tasso Jereissati contra a postura das lideranças do interior do Estado e a maioria da bancada de Deputados. Esse acordo foi costurado em Brasília por Mauro Benevides e Aécio e ficou conhecido como o acordo dos cunhados. Eu era líder da bancada do PDS e certamente o Deputado que mais agressivamente criticava o Governo. Era uma violência contra tudo que eu havia feito e defendido no exercício do meu mandato.

Na véspera da eleição da Mesa Diretora passei a noite em claro. Literalmente. Lá pelas tantas da madrugada, decidi que ia pedir a palavra no início da sessão, renunciar à liderança do Partido e anunciar meu voto no candidato da oposição. O Presidente Aécio de Borba havia marcado uma reunião, um café da manhã, com toda a bancada no apartamento do Deputado Antônio Jacó. Nessa madrugada eu também decidira não comparecer à reunião.

Aécio era um craque na política e sabia quanto era custoso para mim, acatar aquele acordo. Sabia também da gratidão e admiração que eu nutria pelo recém-falecido Virgílio Távora. Quando eu me preparava para sumir até a hora da votação, liga o porteiro do condomínio onde eu morava dizendo que o Deputado Carlos Virgílio estava subindo. Era pouco mais de 6:00 horas da manhã. Pedi à secretária de casa para preparar um café enquanto tomava um banho rápido. Seguiu-se um dos momentos mais difíceis de todo aquele período. Carlos Virgílio discorreu sobre a credibilidade de um Partido que fazia acordos e os cumpria, argumentou que o candidato que o PDS estava apoiando (Deputado Pinheiro Landim) não era o candidato "in pectore" do Governador Tasso Jereissati, etc. Foi mais de uma hora de um processo argumentativo veemente. Por fim ele me fez a seguinte pergunta: "você acha que se o papai fosse vivo pediria para você apoiar o candidato de Totó (Gonzaga Mota)?" Isso me desmoronou por inteiro.

A verdade é que fui ao café da manhã com Aécio, saí de lá 1.º Vice-Presidente da Assembléia e graças a isso, futuro Governador por 48 horas. O Governo mais profícuo, correto e equilibrado que este Estado já presenciou. Não demiti nem admiti ninguém, não persegui adversários nem beneficiei correligionários, comandei um Governo de paz e prosperidade. Mas esta é outra história que contarei oportunamente.