terça-feira, 6 de outubro de 2026

Os uivos de Tupã


Na fazenda Baixio Verde, no distrito de Mangabeira, em Lavras da Mangabeira, o tempo parecia andar mais devagar. A propriedade havia pertencido ao meu avô Joaquim Luiz. Depois passou às mãos do meu tio Luiz Joaquim. A família sempre gostou desses trocadilhos de nomes: Pedro Luiz e Luiz Pedro, Antônio Luiz e Luiz Antônio, José Luiz e Luiz José. Era algo que se repetia de geração em geração, como se o nome carregasse consigo um pedaço da terra e da memória.

Lá, no terreiro da Casa Grande, assim chamada ecoando os tempos antigos, vivia Tupã. Não era cão de raça. Era um vira-lata legítimo, daqueles que carregam no olhar a inteligência prática de quem nunca precisou de pedigree para sobreviver.

Tupã era especialista em caçar preás. Quase todos os dias, sempre no final da tarde, ele aparecia no terreiro com um roedor na boca. Ao chegar, anunciava-se com longos uivos. Talvez soubesse que latidos podiam libertar a presa e fazê-la escapar. Os uivos eram o seu jeito solene de dizer: “Cheguei. E trouxe o jantar.”

A cena se repetia com a regularidade de um ritual. O sol baixando, o terreiro empoeirado, o cão orgulhoso com sua conquista. Ninguém precisava aplaudir. Tupã não caçava para receber elogios. Caçava porque seu instinto o impelia a isso. Caçava pela sobrevivência.

Pois bem: a opinião de uns poucos conhecidos sobre minhas opções políticas vale, para mim, exatamente o mesmo que aqueles uivos de Tupã. Talvez um pouco menos.

Não porque as opiniões sejam ruins em si. Toda pessoa tem direito a ter as suas. O problema começa quando alguém acredita que a própria opinião, por ser barulhenta ou insistente, deve ocupar o centro do terreiro alheio. Tupã uivava porque precisava. Não porque esperasse que a Casa Grande mudasse de opinião sobre a caça de preás.

Há opiniões que chegam como o cão no final da tarde: previsíveis, repetitivas, carregando sempre a mesma presa. Uivam, depositam o roedor no chão e esperam reconhecimento. Outras nem isso. São apenas ruído.

Prefiro guardar a imagem de Tupã. O vira-lata que sabia o que fazia, anunciava-se com dignidade e não pedia licença para existir. Suas opiniões, se é que cães as têm, valiam o peso do preá que trazia. O resto era só uivo ao vento.

E o vento, na fazenda Baixio Verde, sempre levou embora o que não importava.

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