quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Entrevero pueril




Em 9 de agosto de 1972, o Presidente americano Richard Nixon tornou-se o primeiro dirigente daquele país a renunciar, na esteira do que ficou conhecido como o Caso Watergate. Tudo aconteceu de forma muito rápida. "Em 18 de junho de 1972, o jornal Washington Post noticiava na primeira página o assalto do dia anterior à sede do Comitê Nacional Democrata, no Complexo Watergate, na capital dos Estados Unidos. Durante a campanha eleitoral, cinco pessoas foram detidas quando tentavam fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata. Em 24 de julho de 1974, Nixon foi julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos e obrigado, por veredicto unânime, a apresentar as gravações originais, que comprovariam de forma inequívoca o seu envolvimento na ação criminosa contra a sede do Comitê Nacional Democrata e consequentemente a abertura de um processo de impeachment."

Em 1997, o Presidente Clinton estava sendo investigado pelo implacável Promotor Independente Kenneth Starr, acerca de negócios no seu estado de origem, o Arkansas, além da requisição de um seu assessor direto ao acesso a arquivos do FBI de centenas de pessoas sem autorização. Não eram questões para preocupar muito, até que explodiu o escândalo sexual Clinton/Monica Lewinsky. Esta jovem estagiária na Casa Branca teve um "relacionamento físico impróprio" com Clinton, nas palavras do próprio ex-Presidente. Para encurtar o relato, o Presidente Clinton foi acusado de perjúrio e obstrução de justiça, ao negar em depoimento no Senado o affair com a jovem estagiária, o que se comprovou verdadeiro posteriormente. Foi um período de muita turbulência na política americana, mas depois de 14 meses o Presidente Clinton foi livrado do processo de impeachment que houvera sido instalado pelo Senado daquele país.

O Presidente Trump passa atualmente por quatro investigações bem mais graves do que aquelas que afligiram os dois citados anteriormente. Qualquer uma, de per si, pode levar à tentativa de impedimento do Presidente. O impeachment é um processo longo, penoso e desgastante. Pressupõe não apenas uma razão jurídica objetiva, mas um massivo apoio popular. Enquanto as investigações seguem sobre a má utilização da Fundação Donald Trump, do conluio de sua equipe de campanha com o governo Russo, do desvio de dinheiro de doações de campanha para calar mulheres eventualmente assediadas pelo Presidente e pelo próprio assédio denunciado por várias mulheres, ele utiliza sem parcimônia as redes sociais (principalmente o twitter) para divulgar suas mensagens.

Há alguma semelhança, não muita, entre a vitória de Trump nos Estados Unidos e a eleição de Bolsonaro no Brasil. Aquele também posicionou sua campanha claramente nas vertentes econômica e de costumes (Make America Great Again). Usou largamente as redes sociais e dirigiu sua mensagem preferencialmente para um público conservador, classe média e contra a política tradicional e a grande mídia, público esse muito assemelhado ao alvo do Presidente eleito no Brasil. A grande diferença é que ao contrário da campanha no Brasil, a outra foi conduzida por uma equipe que dispunha dos melhores quadros e de inesgotáveis fontes de financiamento, a partir dos recursos do próprio candidato.

A sinalização do governo Bolsonaro para um alinhamento incondicional à política externa americana, levou-o a declarar que iria mudar a embaixada brasileira em Israel para a cidade de Jerusalem, movendo-a de Tel Aviv. Afinal, qual a importância disso? Uma eventual mudança da embaixada brasileira tem implicações políticas, uma vez que a maioria dos países do mundo rejeita a reivindicação de Israel de que Jerusalém é a sua capital. No momento, apenas os Estados Unidos e a Guatemala têm suas embaixadas em Jerusalem. Comercialmente é um desastre. Enquanto "em 2017, a balança comercial com os 22 países que formam a Liga Árabe teve superávit (exportações maiores que importações) de US$ 7,1 bilhões para o Brasil", a balança com Israel é deficitária em US$ 419 milhões.

O anúncio da intenção de mudar a embaixada antecipou um "entrevero pueril", para utilizar a feliz expressão do editorial da Folha de São Paulo. Aliás, se o Presidente eleito pretende espelhar-se no seu equivalente norte-americano, deve limitar-se a fazê-lo com relação à economia. Essa realmente vai bem. Pleno emprego (quase), sólido crescimento do PIB acima da média das três últimas décadas, cortes de impostos, a política de colocar os interesses dos "Estados Unidos em primeiro plano", a adoção de medidas para reduzir a burocracia e o incremento de investimentos em infraestrutura. No mais, muita cautela meu caro presidente Bolsonaro. Donald Trump é elefante em loja de louças no trato das questões de imigração, nas idas e vindas da política externa, no relacionamento com sua equipe de governo, no trato com o Congresso (inclusive com seus próprios correligionários), no cumprimento dos tratados internacionais (vide Acordo de Paris), na sua lida diária com a imprensa, etc.

Recorro à sempre aconselhável sabedoria popular, e neste caso ao provérbio português: “Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém” ou sua versão brasileira, “Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.

domingo, 16 de dezembro de 2018

Fiat Elba




A descoberta do motorista (será o Fiat Elba do novo governo?), se comprovado o envolvimento da família Bolsonaro, excita dois grupos relacionados com o governo que se propunha a caçar e cassar os corruptos.

O primeiro grupo é dos partidos políticos (principalmente o PT) que agora navegam nos seus mares. Todos somos iguais e como só o Lula e uns poucos menos votados estão presos, "nos locupletemos todos".

O outro grupo é o militar. Se o eleito e sua família fazem parte daquele grupo de corruptos que eles queriam afastar/punir, é o momento de tutelar o titular, ditando as regras do jogo.

Um fato é concreto: o novo governo perde muito de poder e legitimidade. E isso é "bom" para os militares e para os políticos corruptos.

Domingo




Eita domingo animado! A morte do cão, o enterro do presidente Bush, o motorista de Fabio Bolsonaro, intervenção federal em Roraima, João de Deus, troca de guarda na liderança do partido da União Democrata Cristã da Alemanha - Sai Merkel e entra AKK, Paris em chamas, River Plate X Boca Juniors e "otras cositas más"...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Bate-boca no Salão Oval




O Congresso dos Estados Unidos está na reta final de aprovação do orçamento 2019. Para discutir isso e tentar um entendimento, o Presidente Trump convidou opositores, Nancy Pelosi e Chuck Schumer, lideres democratas da Câmara dos Deputados e do Senado, respectivamente. A reunião foi no Salão Oval, que se tornou mundialmente conhecido e tristemente famoso no Governo Clinton, no lamentável episódio Monica Lewinsk.

"A melhor maneira de entender a abordagem de Donald Trump à presidência, é pensar nele como o que ele era antes da política: a estrela e produtor de um reality show. Trump está sempre programando o show - também conhecido como Casa Branca e o país - de maneira que ele acha que vai entreter, provocar e surpreender o público", diz a CNN. Para a reunião com a oposição, Trump surpreendeu ao convidar a imprensa para participar. A avaliação geral, no entanto é que o tiro saiu pela culatra. Trump perdeu politicamente na sua própria arena, ao tornar pública a discussão.

O Presidente dos Estados Unidos é definitivamente conhecido como um político de "pavio curto". Não está acostumado a ser contrariado ou a ouvir o que não quer. Desde a gestão nas suas empresas, ou no seu programa de televisão, e agora na Casa Branca, ele é cercado principalmente por membros da família e funcionários que, em geral, dizem a ele o que ele quer ouvir. Os líderes oposicionistas souberam tirar proveito desse traço do temperamento.

Schumer zombou de Trump por elogiar o ganho de duas cadeiras no Senado pelos republicanos na eleição recente ("Quando o presidente se vangloria ter ganho em Dakota do Norte e Indiana, ele está em apuros") e Pelosi o repreendeu por questionar sua liderança na bancada Democrática da Câmara (Nancy Pelosi será provavelmente a Presidente da Câmara a partir de janeiro de 2019, uma vez que os Democratas alcançaram a maioria na renovação dos mandatos)

Trump não suporta ser contrariado e não está acostumado com isso. E reagiu mal frente às câmeras de televisão e aos 325 milhões de americanos. Perdeu a paciência. Deixou Schumer responsabilizá-lo por uma possível paralisação do governo. E por que isso é importante? Durante toda a campanha, uma das principais bandeiras do candidato era a construção de um muro na fronteira com o México, "para proteger o povo americano da invasão de imigrantes marginais, drogados, assassinos, etc". De início vendeu a ideia de que faria com que o governo mexicano pagasse a construção do malfadado muro. Foi prontamente desmentido pelo México e desde que assumiu insiste em incluir no orçamento a bagatela de CINCO BILHÕES DE DÓLARES para essa construção. Os Democratas argumentam que o país tem outras prioridades e que há outros instrumentos de proteção da fronteira. Com isso, o Presidente ameaçou publicamente paralisar o governo se não fosse aprovado o crédito solicitado.

Tanto no período que antecede como após as paralisações do governo, ambas as partes trabalham muito, muito arduamente para culpar o outro lado. A razão é simples: as pessoas detestam Washington e tudo que a capital americana representa em termos políticos. Acham que ali não se trabalha pelo bem comum. (Qualquer semelhança com a capital de um certo país sul-americano, é mera coincidência.) Quando acontece a paralisação - shutdown - e os serviços públicos são literal e completamente interrompidos, todos os piores medos são realizados. Na prática, os funcionários públicos ficam sem trabalhar ou sem pagamento até o Congresso definir o orçamento. Isso pode gerar consequências graves: funcionários dos serviços de inteligência não trabalharão mesmo com as tensões elevadas com o Irã. Importantes pesquisas de saúde pública serão interrompidas. Veteranos militares assistiriam, impotentes, seus processos de pedido de auxílio, suspensos. Centenas de pacientes não podem se inscrever para triagens clínicas nos Institutos Nacionais de Saúde. Todo o contingente militar continua a postos, mas grande parte dos 800 mil funcionários civis do Departamento de Defesa são colocados sob licença não-remunerada. É o caos.

Não ha explicação para a doentia insistência do Presidente pelo muro. Ser capaz de grave perda política de um governo que já tem baixos índices de aceitação, de desagradar grande parte dos americanos, de paralisar serviços essenciais, para caprichosamente chantagear o Congresso é algo absolutamente inexplicável.

O truculento Presidente Trump recebeu agora um pequeno exemplo do que terá que enfrentar a partir de janeiro, quando os Democratas terão o domínio da Câmara.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

"Rachadinha"




No ano de 2005, assessores de uma Deputada Estadual cearense acusaram-na de cobrar um percentual sobre seus vencimentos como comissionados no seu gabinete. Não me recordo do desenrolar do processo no Conselho de Ética da Assembleia. Lembro de, à época, encontrando-me com um amigo da imprensa, ele ter perguntado se eu havia utilizado essa prática durante meu mandato. Minha resposta foi que "entre meus incontáveis pecados, este não constava". As pessoas que trabalharam comigo, estão vivas e podem testemunhar livremente qual foi o tratamento recebido por mim. E mais que isso: durante todo o meu período naquela casa legislativa, nunca ouvira falar nessa tal de "rachadinha".

Recentemente, em 2015 se a memória não me trai, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acatou denúncia e abriu ação penal contra um desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, acusando-o entre outras coisas da prática da "rachadinha", ou no complicado palavreado da justiça, de extorquir servidores lotados em seu gabinete.

Entre os anos de 2005 e 2015, muitas foram as denúncias em diversas casas legislativas acerca dessa prática. Por mais que se tenha disseminado e tenha sido ou esteja sendo praticada por grande número de políticos, isso é crime. E crime deve ser tratado como crime. Nem mais, nem menos.

O prefeito de Nova Iorque, o republicano Rudolf Giulianni tempos atrás, conseguiu transformar uma das cidades mais violentas do mundo em um lugar com índices de criminalidade civilizados (se é que existe criminalidade civilizada), implantando o programa de tolerância zero. Algo como não existe crime menor, e todos devem ser punidos com rigor. Desde jogar um papel no chão ou pichar um muro, até o assassinato de um contribuinte.

"Na década de 90, Medellín (Colombia) era associada ao cartel de drogas que levava seu nome, dirigido pelo traficante Pablo Escobar. Hoje é reconhecida como uma cidade-modelo que está vencendo o crime. O caso de Medellín deixa claro como uma cidade só tem a ganhar quando a redução da violência se torna o foco das políticas de Estado. Nos anos 90, a taxa de homicídios chegou a um pico de 380 por 100 000 habitantes ao ano em Medellín. Isso lhe rendeu o título de cidade mais violenta do mundo (hoje, o posto é ocupado por Caracas, na Venezuela, com 130 mortes por 100.000 pessoas ao ano)." Medellín virou a cidade-modelo que está vencendo o crime, por práticas análogas às de Nova Iorque.

No Brasil do século XXI, acordou-se chamar crimes diversos de "mal feitos". Aquilo que é contra a lei, mas não inclui uma ação violenta, é visto como um desvio de comportamento. A utilização do crime de "caixa dois" em eleição convencionou-se que são "valores não contabilizados" e passíveis de aceitação se o criminoso "pede desculpas".

Há cerca de três ou quatro dias, veio ao conhecimento da sociedade que um ex-motorista do "primeiro filho" e Senador eleito Flávio Bolsonaro havia movimentado algo em torno de um milhão e duzentos mil reais em apenas um ano. Aqui não importa quem vazou a notícia e nem com qual propósito. Também não vem ao caso o Congresso brasileiro ter afastado do poder um Partido Político que tem hoje seus principais dirigentes na cadeia ou condenados. Que tenha sido substituído por um Presidente que tem ele próprio e vários de seus ministros investigados. O que realmente importa é apurar: 1 - se o fato é verdadeiro e 2 - se o cidadão pode explicar a origem do dinheiro.

A verdade cristalina é que quando um animal tem cara de gato, corpo de gato e mia, tem tudo para ser um gato. O relatório do COAF tem indícios da prática da famosa "rachadinha". Inicialmente apenas indícios. Resta à justiça apurar. Mas que aqueles 10 cheques de R4.000,00 cheiram a mensalinho, lá isso cheiram. Meu Deus me perdoe se eu estiver sendo injusto, como diria minha mãe.

Que malsinado destino dessa pátria tão sofrida! Afasta uma quadrilha do poder (bom dia, Presidente Lula) , assume uma tão quadrilha quanto (bom dia, Ministro Gedel). Elege um Presidente numa campanha memorável, e as suspeitas surgem antes da posse (bom dia, Senador Flávio Bolsonaro). Deus abençoe o Brasil.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Para o planeta que eu quero descer!




Tem alguma coisa errada comigo... ou com o mundo?

Há três dias assisto continuadamente pelos canais de notícias (Globo News e BandNews) a reportagens sobre a morte de um cão em um supermercado de Osasco. Grande mobilização em torno, por parte da Prefeitura, do Ministério Público etc. Não tenho informação se o Vaticano e a Presidência da República já estão participando do processo...

Um ou dois dias antes, uma quadrilha formada por mais de duas dezenas de bandidos invadiu a cidade cearense de Milagres para assaltar as agências de banco locais. Houve cerca de vinte minutos de troca de tiros com o saldo de 14 mortos, entre os quais 5 de uma mesma família (inclusive duas crianças). Esta carnificina mereceu apenas uma citação de "pé de página" nas duas estações, entre outras.

Eu sei que no Brasil, maltratar animais de qualquer espécie é considerado CRIME AMBIENTAL, segundo prevê o art. 32 da Lei nº 9.605, de1998, com pena de detenção de três meses a um ano e multa. Entendo também que pessoas (umas mais, outras menos) se sensibilizem pelo sofrimento de animais. Faz parte da natureza humana. Mas será que é demais cobrar pelo menos tratamento igualitário entre um e outro episódio? Por favor, digam-me se estou errado...

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Atualizado em 09/12/2018 às 08:52h

Manifestação contra morte de cadela faz Carrefour fechar as portas em Osasco (SP)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Eu te disse, Moro!




Em 30 de outubro, quando a imprensa anunciava com insistência o convite do Presidente eleito ao Juiz Moro para ser Ministro, escrevi um texto cujo título é "Diga não, Moro" (https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2018/10/diga-nao-moro.html). E encerrava com a afirmação abaixo:

A eventual ida do Juiz Moro para formar no novo Gabinete, se por um lado seria uma garantia de que o governo não flertaria com tentativas de navegar na difusa fronteira entre a lei e o autoritarismo tosco, por outro lado, poderia criar zonas de atrito entre seu garantismo e o "excesso de zelo" de setores dos vencedores. A sociedade brasileira já possui mecanismos e instituições sólidas e bem definidas para garantir a condução democrática do país, sem que seja necessária a presença de alguém com seu perfil, para servir de avalista dessa condução.

Quando do anúncio do convite e da aceitação por parte do Juiz, escrevi em outro texto no meu Blog (https://nilosergiobezerra.blogspot.com/), no qual afirmava:

Na luta contra a corrupção, terá que implantar políticas de combate aos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros. Esse último item certamente desagradará larga parcela do segmento político, sabendo-se que pelo menos um terço dos que compõem as casas legislativas federais encontram-se envolvidos (por razões diversas) com a justiça, sem contar com o eventual envolvimento de colegas do Executivo.

Pois bem: explode na mídia uma série de denúncias envolvendo assessor parlamentar de um filho do presidente, que teria movimentado valores para os quais não tinha renda nem patrimônios compatíveis com a movimentação. Valores apurados pelo COAF - Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, e que foi criado a partir da Lei 9.613, de 3 de março de 1998, a lei que diz respeito à prevenção e combate aos crimes relacionados à lavagem de dinheiro. A partir do novo governo, o COAF será vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, que será dirigido pelo Sr. Sérgio Moro.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin acatou pedido da Procuradoria-Geral da República para abertura de investigação contra o futuro ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS).

Há algo mais grave, ou melhor dizendo, mais constrangedor: o COAF apurou que houve por parte do referido assessor do Deputado Flávio Bolsonaro, um cheque de R$ 24.000,00 dirigido à senhora Michelle Bolsonaro, esposa do Presidente eleito.

Evidente que é muito cedo para formarmos um juízo de valor sobre esses episódios. Mas há cheiro de enxofre no ar. Até que ponto o incorruptível e admirado juiz Sérgio Moro, na condição de Ministro, terá autoridade para investigar um assessor de Flávio Bolsonaro ("Fabrício Queiroz trabalhou comigo por mais de dez anos e sempre foi da minha confiança", disse o filho do presidente eleito no Twitter. "Nunca soube de algo que desabonasse sua conduta"), e mais que isso, quão embaraçoso e complicado será se essa investigação respingar no "primeiro filho" Senador e/ou na "primeira dama"?

Não tenho dúvida de que o Dr. Moro é um homem de bem. De que está dedicando sua vida para tentar fazer o seu melhor pelo país. Mas todo ser humano tem fraquezas. O que me inquieta é até que ponto estaria o Dr. Moro disposto a sacrificar mais de duas décadas de uma carreira brilhante no Judiciário (uma vez que já pediu exoneração do cargo de Juiz Federal) e de uma eventual indicação para o Supremo Tribunal Federal oportunamente, para manter fidelidade aos seus princípios. Suspeito que se o Dr. Moro desconfiasse de longe que esses episódios iam "pipocar", ele jamais teria aceitado o honroso convite.

Devia ter dito "não", Moro!

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

"Senta, buraco de cu"




Perdoem-me os que odeiam os Estados Unidos, desculpem-me aqueles que abominam o povo americano, mas eu preciso registrar o que testemunhei na noite passada.

Um amigo da minha filha, Mr. Peter (médico aposentado e com 84 anos) convidou-nos, a ela e a mim, para irmos assistir a um jogo de futebol americano. Ora, eu jamais gostei desse esporte. Acho-o entediante, brutal, e gerador de poucas emoções. Mesmo quando era um jogo da Dweyer High School, escola onde estudavam Carol e Samuca no início do século, eu raramente assistia. Mas para não ser deseducado, aceitei o convite de Peter.

O jogo era entre as seleções da UCLA e Berkeley. Duas universidade da Califórnia. Portanto não dos times de profissionais. E decidia, se bem entendi, uma semifinal qualquer. A primeira grande surpresa que enfrentei foi com a quantidade de pessoas, famílias inteiras completas, presentes ao evento. Era uma multidão dedicada a divertir-se, comer, beber, cantar etc, que soube no decorrer da partida eram quase sessenta mil pessoas.

No pátio ao lado do Rose Bowl, belíssimo estádio onde o Brasil sagrara-se campeão mundial de futebol em 1994, enormes toldos, ao que parece cada um patrocinado por empresas. Fomos, por orientação do amigo, até ao grande barracão do Ralph's - uma rede de supermercados do oeste americano. Contou-me Peter, que havia feito sua feira mensal e ganho três tickets de entrada para esse evento. Algo como um ticket para cada trinta e cinco dólares de compra.

No enorme espaço destinado ao Ralph's, havia uma parte descoberta onde se podia encontrar pequenas bancas com distribuição gratuita de vinho, cerveja, refrigerantes etc. Outras distribuíam petiscos, salgadinhos os mais diversos. Ainda um palco com uma banda de rock, tocava incessantemente. Na parte coberta, protegida pelo toldo, duas baterias de bifês, servidos por senhores e senhoras, constando de saladas, carne e pão de hambúrguer, coxas e asas de frango, costelas de porco assadas etc. alem de uma bem fornida mesa de doces e bolos os mais diversos.

Fui fundo no vinho. Não me preocupei em inquirir quem estava pagando por aquela farra descomunal. Uma ou outra coxa ou asa de frango assadas, e a macia costelinha de porco para acompanhamento. Eu teria ficado ali por mais tempo que a hora e meia nos permitiu, mas fomos convocados pelo amigo americano a entrar nas dependências do estádio, porque o jogo ia começar.

A solenidade de início marcada pela execução do hino nacional americano, pela banda da UCLA, com certamente mais de duzentos componentes, com exagerada quantidade de instrumentos de sopro e percussão. Os telōes do estádio, sempre veiculando mensagem de motivação aos jogadores e à torcida, e mostrando o jogo em todos os seus lances, a movimentação das "cheerleaders" de ambas as equipes, os toques das duas bandas, que em lados opostos da arquibancada executavam suas músicas, tudo aquilo era um monumental festival de luzes, cores e sons. Como podia caber tudo aquilo em um jogo que não era um FLAxFLU, sequer um Ceará e Fortaleza?

Mesmo o jogo, que me entediava, foi extremamente emocionante. Até faltando apenas oito segundos para o final do quarto e último tempo, encontrava-se empatado em 27 a 27. Naqueles oito segundos fatais, os juízes marcaram alguma coisa desfavorável ao time do Berkeley. Esse era o grande adversário do meu amigo Peter. De repente, duas filas à frente da nossa, levanta-se um torcedor do Berkeley para reclamar da marcação. Então, para coroar a noitada, meu amigo Peter, do alto dos seus oitenta e quatro anos, e da majestade da sua aposentadoria de discípulo de Hipócrates, gritou a frase definitiva que seria em tradução, rigorosamente ao pé da letra para o português, algo como: "SENTA, BURACO DE CU!"

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Quem precisa do Mais Médicos? II




Com a denúncia do contrato dos médicos do Mais Médicos oriundos de Cuba, contrato esse firmado com a OPAS - Organização Pan Americana da Saúde, surge a pergunta: por que aquele país decidiu, unilateralmente, romper esse acordo? O argumento são as declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro, sobre o programa. Em nota, o governo cubano diz que vai se retirar do programa porque Bolsonaro " questiona a preparação dos nossos médicos", e porque o presidente eleito tem dito que modificará os termos do programa em condições que Cuba considera "inaceitáveis" e que "descumprem as garantias acordadas desde o início do programa".

O tema Mais Médicos foi frequente na campanha eleitoral. Em agosto, em discurso de campanha na cidade de Presidente Prudente/SP, disse o candidato Jair Bolsonaro: "Vamos botar um ponto final do Foro de São Paulo. Vamos expulsar com o Revalida os cubanos do Brasil", disse o então candidato. "Nós não podemos botar gente de Cuba aqui sem o mínimo de comprovação de que eles realmente saibam o exercício da profissão. Você não pode, só porque o pobre que é atendido por eles, botar pessoas que talvez não tenham qualificação para tal."

Como pode ser visto na cópia do twitter abaixo, Bolsonaro condicionou a presença dos médicos da ilha, à aplicação de teste de capacidade, salário integral aos profissionais cubanos e liberdades para eles trazerem suas famílias. Cuba considerou inaceitáveis essas condições. Vamos tentar analisar cada uma delas:



Teste de capacidade (Revalida)

Ainda que o Supremo Tribunal Federal haja autorizado a dispensa da revalidação de diploma de estrangeiro em novembro do ano passado para todos os estrangeiros que trabalham no programa, é desejável que estrangeiros ou brasileiros formados no exterior passem pelo processo de revalidação do diploma. Menos porque desconfie-se de que são realmente portadores dele, mais para a adequação dos seus estudos à realidade da medicina no Brasil. Evidente que isso não necessariamente deveria acontecer de imediato, quando da chegada dos profissionais, mas depois de cinco anos...

Com relação aos médicos de Cuba, pesquisei sobre a qualificação dos formados naquele país. Encontrei vários textos, opiniões e constatações sobre o assunto. Em 2012, o médico Fernando Carbonieri escreveu: “Anualmente são muitos os brasileiros que saem daqui em busca do sonho de tornarem-se médicos. Cuba é um dos principais destinos, por não exigir prova de seleção, e também por terem suas vagas abertas a partidos políticos e organizações "vermelhas". Na minha pesquisa, foi encontrado que o MST e organizações indígenas indicam e enviam estudantes para cursarem medicina no país de Fidel.”

Mais representativo ainda, ele remete a um “texto, um dos poucos sobre o assunto, veiculado em 2004 no site do CFM. Nele, Edson de Oliveira Andrade relata suas impressões sobre o que viu quando foi em missão para conhecer o sistema de formação médica de Cuba. Apesar de antigo, o texto continua atual. Os índices de aprovação no REVALIDA continuam ridículos e o atual contexto político brasileiro exige a retomada e a publicação de mais relatos apartidários a respeito da situação da formação médica na América Latina.”

Digo representativo, porque não é uma opinião qualquer. Leia o que escreveu o dr. Edson de Oliveira Andrade, na sua volta de Cuba: “Durante cerca de 10 dias estive em missão oficial em Cuba, fazendo parte de uma comissão do governo brasileiro que foi àquele país para observar o ensino médico ali realizado, visando futura revalidação conjunta de diplomas universitários médicos.“ (Esta informação é importante, na medida em que comprova que ainda no segundo ano do primeiro mandato do governo Lula, o Brasil já flertava com a possibilidade de ter um relacionamento não convencional com médicos cubanos).

“Quando embarquei para Havana levava comigo uma pergunta remanescente a martelar minha cabeça: por que os médicos formados em Cuba são reprovados quando tentam revalidar os seus diplomas nas universidades brasileiras? Uma outra pergunta já me tinha feito: seria o processo brasileiro de revalidação exigente em excesso?"

"Ainda no Brasil, havia procurado ter conhecimento do teor das provas aqui realizadas. Na ocasião, pude observar que o conteúdo era semelhante ao adotado para o provão da residência médica. Nada absurdo ou exagerado.”

“Os estudantes brasileiros ali chegam através de um sistema autofinanciado (aproximadamente U$ 8,000 anuais)- existente até o ano passado – ou mediante um processo seletivo confuso e não democrático onde predominam as indicações políticas. Ressalte-se que todos esses estudantes são admitidos sem prestar exame vestibular. Lá, como no Brasil, se leva seis anos para formar um médico. As semelhanças quase que param por aí. Digo quase porque, nominalmente, as disciplinas dos dois cursos em muito se assemelham. Os seus conteúdos, entretanto, não apresentam a mesma similitude. Lá foi possível constatar que os estudantes estudam muito, mas, como em todos os lugares, basicamente o que lhes ensinam ou os orientam a aprender. É incontestável que há uma brutal estratificação e controle da prática médica. Lá o médico faz apenas o que o Estado cubano lhe permite fazer. Isto significa adequar o seu conhecimento às possibilidades provedoras do Estado, que por sua vez são, a olhos vistos, limitadas e insuficientes, conforme nos foi apresentado pelas autoridades cubanas da saúde e como nos foi possível constatar neste breve e superficial ‘recurrido’.”

“Por tudo que vi, ouvi e pude apreender nesta viagem à bela ilha de Cuba, creio que passo agora a ter, se não no todo, mas pelo menos em parte, a resposta à pergunta que me acompanhou quando de minha partida. Os médicos recém-formados em Cuba não conseguem aprovação nas provas de revalidação de diplomas no Brasil porque a sua formação é deliberadamente limitada, com ênfase nos cuidados básicos - importantíssimos, por certo, porém insuficientes para o exercício de uma medicina plena, como precisamos e exercemos no Brasil.”

“Ao voltar, vim absolutamente convicto de que o ensino médico em Cuba é sério, porém insuficiente; os seus professores são dedicados e os alunos com quem mantive contato, interessados e tidos por seus mestres como estudiosos. Assim, penso ser desnecessário qualquer tratamento diferenciado aos formandos daquele país, bastando que modifiquem os seus currículos, como fizeram para os americanos do Norte, que por certo obterão êxito quando das provas de revalidação dos diplomas no Brasil. Hoje, como está, não dá! Para valorizar a medicina cubana não é preciso mitificá-la. O seu valor real reside no seu sucesso e nas suas deficiências. Submeter os médicos que ali se formam a uma avaliação justa e transparente será algo salutar e necessário para o Brasil e, principalmente, para o ensino médico em Cuba.”

Depois desse insuspeitíssimo depoimento, absorvido in loco, de um pneumologista e ex-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), nada mais há a dizer. Que os meus raríssimos leitores tirem suas conclusões.

Salário integral aos profissionais cubanos

Em 23/08/2013, o colunista Reinaldo Azevedo escreveu: “O que se critica é o regime de contratação; é o fato de Cuba ficar com a maior parte do desembolso; é o fato de os médicos receberem, mesmo no Brasil, um salário miserável — mas ainda muito superior àquilo que se paga na ilha do pesadelo”.

Em 04/03/2014, o acreditado Jornalista Kennedy Alencar escreveu no seu Blog: “Os ex-presidentes Lula e FHC atuam como estrategistas das candidaturas de Dilma Rousseff e Aécio Neves. O ex-presidente petista tem mais liberdade para agir. Negociou, por exemplo, mudança no “Mais Médicos”. Lula foi a Cuba e obteve aval de Raúl Castro para elevar salário dos médicos cubanos para R$ 3 mil a partir de março. A exemplo de ex-presidentes, Marina Silva também terá papel importante para fortalecer Eduardo Campos.”

Este é o ponto central da discussão. Se é verdade que Cuba exporta como seu principal produto/serviço a excelência da sua medicina, é também verdade que aos olhos do Brasil e da maioria dos países do planeta, a apropriação, confisco ou como quer que se chame a retenção de cerca de 70% do fruto do trabalho desses profissionais, é absolutamente incompreensível.

Sabe-se, divulgado pela própria Organização Mundial da Saúde, que em todos os contratos feitos entre Cuba e os diversos países, os profissionais recebem apenas 30% a 50% do valor pago ao governo da ilha. A pergunta que não quer calar é: por que esses profissionais se submetem a esse regime de semiescravidão?

Em artigo no website brasil247.com, o jornalista Hélio Doyle justifica: “Não tem o menor sentido, na realidade cubana, que um médico de seus serviços de saúde, trabalhando em outro país, receba R$ 10 mil mensais. E, embora os críticos não aceitem, há em Cuba uma clara aceitação, pela população, de que os recursos obtidos pela exportação de bens e serviços (entre os quais o turismo e os serviços de educação e saúde) sejam revertidos a todos, e não a uma minoria. O que Cuba ganha com suas exportações de bens e serviços, depois de pagar aos trabalhadores envolvidos, não vai para pessoas físicas, vai para o Estado.“

1,4 mil cubanos do Mais Médicos se casaram no Brasil, diz Opas. Casamento abre a possibilidade de que os profissionais fiquem no país, afirma especialista. O número é uma estimativa da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Por último, mas não menos importante: mais de 200 médicos cubanos entram na justiça por causa da diferença salarial e para permanecer no Brasil. Os números são os mais desencontrados, mas há quem estime que algo em torno de 2000 médicos participantes do programa, não regressarão à ilha.

Liberdades para trazerem suas famílias

Em recente artigo, André Borges Uliano, membro do Ministério Público Federal (Procurador da República). Professor de Direito Constitucional, escreveu: “De fato, o direito à convivência familiar é uma prerrogativa basilar do trabalhador, gozando de proteção constitucional (artigos 226 e 227 da Constituição) e em tratados de direitos humanos (por exemplo: art. 15 do Protocolo de São Salvador). No caso do Mais Médicos, a lei brasileira que rege o programa autoriza a vinda dos familiares (art. 18). Alguns sites tem usado esse dado para semear a desinformação, alegando que não existira vedação a que os médicos cubanos trouxessem suas famílias. Absolutamente equivocado. O que ocorre é que a vedação não é imposta pela legislação brasileira, a qual permitiria a vinda dos familiares. Isso acaba valendo para os médicos de todas as nacionalidades, com exceção de uma: Cuba.

Em relação à ditadura comunista, a previsão acaba esvaziada, visto que o governo de Cuba – e não a lei brasileira – restringe essa vinda, numa nítida forma de constranger os profissionais a cumprirem as exigências que o país lhes impõe. Segundo reportagem, a ditadura cubana vinha se utilizando de duas formas para impor a presença dos parentes na ilha: primeiro ameaçando médicos que trouxessem familiares de cassação do diploma; em segundo lugar, como os profissionais cubanos são obrigados a gozar as férias no país de origem, o governo só liberava-os para retornar ao Brasil se anteriormente os parentes que eventualmente houvessem sido trazidos retornassem.”

Em 21 de março de 2015, o website Congresso em Foco (https://congressoemfoco.uol.com.br/) publicou: “Cuba ameaça cassar diplomas de médicos que mantiverem família no Brasil. Pelo programa Mais Médicos, os médicos cubanos que vem ao país não tem direito a trazer seus parentes. Eles podem apenas receber visitas esporádicas e vários profissionais vinham quebrando essa regra. O governo cubano está ameaçando cassar o diploma de medicina dos profissionais integrantes do programa Mais Médicos.”

Mais uma vez, para o Brasil e a maioria dos países do planeta, proibir que um trabalhador que está prestando serviço fora do país leve consigo sua família nuclear, é no mínimo falta de respeito humano. Mas explica-se: o trazer a família eventualmente quebraria o vínculo, o compromisso do retorno. Essa era e é a grande preocupação do governo cubano. Depois de experimentar a vida brasileira, o laissez faire aqui vigente, quem gostaria de voltar?

Remeto-me a uma conversa com um engenheiro japonês na minha única viagem àquele país. O engenheiro havia morado durante cinco anos em São Paulo, prestando serviços à filial local para a empresa japonesa na qual trabalhava. Perguntei-lhe de que mais ele sentia saudade no Brasil. Prontamente respondeu: “feijoada, caipirinha e aquela esculhambacion". Presumo que os médicos cubanos vão sentir muita falta da nossa esculhambacion.



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Atualizado dia 23/11/2018 às 15:34h (Do website O antagonista - https://www.oantagonista.com/)

84% DOS CUBANOS JÁ FORAM SUBSTITUÍDOS

Cerca de 84% das vagas abertas pela saída dos cubanos do Programa Mais Médicos já foram preenchidas, informou hoje o ministro da Saúde, Gilberto Occhi.

O ministro declarou que 7.154 profissionais já estão no município em que deverão trabalhar, para atuação imediata.

Quem precisa do Mais Medicos? I




Por um dever de honestidade intelectual, é forçoso reconhecer que o programa Mais Médicos, gestado no primeiro governo de Dilma Roussef, é um retumbante sucesso. Municípios esquecidos, distantes, pequenos, nunca haviam tido a atenção em saúde antes desse programa. Entendo que não está em questão a validade dessa ação. O que se está a discutir, de forma apaixonada e num espaço que permeia quase toda a sociedade brasileira, é o contrato do governo brasileiro com o governo cubano. O que se questiona é a formação e forma de remuneração dos médicos oriundos de Cuba. É a possibilidade ou não de lhes permitir trazer sua família nuclear.

Quando o governo da ilha, diante dos comentários do presidente eleito do Brasil sobre o programa, decidiu de forma unilateral retirar seus profissionais do território brasileiro, na prática está denunciando o contrato. Contrato que tem, estranhamente, a intermediação da OPAS - Organização Pan Americana da Saúde. Para um simples mortal como eu, não é compreensível que um contrato de serviço entre países não seja feito de forma direta e transparente.

Não importa de quem partiu a iniciativa desse processo, se do governo de Cuba oferecendo seus profissionais, ou se do governo Dilma de pedir o suporte do governo amigo. Sequer importa para essa discussão o mérito do empréstimo do BNDES para a construção do porto de Mariel. Essas questões poderão ser assunto para outro capítulo dessa novela. Com efeito, depois da divulgação de telegramas trocados entre autoridades cubanas e brasileiras, conclui-se que "partiu de Cuba proposta para criar Mais Médicos, em negociação secreta com governo Dilma. Documentos da embaixada brasileira em Cuba mostram que tratativas foram mantidas em sigilo para evitar reação da classe médica brasileira" e a inclusão da Opas objetivava evitar a necessidade de aprovação por parte do Congresso brasileiro.

"Os telegramas mostram que a negociação ocorreu da seguinte forma:

• Cuba criou uma empresa estatal de exportação de serviços médicos em outubro de 2011
• Missão cubana visitou regiões carentes do Brasil em março de 2012
• Proposta inicial foi enviar 6 mil médicos às regiões da Amazônia brasileira
• Cuba queria inicialmente US$ 8 mil por médico, e depois passou para US$ 5 mil
• Brasil sugeriu US$ 4 mil, sendo US$ 3 mil para o governo cubano e US$ 1 mil para o médico
• Proposta de usar a Opas como intermediária partiu do governo brasileiro
• O Brasil aceitou exigências de Cuba como não realizar avaliações dos médicos nem permitir que eles exercessem a profissão fora do programa
• Questões jurídicas deveriam ser levadas à corte em Havana"

O que importa no momento é quais soluções podem ser dadas para substituir esses profissionais pois segundo a CNM - Confederação Nacional dos Municípios informa, "entre os 1.575 Municípios que possuem somente médico cubano do programa, 80% possuem menos de 20 mil habitantes. Dessa forma, a saída desses médicos sem a garantia de outros profissionais pode gerar a desassistência básica de saúde a mais de 28 milhões de pessoas".

O governo Temer lançou em regime de urgência, um edital para a contratação imediata de mais de oito mil médicos. As inscrições deveriam acontecer até o dia 30 do mês corrente (novembro), e espera-se que os profissionais contratados já iniciem os trabalhos na primeira semana de dezembro. O novo edital do programa Mais Médicos está publicado no dia 20 no Diário Oficial da União seção 3, página 134.

A publicação ocorre no dia seguinte ao anúncio do Ministério da Justiça de que serão ofertadas 8.517 vagas para atuação em 2.824 municípios e 34 áreas indígenas, antes ocupadas por médicos cubanos.

Em menos de 24 horas, o website do Ministério da Saúde para a inscrição de médicos ao novo programa, recebeu mais de um milhão de acessos (o que se especula configurar um cyberataque através de milhares de robôs), com a inscrição de cerca de 11.000 profissionais até a noite de ontem, dia 22. Ainda aqui caberia uma observação: quem teria interesse em hackear o site do Ministério da Saúde para dificultar esse processo emergencial? Não há sigilo absoluto na Internet. Essa tentativa de boicote do programa, pode e deve ser apurada.

Consta que mais de duas centenas de médicos cubanos entraram na justiça para permanecerem no país. Muitos casaram com brasileiros(as), alguns outros fizeram o Revalida, e uns poucos simplesmente recusam-se a voltar. Ainda que não seja uma amostragem representativa, mas apenas como informação, conheço pessoalmente a situação de pequeno município do interior paranaense: dos quatro médicos cubanos que vieram através do programa, uma casou com um brasileiro e já não mais pertence ao Mais Médicos, dois foram aprovados no Revalida, abandonaram o programa e foram contratados diretamente pela prefeitura. O último está arrumando as malas.

A verdade é que, se de um lado (o brasileiro) há uma grande preocupação com a substituição dos médicos, de outro lado (o cubano) imagino deve também haver um problema a ser gerenciado. Sabe-se, através da OMC - Organização Mundial do Comércio e mesmo da imprensa estatal cubana, a exportação dos serviços de saúde por parte de Cuba é sua principal fonte de renda internacional."Bem mais lucrativo que a exportação de produtos produzidos na ilha, como açúcar, tabaco, rum ou níquel, o envio de profissionais de saúde para o exterior responde por 11 bilhões de dólares dos 14 bilhões de dólares que Havana arrecada por ano com exportações de bens e serviços."

"As alternativas (à perda econômica do Mais Médicos) são muito escassas", diz o economista cubano Mauricio De Miranda Parrondo, professor titular da Pontifícia Universidade Javeriana de Cali, na Colômbia, em entrevista à BBC News Brasil.

A verdade é que, independente do matiz ideológico a que você se filie, nada no momento é mais importante do que garantir aos deserdados da sorte, aos que realmente precisam, um serviço de saúde que lhes permita ter uma assistência de qualidade e presteza.



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Atualizado em 25 de outubro, às 18:39h

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O dia em que fui miseravelmente humilhado e Chico deu um cotoco ao Presidente do Banco!


IBM System/3


Sempre tive verdadeiro fascínio e respeito pela inteligência humana. Claro que outros valores despertam sempre admiração, tais como beleza, prosperidade, honestidade, coerência no viver, estoicismo, resiliência etc, mas a "faculdade de conhecer, compreender, raciocinar, pensar e interpretar" as mais diversas situações, é o que faz a principal distinção entre os humanos e outros animais.

Aos vinte anos tive meu primeiro contato com um computador (meu neto Arthur com apenas um ano, já brinca com o notebook do seu pai). Era uma monstruosa máquina IBM 1130, pertencente à Universidade Federal do Ceará. O sistema completo inclusive impressora, pesando algumas toneladas e instalado numa sala com temperatura controlada, tinha piso falso para proteger a grande quantidade de cabos responsáveis pela interligação entre os diversos componentes.

Quis o destino que pouco tempo depois eu fosse atuar como um profissional muito próximo dessas máquinas, quando aprovado em concurso da IBM e depois de duradouro curso de treinamento, tornei-me analista de sistemas de computação.

À época a IBM estava comercializando, em nível mundial, um computador de "pequeno" porte (IBM/3) com linguagem de programação própria (RPG), voltado essencialmente para atender às diversas demandas administrativas de empresas pequenas (contabilidade, pagamento de pessoal, faturamento, controle de estoque, emissão de faturas etc), e tendo como especialidade a geração de relatórios gerenciais.

Por conveniência da empresa tornei-me especialista nesta família de máquinas. Desenvolvia, instalava e dava manutenção nos sistemas que "rodavam" nos equipamentos instalados no Ceará, Piauí e Maranhão, sem prejuízo para eventual atendimento em equipamentos instalados em Pernambuco (acho que aconteceu apenas um par de vezes).

Eu era considerado um bom profissional. Conhecia bem o objeto do meu trabalho.

O Banco do Estado do Piauí tinha um desses equipamentos instalados na sua sede em Teresina, que processava os sistemas de conta corrente, pagamento de pessoal, contabilidade e cobrança/desconto. O aumento dos volumes a serem processados exigiu a contratação de uma expansão do equipamento, aumentando a sua capacidade de armazenamento em disco. Como habitualmente, fui escalado pelo gerente Francisco de Paula Rodrigues Sobrinho para executar a tarefa. Francisco (codinome Chico Nome Feio), era uma estrela da empresa no Brasil. Sua inteligência beirava a genialidade. Havia sido responsável pelo desenvolvimento e instalação do sistema da bolsa de valores em São Paulo, tinha ganho o prêmio internacional de analista do ano (entre mais de duzentos mil profissionais da empresa no mundo inteiro), e a IBM o queria morando nos Estados Unidos, trabalhando em um dos seus centros de desenvolvimento. Nessa oportunidade ele pediu demissão porque queria vir morar em Fortaleza. A empresa não teve outra alternativa senão mandá-lo para a filial local como gerente de análise e pouco tempo depois gerente da filial.

Viajei para Teresina numa quarta-feira à noite, com o propósito de "botar no ar" a expansão de disco no dia seguinte e voltar na sexta para estar em casa no final de semana. Não aconteceu. Trabalhei a quinta feira toda, a sexta, o sábado e ao longo do domingo recebi uma ligação de Chico. Contei-lhe que estava com grande dificuldade, que já tinha tentado tudo o que eu conhecia, o que os manuais indicavam e até havia ligado para o suporte no Rio de Janeiro. Nada parecia funcionar. Ele me pediu para apanhá-lo no voo que chegava em Teresina por volta de uma ou duas horas da madrugada da segunda feira. "Meu Deus", pensei. "O que ele vem fazer aqui? Sequer conhece a máquina. O craque nela sou eu"! Evidente que na hora prevista eu estava no aeroporto. Recebi-o e quando disse ao motorista do taxi que se dirigisse para o então Hotel Piauí (posteriormente Luxor Hotel) ele corrigiu: "vamos para o banco do estado". Eu tinha autorização para entrar a qualquer hora nas dependências do centro de processamento de dados, e não era inusitado o tráfego de pessoas naquela área. É comum nesse ramo equipes trabalharem ao longo da noite.

Entramos na sala do computador e ele rapidamente sentou na cadeira à frente do painel. Pediu-me: "Nilo, abre aí o console". Cumpri a ordem, não sem pensar: "o cara não sabe sequer abrir o console do computador!". Ele começou a digitar velozmente comandos no teclado, alguns davam erro, ele voltava a digitar outros comandos. Parte eu conhecia, outros não. Vez ou outra solicitava alguma informação. Por volta das quatro da madrugada, pediu-me para botar o formulário contínuo e ligar a impressora. Cumprida a tarefa, o sistema não reconhecia o discão. Novas tentativas, novos comandos, mais trabalho, a que eu assistia calado. Confesso que internamente eu gozava com aquela situação. Pouco antes das sete da manhã ele desligou o sistema. Pensei: "desistiu!". Levantou-se da cadeira, apontou-a para mim e ordenou: "ligue a máquina". Obedeci. "Agora, gere qualquer relatório". A rotina mais complicada que eu conhecia era a que identificávamos como "valor por extenso". Era uma complicada rotina na qual o operador digitava um valor qualquer - R$ 12,73 por exemplo - e o equipamento imprimia na fatura o valor por extenso - "doze reais e setenta e três centavos". Mais do que identificar o valor, que já era extremamente complicado, tinha que ser impresso com continuidade, no espaço certo etc. Tasquei um número bem complicado e corri para a impressora. Impressão perfeita. O sistema funcionando como uma orquestra bem treinada. Digitei outro valor, e outro e outro. Tudo certo. Desligamos o computador e quando saíamos da sala ele bateu amigavelmente no meu ombro e disse: "rapaz, tu tem que aprender a mexer com essa máquina". Suprema humilhação!

Era algo em torno de sete horas da manhã. Descíamos as escadas, quando encontramos o presidente do Banco. Era um certo dr. Júlio, funcionário de carreira do Banco do Nordeste e cedido para o Governo do Estado do Piauí para presidir o banco estadual. O presidente dirigindo-se ao meu gerente disse: "Chico, essas máquinas de vocês não funcionam". Juro que jamais presenciei em minha vida um cotoco tão bem aplicado. Nem no tempo em que eu era criança. Do alto dos seus quase um metro e noventa, com seu longo dedo médio, levantou esse dedo com os outros dedos fechados e sem dar uma palavra deu-lhe as costas e fomos tomar o café da manhã no Hotel Piaui.

Deus o tenha, Grande Chico!

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O Ministro radical de Bolsonaro


"Ministério das Relações Exteriores do Brasil (MRE), também conhecido como Itamaraty, é um órgão do Poder Executivo, responsável pelo assessoramento do Presidente da República na formulação, no desempenho e no acompanhamento das relações do Brasil com outros países e organismos internacionais. A atuação do Itamaraty cobre as vertentes política, comercial, econômica, financeira, cultural e consular das relações externas, áreas nas quais exerce as tarefas clássicas da diplomacia: representar, informar e negociar."
(https://pt.wikipedia.org/wiki/Minist%C3%A9rio_das_Rela%C3%A7%C3%B5es_Exteriores_(Brasil)


Amigo telefona-me para me pedir opinião sobre a escolha do Ministro das Relações Exteriores pelo Presidente eleito Jair Bolsonaro. Antes que eu desse minha opinião, pergunta-me se não o acho um arrivista. Não, não o considero um carreirista, um oportunista.

Nunca havia ouvido falar no diplomata Ernesto Araújo. Logo depois do seu anúncio, cuidei em pesquisar o que ele tinha escrito, as linhas mestras do seu pensamento. E deparei-me com seu Blog - https://www.metapoliticabrasil.com/. Li quase todos os textos postados. Considero-o um ativista de ultradireita, messiânico (com o perdão do trocadilho), que livre e sem temor expõe suas convicções. Se a avaliação não me trair, creio que o Presidente terá que monitorar de perto a atuação do Itamaraty, e imagino que não seria tão "doloroso" para ele ter que excluir de sua equipe o chefe da diplomacia brasileira ao longo do seu mandato, ao contrário da exclusão de um Sérgio Moro ou de um Paulo Guedes.

Consta que o escolhido atingiu a lupa do novo governo através de indicação de Olavo de Carvalho. Este eclético e controvertido brasileiro, morador há quase 14 anos do estado norte-americano de Virgínia, é escritor, conferencista, ensaísta, jornalista e filósofo autodidata, ex astrólogo, ex militante comunista ( membro do Partido Comunista Brasileiro de 1966 a 1968) e considerado o pai da nova direita brasileira.

A partir dos seus escritos, pode-se imaginar qual direção o futuro Ministro dará à política externa brasileira.

Sobre si mesmo, Ernesto define-se como alguém que quer ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anticristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história.

Sobre o PT, no seu artigo "Eu vim de graça" (20 de outubro), escreve:

Não há nada que o PT odeie tanto quanto a liberdade: liberdade econômica, liberdade de pensamento, liberdade de expressão. Isso porque o PT, fiel ao “belo ideal socialista”, odeia o ser humano. Deixado a si mesmo, o ser humano cria e produz, ama e constrói, trabalha e confia, realiza-se e projeta-se para a frente. Então não pode. O PT (que aqui significa não apenas “Partido dos Trabalhadores”, mas também Projeto Totalitário ou Programa da Tirania) não pode deixar o ser humano a si mesmo.

Sobre política externa, escreveu no texto "Querer grandeza" (3 de novembro):

Justiça social, direitos das minorias, tolerância, diversidade nas mãos da esquerda são apenas aparelhos verbais destinados a desligar a energia psíquica saudável do ser humano.
A aplicação dessa ideologia à diplomacia produz a obsessão em seguir os “regimes internacionais”. Produz uma política externa onde não há amor à pátria mas apenas apego à “ordem internacional baseada em regras”. A esquerda globalista quer um bando de nações apáticas e domesticadas, e dentro de cada nação um bando de gente repetindo mecanicamente o jargão dos direitos e da justiça, formando assim um mundo onde nem as pessoas nem os povos sejam capazes de pensar ou agir por conta própria.


Sobre a esquerda, no artigo "A esquerda: de Robespierre ao PT" (29 de setembro):

O líder do regime revolucionário, Robespierre, afirmou em um discurso em 1794: “A alavanca do governo popular na revolução é, ao mesmo tempo, a virtude e o terror (...) O terror não é outra coisa senão a justiça rápida, severa, inflexível. O terror é, portanto, uma emanação da virtude (...), uma consequência do princípio geral da democracia.”
Observa-se que, na época, os líderes esquerdistas eram um pouco mais sinceros do que hoje. Violência era, admitidamente, parte integrante do programa. Mas você acha que esse pensamento desapareceu? Veja então o principal teórico marxista da atualidade, Slavoj Zizek, que tem um livro intitulado justamente Virtude e Terror, onde lamenta que a esquerda tenha-se tornado muito frouxa e recomenda a volta ao bom e velho terror de Robespierre como instrumento de libertação das massas.
A virtude pelo terror, o terror em nome da virtude, esse tornou-se o programa da esquerda ao longo do tempo.


Sobre virtudes em "Virtudes e virtudes" de 4 de outubro:

Há virtudes positivas e negativas. Precisamos das duas, mas as positivas são fundamentais, as negativas vêm depois, para regulá-las. Virtudes positivas são o amor, a vontade, a ambição, o desejo, o orgulho, a coragem, o espírito de luta, a determinação, a fé, a esperança, a caridade (que significa amor) e tantas outras. Virtudes negativas, ou regulatórias para chamá-las assim, são a tolerância, a prudência, a temperança, a moderação, a humildade, a serenidade, a concórdia. As positivas concebem e erguem o edifício, as negativas o administram e mantêm. As positivas afirmam, as negativas evitam que as primeiras se percam no excesso e desmesura, na obsessão ou na temeridade. A prudência regula a coragem, a humildade regula o orgulho, e assim por diante.

Sobre o aborto em "Falando de valores" de 8 de outubro:

Veja-se por exemplo a questão do aborto nos Estados Unidos. Ao contrário do que normalmente se diz, o aborto lá nunca foi legalizado em sentido estrito, isto é, a permissão de abortar nunca foi objeto de uma lei devidamente aprovada no Congresso. O "direito" ao aborto nos EUA decorre de uma decisão da Suprema Corte. Trata-se da decisão no caso Roe vs. Wade, de 1973, onde Roe é o nome fictício de Norma McCorvey, uma mulher que entrou na justiça pelo direito de abortar, conseguiu-o graças à sua vitória naquele caso, mas anos depois se arrependeu, converteu-se ao cristianismo evangélico, mais tarde ao catolicismo, e tornou-se uma militante antiaborto – tal como descrito em seu livro autobiográfico Won by Love, de 1998.

Sobre Religião, sugiro que leiam "Antes da batalha" de 27 de outubro (https://www.metapoliticabrasil.com/blog/antes-da-batalha). Óbvio que aqui ele remete o texto à eleição no segundo turno. Provavelmente desejo de bons augúrios ao seu candidato preferido.

Essa é a essência do pensamento do futuro Ministro das Relações Exteriores, em pequenos trechos de artigos escritos no seu Blog pessoal. Faça você mesmo seu julgamento.



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Atualizado em 16/11 às 9:57h

A indicação do diplomata Ernesto Araújo para dirigir o MRE, assemelha-se à uma dosagem excessiva de quimioterapia para tratar o câncer da politização do Itamaraty, e fazer acontecer o "momento de redirecionamento da política externa brasileira como parte do momento de regeneração que o Brasil vive hoje".

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Devagar com o andor...




"Nas procissões católicas, que antigamente eram muito comuns nas cidades do interior, e ainda sobrevivem em muitas, normalmente as imagens de santos são carregadas em andores: um tablado de madeira com duas barras longas e paralelas uma de cada lado, que servem para apoiar o tablado sobre os ombros dos que carregam as imagens. Isso precisa ser feito com cuidado e calma, senão, o santo pode escorregar, cair e quebrar, pois é feito de barro (louça ou cerâmica). Assim, a expressão "Devagar com o andor, que o santo é de barro", passou a ser usada para significar: Calma! Não se apresse, pois a precipitação pode causar problemas." (Do blog de Ana Scatena - http://anascatena.blogspot.com/).

Poucos instantes depois do convite e aceitação do Juiz Moro para participar do Governo Bolsonaro, que eu não concordei, diga-se (https://nilosergiobezerra.blogspot.com/), começaram a pipocar na Internet, em textos de colunistas políticos e mesmo na grande mídia, a "nomeação" de Moro como futuro presidente do Brasil. Ora, se mil outros argumentos não existissem, apenas o fato do presidente recém-eleito sequer ter assumido ainda, já desautoriza qualquer especulação sobre sua sucessão.

O Ministro Moro será responsável por uma agenda que engloba dois entre os três maiores problemas que afligem o brasileiro, conforme pesquisas recentes: a corrupção e a violência. O novo governo vai enfrentar no primeiro ano de mandato um grande deficit nas contas públicas e forte restrição orçamentária, de acordo com projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019. O projeto prevê uma meta de deficit primário de R$ 139 bilhões para o governo central. A implementação de novos programas de contenção da corrupção endêmica que infectou o tecido social, e mais grave ainda, baixar o nível de violência vigente no país, pressupõe recursos que imagino não serão de pequena monta. A mobilização de esforços para a monitoração de mais de 17 mil quilômetros de fronteira objetivando diminuir a entrada clandestina de armas e drogas, certamente a razão maior dos índices de violência existentes, será uma tarefa hercúlea. Na luta contra a corrupção, terá que implantar políticas de combate aos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, entre outros. Esse último item certamente desagradará larga parcela do segmento político, sabendo-se que pelo menos um terço dos que compõem as casas legislativas federais encontram-se envolvidos (por razões diversas) com a justiça, sem contar com o eventual envolvimento de colegas do Executivo.

Apenas por amor ao debate de ideias, imaginemos que o Ministro Moro tenha sucesso absoluto nas suas tarefas. Sua imagem está, a partir de agora, irremediavelmente vinculada ao Presidente Bolsonaro e seu governo. É necessário que este também tenha a aprovação da maioria da população ao término do seu primeiro termo, e ainda consideremos que cumprirá a promessa de campanha de empenhar-se em revogar a lei da reeleição. São tantas as condicionantes e tão distante no tempo a análise objetiva dessa possibilidade, que me remete à sabedoria popular: ”devagar com o andor que o santo é de barro”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

The midterm elections




As chamadas "midterm elections" nos Estados Unidos, acontecem quando o mandato presidencial está no final do segundo ano. O presidente é eleito para um mandato de 4 anos, com direito a uma, e apenas uma, reeleição. Essa eleição é importante porque é um indicativo do que poderá acontecer na eleição presidencial dois anos depois. É uma espécie de plebiscito do mandato presidencial.

Este ano esperava-se pelo que se convencionou chamar de onda azul. Seria uma superlativa vitória dos Democratas, baseada nas pesquisas de aprovação do Governo Trump, ou melhor dizendo na desaprovação do próprio Trump. Não aconteceu. Apesar do presidente ser antipatizado por grande parcela da população por suas posições autoritárias, aparentemente misóginas, anti-imigração, guerra declarada aos grandes veículos de comunicação etc (qualquer semelhança é mera coincidência), o Partido Republicano manteve o domínio do Senado. Aqui nos defrontamos com a popular história do "copo meio cheio ou meio vazio". Houve uma vitória Democrata, na medida em que conseguiu reaver a maioria na House (Câmara), mas com gosto de derrota pela perspectiva de vitória em ambas as casas legislativas. O inverso para os Republicanos.

"Nestas eleições estavam em jogo todos as 435 vagas da Câmara, 35 cadeiras do Senado, 36 governos de Estados americanos, além de vários cargos locais, como prefeitos, juízes e xerifes." Interessante esclarecer que os mandatos de deputados é de apenas dois anos, enquanto o Senado renova um terço a cada dois anos, uma vez que o mandato de senador é de seis anos.

A partir desta eleição, ambos os partidos possuem maioria confortável nas respectivas casas. Na Câmara, os Democratas deverão ganhar 229 cadeiras, enquanto os Republicanos ficarão com algo em torno de 206 e alguns poucos ditos independentes. No Senado, os números finais deverão ser 53 X 47, com vantagem para os Republicanos. Com relação aos governos estaduais, os Republicanos perderam alguns governadores mas mesmo assim ainda continuam com a maioria dos estados.

Apesar do resultado adverso, o Presidente Trump não "passa recibo", como é característica de seu procedimento. Vejam abaixo o Twitter postado por ele, às 1:14h da madrugada (horário de Washington).



Mas finalmente, quais as implicações desse resultado? Recorro à Rede CNN, um dos mais prestigiados grupos de mídia dos Estados Unidos. Sua manchete principal é: "Um dividido Congresso, uma América dividida". E segue a matéria:

- "Os democratas capturaram na terça-feira a Câmara dos Representantes e devem fazer um grande controle institucional sobre o presidente Donald Trump."
- "As tendências opostas na Câmara e no Senado enfatizaram um abismo político e cultural entre os diversos e ricos liberais que vivem nas grandes cidades e seus subúrbios e o grupo conservador de brancos, predominantemente branco, trabalhador e rural, para quem Trump continua sendo uma figura icônica."
- "Nancy Pelosi, ex-presidente da Câmara que está em posição de liderar novamente, prometeu que a nova maioria trabalharia para controlar a Casa Branca, assim como para melhorar os serviços de saúde, diminuir o custo dos medicamentos e proteger milhões de americanos com drogas pré-existentes. 'Hoje é mais do que democratas e republicanos. Trata-se de restabelecer os freios e contrapesos da Constituição à administração Trump', disse Pelosi."
- "O deputado democrata Jerrold Nadler, que está escalado para dirigir o Comitê Judiciário da Câmara, advertiu que a eleição era sobre responsabilidade por Trump. 'Ele vai aprender que não está acima da lei', disse Nadler à CNN."

Acompanhei, seja pelos talk shows de rádio e televisão, seja conversando com o homem comum, os 14 meses de constrangimento e verdadeira humilhação pelos quais passou o Presidente Clinton, acossado pela maioria Republicana no episódio Mônica Lewinsky. Apesar do suposto otimismo do presidente, se eu fosse ele colocaria minha basta cabeleira ruiva de molho.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

O velho dinossauro




Confesso que já faz muito tempo. Foi no ano de 1967 e o vestibular era dirigido para determinada faculdade. Eu havia escolhido Engenharia. Tinha uma certa facilidade para lidar com números, mas também gostava muito de ler. O curso ginasial no Colégio Cearense (Marista de primeiríssima qualidade), obrigara-me a transformar em hábito o exercício da leitura. O que no início era uma dolorosa obrigação, transformou-se em um prazeroso ocupar de tempo livre.

No cursinho pré-vestibular do Cearense, tive como professor de português o grande mestre Plínio de Sá Leitão. Seu profundo conhecimento da língua, sua extrema capacidade de motivar os alunos e o entusiasmo com que ministrava suas aulas, fizeram-me obter a nota oito em português para o vestibular de Engenharia. Registre-se que à época não existiam provas de múltipla escolha, o que (avalio) dificultava ainda mais o desafio do ingresso em curso superior.

Como disse, aconteceu há longo tempo. As coisas hoje em dia estão muito mais modernas. Já não se escolhe um texto de Machado de Assis ou uma poesia de Cecília Meireles. Creio que o surgimento da Internet, da comunicação instantânea, das redes sociais, dos aplicativos e das aulas não presenciais, a própria evolução de costumes da sociedade, deixaram-me para trás. Perplexamente para trás. Um dinossauro dos tempos.

Havia me proposto a escrever algo sobre o exame do Enem acontecido no domingo último. Após ler a prova, de reler e tentar entender seu conteúdo, não me sinto capaz de fazê-lo. Como um velho dinossauro do período do vestibular escrito vai avaliar exames preparados nestes tempos modernos? Existem questões que eu sequer compreendo o significado. E outras tantas que para mim, essa ultrapassada criatura, não caberiam num texto de avaliação de candidatos ao ingresso no ensino superior. Os "Machados de Assis" e as "Cecílias Meireles" caducaram. De minha parte, sinto-me profundamente feliz por participar da época daqueles vetustos escritores e poetas. Certamente não seria aprovado em exames que tanto exigem do raciocínio, da criatividade e do conhecimento literário dos jovens de hoje.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Socialismo à americana




Voltando dos Estados Unidos. Nas minhas andanças pelo país, fascina-me conversar com as pessoas, saber o que pensam dessa grande nação, tentar entender a alma americana.

Ultimamente tenho identificado um leve movimento do povo americano, tangendo o país para a esquerda. Talvez fosse melhor dizer que há uma pequena fração da população que tende a aceitar bandeiras tradicionais do socialismo.

Vários são os fatores que unem esse pequeno segmento, temporariamente (imagino) agasalhados no Partido Democrata. Mas já se pode notar dentro do Partido, um embate entre os Liberais que foram ao longo do tempo não apenas predominantes, mas quase únicos, e os ditos Socialistas Democráticos.

A vitória de Trump com sua pauta extremamente conservadora, especialmente sua incansável batalha contra o Obamacare (sistema de saúde que beneficiou milhões de americanos), em contraponto a uma das bandeiras dos socialistas de saúde gratuita para todos (uma espécie de SUS), tem sido elemento preponderante para o crescimento desse movimento de "esquerda". O aumento dos "sem teto" desde a crise dos subprimes de 2007/2008, é também alvo de grande preocupação desse novo movimento. Mas o que deu robustez e multiplicou os simpatizantes, foi a candidatura às primárias de Bernie Sanders na eleição presidencial de 2016. É bem verdade que ele perdeu a oportunidade de ser o candidato contra Donald Trump, mas não é menos verdade que sua mensagem calou fundo no coração de muitos americanos, especialmente os mais jovens.

Sanders fez sua campanha defendendo saúde e educação gratuitas para todos, aumento (para o dobro) do salário mínimo, diminuição da desigualdade interpessoal, maior controle sobre a função social das empresas, flexibilização da imigração etc. Uma pauta mais que liberal, com um viés claramente socialista, e diametralmente oposta à pauta conservadora de Trump. Quando o Senador Sanders perdeu a indicação, sua contendora e correligionária Hillary Clinton absorveu algumas das bandeiras (lembro-me bem de dobrar o salário mínimo durante sua gestão e um movimento em direção às ideias imigratórias de Sanders, que já tinham sua simpatia), mas não foram suficientes para sensibilizar parte do jovem eleitorado de Sanders. Além da disputa das primárias ter sido muito renhida, ela representava a política tradicional com todos os seus defeitos e pecados.

Ouso dizer que nos próximos anos, no berço da democracia mais liberal do mundo, deverá nascer um forte Partido Socialista (talvez a recriação do Socialist Party of America, que cessou atividades na década de 70), ou quem sabe sejam eles os hegemônicos dentro do Partido Democrata.

Fortaleza, 30 de agosto de 2018

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Diga "não", Moro!




A imprensa divulga com insistência e o próprio presidente eleito confirmou em recente entrevista, que o Juiz Sérgio Moro será convidado para Ministro da Justiça no seu governo. Não poderia haver melhor escolha. Sérgio Fernando Moro (nascido em Maringá em 1 de agosto de 1972), e juiz federal da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, foi professor de direito processual penal na Universidade Federal do Paraná. "Moro ganhou enorme notoriedade nacional e internacional por comandar, desde março de 2014, o julgamento em primeira instância dos crimes identificados na Operação Lava Jato que, segundo o Ministério Público Federal, é o maior caso de corrupção e lavagem de dinheiro já apurado no Brasil, envolvendo um grande número de políticos, empreiteiros e empresas, como a Petrobras, a Odebrecht, entre outras."

Todos temos o direito de manifestar livremente opiniões, ideias e pensamentos pessoais sem medo de retaliação ou censura, conforme Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, no seu Artigo XIX. Assim também, a Constituição brasileira de 1988 registra o direito à liberdade de expressão, como abaixo:

Art. 5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Com as salvaguardas estabelecidas acima, atrevo-me a emitir minha opinião. O Juiz Moro tem uma tarefa que está sendo cumprida com a admiração e aplauso da grande maioria dos brasileiros. Ninguém, além do Lula de 2010, chegou tão próximo da unanimidade nacional. Fazer parte do ministério do presidente recém-eleito, certamente abrilhantaria aquele colegiado. No entanto, agora que muitos dos implicados na operação lava jato perderam o foro privilegiado, ausentar-se seria no mínimo alimentar uma forte decepção na sociedade brasileira. Apesar da sabedoria popular estabelecer que "o cemitério está cheio de pessoas insubstituíveis", a justiça precisa da sua mão firme e correta em defesa dos valores e leis nacionais. Ademais, vamos combinar que o Executivo pode não ser a "sua praia". Seguindo carreira no Judiciário, você terá eternamente o reconhecimento de (quase) todos. Você destemidamente deu o início a esse processo de expurgo e exorcismo dos "mal feitos" dos poderosos.

A eventual ida do Juiz Moro para formar no novo Gabinete, se por um lado seria uma garantia de que o governo não flertaria com tentativas de navegar na difusa fronteira entre a lei e o autoritarismo tosco, por outro lado, poderia criar zonas de atrito entre seu garantismo e o "excesso de zelo" de setores dos vencedores. A sociedade brasileira já possui mecanismos e instituições sólidas e bem definidas para garantir a condução democrática do país, sem que seja necessária a presença de alguém com seu perfil, para servir de avalista dessa condução.

Vida longa, Juiz Moro! Um brilhante futuro espera por você.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O Day After




Madrugada de segunda feira, 29 de outubro. Em meio à excitação da eleição, insone, abro o notebook e deparo-me com a manchete do UOL: "Análise: primeiro discurso de Bolsonaro é desanimador e mantém tom bélico." Não resisti. Ironicamente, escrevi o comentário a seguir: "Ainda bem que o discurso do Haddad foi num tom conciliador e de entendimento... e depois daquela amistosa ligação telefônica que ele fez para o capitão (seguindo a tradição), reconhecendo a derrota e clamando pelo desarmamento dos espíritos pelo bem do país, tudo voltará à paz e à concórdia no seio da família brasileira." É bem verdade que no primeiro pronunciamento do capitão após o anúncio do resultado, formatado para as redes socias e claramente dirigido aos seus militantes, não havia uma mensagem clara para a oposição, um gesto magnânimo de mãos estendidas. O tom messiânico ali empregado também não me agradou. Mas as avaliações feitas na matéria do UOL, além de injustas, são exageradamente desfavoráveis ao presidente eleito.

Na varredura nas redes sociais, encontro entre os dez Brasil Trends do Twitter, as hashtags #ForaBolsonaro, #EleNaoEMeuPresidente, #EleNaoMeRepresenta e #AdolfHitler (entendo que esta última, não coincidentemente se encontra presente). Ainda no Facebook, um pequeno vídeo denunciando a agressão de um policial a jovens que se manifestavam ontem à noite (presumo), sendo debitada na conta do recém-eleito presidente. No áudio, vê-se que o episódio acontece em Salvador, capital de um estado que é um bunker do PT e cujo governador foi reeleito ainda no primeiro turno. No WhatsApp, um vídeo do candidato do Psol tentando deslegitimar a vitória do presidente eleito, conclama a população para "a luta". Vamos à rua "já na próxima terça-feira" diz ele. Essa é a esquerda que eu conheço!

Ora, a eleição passou. Agrade-nos ou não, um dos candidatos ganhou com mais de 55% dos votos dos brasileiros. Foram quase sessenta milhões de pessoas que acreditaram nas propostas do vencedor, seja por terem sido sensibilizadas por elas, seja pela fadiga dos partidos e lideranças tradicionais. Uma eleição absolutamente atípica para os padrões brasileiros, quando os caminhos trilhados anteriormente não funcionaram. Agora é a hora de "lamber as feridas", tentar reconciliar o tecido social da nação, sem prejuízo para a vigilância ao governo na direção do cumprimento das promessas de campanha e do seu programa registrado no TSE, especialmente por parte da oposição. Neste momento, quando o país se encontra claramente dividido, provocar movimentos de rua, hostilidades na imprensa e nas redes sociais, não é o melhor caminho. Não constrói. Não dirige o país para uma sociedade de paz e de desenvolvimento. Não facilitará a urgente necessidade de minorar as diferenças interpessoais, intersetoriais e inter-regionais presentes no Brasil. Muito mais inteligente e talvez mais produtivo, seria seguir o exemplo da oposição inglesa. Criem um ministério fantasma ou ministério de sombra (Official Opposition Shadow Cabinet) com quadros competentes, composto pelos membros de escalão mais alto da oposição, com a função de monitorar "titulares de cargos correspondentes no Governo, desenvolvendo políticas alternativas, e pressionando o Governo para explicar suas ações públicas."

Ah, mas isso é muito civilizado para o PT, ou melhor dizendo, para a política brasileira. O que vimos no vídeo do candidato do Psol e principalmente no discurso do concorrente vencido, bem como na manifestação de vários líderes da oposição, foi a "faca nos dentes". Em vez de um gesto de conciliação (sequer desejou felicidade ao novo governo), de um telefonema seguindo a tradição, cumprindo um protocolo republicano, o que se ouviu foram declarações bélicas, essas sim. Quem quer a reconstrução de uma sociedade de paz, o refazimento do tecido social esgarçado, não conclui um discurso de derrota com a frase "verás que um professor não foge à luta". Deus abençoe o Brasil!

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Atualizado em 29/10/2018 às 13:37h

@Haddad_Fernando

Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!

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9:36 AM - 29 Oct 2018

sábado, 27 de outubro de 2018

A bala de prata




Estamos a vinte e quatro horas da decisão da escolha do próximo presidente do país, em meio a uma campanha tisnada por ampla divulgação de notícias falsas (as ditas fake news), e uma preocupante e profunda divisão do tecido social brasileiro.

O candidato da esquerda, em cristalina desvantagem nas pesquisas de opinião, aposta em qualquer fato novo que o reconduza à disputa. A última “bala de prata”, depois de várias tentativas infrutíferas, é a volta do terceiro colocado no primeiro turno, o candidato Ciro Gomes.

A depender de Lula e de grande parte do PT, Ciro jamais será candidato apoiado por eles. Temem dele o talento verbal e o incontestável conhecimento do país. Não se faz três campanhas para presidente (percorrendo o Brasil), não se é deputado, governador, ministro, sem que se acumule um largo portfólio dos problemas da nação. Mas mais do que isso, Lula e o PT temem a perda do protagonismo político. Preferem perder com um "poste", a ganhar com Ciro.

Essa foi sempre a ecologia reinante no PT. É a busca da hegemonia. Estou absolutamente convencido de que Luís Inácio jamais teve um projeto político de longo prazo para o país. Sequer para o PT ou para a esquerda. Seu projeto político é absolutamente pessoal.

Hoje ouvi de um amigo, eleitor de Ciro: "por que eles agora estão desesperadamente em busca do apoio de Ciro? Por que Ciro deveria fazer campanha para que o PT perca por menos? Ele já foi enganado demais pelo Lula. Perseguido até. Agora apelam à responsabilidade democrática e ao amor ao país de Ciro Gomes."

Com efeito, trabalhar pelo candidato do PT, para eventuais projetos futuros do ex-governador cearense, é um tiro no pé. A Folha de São Paulo publica hoje declaração do ex-presidente, dizendo que "resultado apertado mudará o patamar da oposição". Mais do que o gesto de "jogar a toalha", o líder maior do PT dá o mote para sua militância: vamos encurtar a vitória dele, vamos infernizar o governo dele (como só o PT sabe fazer) e estaremos de volta em 2022.

Não há outra leitura possível. Mas quero concluir essas divagações despretensiosas, com a brilhante metáfora do jornalista Josias de Sousa no seu Blog no último dia 10 de outubro:

"O PT chega ao segundo turno da eleição presidencial um pouco como o personagem da anedota, que mata pai e mãe e, no dia do julgamento, pede misericórdia com um pobre órfão. O PT quer a compreensão de todos para formar uma “frente democrática” de combate a Bolsonaro, personagem que o partido mesmo ajudou a criar com suas cleptogestões e seus pendores hegemônicos. A diferença entre o PT e o ''órfão'' da piada é que o PT deseja que o perdoem sem pedir perdão... "



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Atualizado em 27/10/2018 às 16:57h

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A Marcha dos Desesperados


“A chamada "Marcha dos Migrantes" saiu no sábado (13/10) da cidade de San Pedro Sula, no norte da Honduras. Famílias inteiras vêm a pé, em caravana, com os olhos postos nos Estados Unidos.”

Para compreendermos essa marcha de desesperados, faz-se necessário situar a República de Honduras geográfica e politicamente. Honduras é um país da América Central, com cerca de 9 milhões de habitantes e uma área territorial de algo em torno de 112.000 km2 (o estado do Ceará possui quase 149.000 km2). Seu Produto Interno Bruto (PIB) é de menos de 23 bilhões de dólares americanos, dado referente ao ano de 2017 (apenas para referência, o PIB brasileiro em 2017 foi de mais de 2 trilhões de dólares). A nação é dividida em 18 Departamentos (divisão assemelhada a estados) e é considerada a mais violenta do mundo, com uma taxa de homicídios de 55,5 mortes por 100 mil habitantes (dado de 2017).

Nos últimos dez anos, os indicadores hondurenhos têm tido um agravamento incontrolável, fruto da instabilidade política que marcou aquele país desde o golpe que destituiu o presidente Manuel Zelaya, em junho de 2009. Zelaya havia sido eleito em 2005, por uma coligação de centro direita. Ao longo do mandato, paulatinamente foi aproximando-se de Hugo Chaves. Como a constituição hondurenha não permitia a reeleição para o cargo de presidente, tentou aprovar uma emenda constitucional que modificasse esse dispositivo, considerado cláusula pétrea. A Suprema Corte considerou essa tentativa inconstitucional. Zelaya então propôs que se fizesse, quando das eleições gerais de novembro de 2009, um plebiscito sobre a mudança da constituição. O congresso (unicameral com 128 cadeiras) para obstaculizar essa manobra, aprovou uma nova lei que regulamenta os referendos e os plebiscitos e invalidava juridicamente a consulta. A nova legislação impedia a realização de consultas 180 dias antes e depois das eleições gerais. Zelaya então, nessa queda de braços com as forças políticas do país, marcou uma consulta plebiscitária com o seguinte teor: "Está de acordo com que nas eleições gerais de novembro de 2009 se instale uma quarta urna para decidir sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte que aprove uma nova Constituição política?". Era uma consulta sobre a consulta.

Essa nova manobra custou-lhe o início da crise com as forças armadas, de sorte que “destituir o chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, o general Romeo Vázquez, que havia se negado a apoiar a logística para a consulta de junho, declarada ilegal pelo Congresso. Após a demissão de Vázquez, o ministro da Defesa, Ángel Edmundo Orellana, e outros comandantes militares também renunciaram. Porém a remoção de Vázquez ordenada por Zelaya foi revertida pela Suprema Corte de Justiça, que aceitou dois recursos contra a decisão do presidente. O Exército mobilizou na sexta-feira anterior à consulta efetivos para prevenir possíveis distúrbios por parte de organizações populares e indígenas, que apoiam Zelaya.”

Ao recusar-se a cumprir uma decisão da Suprema Corte (a reintegração do general Vásquez), Zelaya abriu espaço para uma intervenção militar. À véspera da controvertida consulta pública, “os militares prenderam Zelaya no palácio presidencial. Ele foi levado para uma base aérea e depois trasladado à Costa Rica. Carros blindados e tanques saíram às ruas e aviões militares sobrevoavam a capital, Tegucigalpa.” Desde então, os habitantes do pequeno país da América Central não têm tido sossego. Em abril de 2015, julgando uma ação de 16 deputados e uma outra do ex-presidente Rafael Callejas, a Suprema Corte decidiu pela “inaplicabilidade” do artigo 239 da constituição, que proibia a reeleição de presidente desde o ano de 1982. Suprema ironia! Essa foi a principal razão para o golpe militar de pouco mais de cinco anos antes. Os índices econômicos até que não são desesperadores (desemprego de 6,7% e inflação em torno de 4,5% ao ano), mas a violência com raízes diversas (captura do Estado pela elite política, concentração de renda, perseguições ideológicas, vinganças familiares, assalto a mão armada, sequestro, extorsões etc) foi profundamente ampliada por “Las maras”, violentas gangues que assolam o país.

Neste exato momento, entre 4500 e 5000 pessoas (dos quais cerca de 3000 hondurenhos) vagueiam entre a fronteira da Guatemala com o México, e no próprio território mexicano. São homens, mulheres e crianças que buscam a fronteira dos Estados Unidos, em busca de paz e de dias melhores. Terão que enfrentar uma jornada, a pé, de mais ou menos 2500 quilômetros até a fronteira do estado do Texas ou, se preferirem, 4000 quilômetros até o estado da Califórnia. Mas esse não é o maior empecilho. Ali encontrarão a polícia de Donald Trump, que em mensagem recente no twitter, escreveu: “Todos os esforços estão sendo feitos para impedir que o ataque de estrangeiros ilegais atravesse a fronteira sul. As pessoas têm que solicitar asilo primeiro no México e, se elas não o fizerem, os EUA as recusarão. Os tribunais estão pedindo aos EUA que façam coisas que não são possíveis!”


Tudo indica que o sonho de one world no border está cada vez mais distante...