quarta-feira, 3 de julho de 2024

A Burrinha Sabonete


Nos idos dos anos 50, cedo de uma manhã qualquer, o delegado da pequena cidade de Belaventura estava em sua casa tomando vagarosamente uma xícara de café. O delegado era um civil, membro de família tradicional da cidade e representante do Partido Político que estava no poder em nível estadual.

Aquele momento de paz foi rompido por batidas apressadas na porta. Sem sequer esperar um convite para entrar, seu compadre Zé Lotero, um homem suado e de expressão aflita, adentrou a sala. Ele estava visivelmente perturbado, os olhos arregalados e a respiração ofegante. Sem nenhuma formalidade, começou a falar:

— Cumpade, aquele nêgo rim dos Amaro roubou minha fia Fransquinha, sua afiada, onte de noite. Me dissero que tinham ido lá pro outro lado da serra. Cumpade, você acha que ele buliu em minha fia?

O delegado, um homem de meia-idade vestido com seu tradicional terno de linho branco, recostou-se na cadeira de balanço. Calmamente, tirou um cigarro do bolso do paletó, acendeu-o e deu uma longa tragada antes de responder.

— Cumpade, ele eu num sei não... — começou o delegado, soltando a fumaça devagar. — Mas um dia desses eu fui fazer uma diligência lá, e só na subida da serra eu comi minha burrinha Sabonete três vezes.

* Consta que a história é verdadeira e como a cidade e os personagens são conhecidos, resolvi escrever usando nomes fictícios para não ferir susceptibilidades.

sábado, 29 de junho de 2024

O Fórum Jurídico de Lisboa


O IDP - Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa com sede em Brasília, foi criado em 1998 pelo já Ministro do STF, Gilmar Mendes, em parceria com o hoje Procurador Geral da República, Paulo Gonet Branco. O Instituto oferece cursos presenciais e on-line de graduação, pós-graduação e extensão em diversas áreas.

Na última semana do mês de junho, o IDP realizou, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, o Fórum Jurídico de Lisboa. Sobre o evento, a BBC Brasil escreveu: "A décima segunda edição do Fórum Jurídico de Lisboa terminou na última sexta-feira (28/6) com um saldo de mais de 300 palestrantes e 50 mesas de discussões, de acordo com a programação oficial. Mas com poucas respostas sobre o custo do evento, seu financiamento e os limites éticos de um encontro que reuniu, ao longo de três dias, a cúpula do Judiciário, da política e do empresariado brasileiro."

Em novembro de 2022, através da Operação Sofisma, a Polícia Federal abriu inquérito para apurar eventuais fraudes em licitações, evasão de divisas e lavagem de dinheiro que teriam sido cometidos pela Fundação Getúlio Vargas. No mesmo novembro, poucos dias depois, o Ministro Gilmar Mendes suspendeu essa operação sobre corrupção e fraude na FGV, ainda criticou a atuação da Justiça Federal no Rio de Janeiro, bem como o uso da delação do ex-governador Sérgio Cabral e as provas para embasar as buscas e apreensões da operação.

A convite e patrocínio da FGV, o Diretor Geral da Polícia Federal viajou para Lisboa para participar do Fórum. Passagens e hospedagem da autoridade máxima da PF teriam sido pagas pela FGV. Sobre o convite da FGV ao chefe da Polícia Federal para participação do evento, a assessoria da PF afirmou que a organização do Fórum Jurídico de Lisboa foi responsável por custear passagens e hospedagem. Além disso, segundo o jornal Folha de S.Paulo, Andrei foi acompanhado por seguranças e recebeu diárias do governo federal.

Evidente que não posso e nem devo pôr em dúvida a honestidade de propósitos desse emaranhado de acontecimentos envolvendo IDP, FGV e PF. O que surpreende é a especulação de parte da imprensa sobre o evento. Do portal "O Antagonista", extraimos: "O lobby em torno do 'Gilmarpaloosa'. Coquetéis em Lisboa reúnem ministros do STF e do STJ, parlamentares e donos de grandes empresas com interesses nos tribunais superiores e no Congresso". Ou do Terra Brasil: "O colunista do Terra em Brasília, Guilherme Mazieiro, participou do Terra Agora desta quinta-feira, 27, e explicou como funciona o fórum promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, em Lisboa. 'Prato cheio para lobistas', diz colunista sobre 'Gilmarpalooza' promovido pelo ministro do STF".

"A falta de transparência em relação aos custos, aliada ao fato de o evento abarcar empresários ou representantes de empresas que, em alguns casos, estão com processos tramitando no STF, suscitaram um debate sobre a criação de um código de conduta para a corte, além de questionamentos sobre quem poderia questionar a instância máxima brasileira", registra a BBC Brasil.

E assim o Brasil segue seu ritmo!

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Uma avaliação do debate Biden X Trump


No debate entre os candidatos à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump e Joe Biden, o desempenho de ambos os candidatos pode ser analisado sob diversas perspectivas.

Donald Trump, com sua abordagem combativa e direta, conseguiu explorar bem o tema da imigração, um assunto sensível e polarizador, especialmente entre os eleitores indecisos e conservadores. Ele acusou Biden de ser leniente e permissivo com a imigração ilegal, o que poderia potencialmente enfraquecer a segurança e a economia dos Estados Unidos. Essa linha de ataque foi bem recebida por seu eleitorado base e também pode ter ressoado com eleitores preocupados com a segurança nacional e a integridade das fronteiras.

Além disso, Trump tentou capitalizar sua administração econômica, argumentando que suas políticas econômicas antes da pandemia tinham levado a uma economia robusta, com baixos níveis de desemprego e crescimento vigoroso. Ele usou esses pontos para contrastar com a administração de Biden, tentando pintar um quadro de incompetência e má gestão por parte de seu adversário. Conseguiu com êxito responsabilizar Biden pela enorme despesa americana nas guerras em andamento, principalmente na ajuda á Ucrânia.

No entanto, Trump também tinha questões delicadas a enfrentar, como seus problemas legais e os eventos de 6 de janeiro, quando uma multidão de seus apoiadores invadiu o Capitólio. Apesar disso, ele conseguiu sair relativamente ileso dessas questões durante o debate, desviando habilmente ou minimizando essas controvérsias e mantendo o foco nos ataques a Biden.

Por outro lado, Joe Biden teve um desempenho que pode ser descrito como aquém das expectativas. Desde o início, sua postura e tom de voz foram vistos como pouco enérgicos, o que pode ter dado a impressão de falta de entusiasmo e vigor. Essa percepção foi exacerbada por momentos em que Biden vacilou na condução de seus argumentos, falhando em articular claramente suas ideias e respostas.

Biden também não conseguiu explorar eficazmente as fragilidades de Trump, como suas questões legais e a polêmica em torno do 6 de janeiro. Esses eram pontos onde ele poderia ter pressionado mais, mas optou por uma abordagem mais defensiva. Em várias ocasiões, ele parecia hesitante e tímido ao defender seu legado e as realizações de sua administração, perdendo a oportunidade de destacar suas conquistas e contrastá-las com as falhas de Trump.

Em resumo, o debate mostrou Trump em uma posição de ataque, explorando temas favoráveis e minimizando suas próprias vulnerabilidades, enquanto Biden apresentou um desempenho considerado fraco, sem a energia ou clareza necessárias para capturar a atenção e o apoio dos eleitores indecisos. Este contraste pode ter tido um impacto significativo na percepção dos eleitores sobre os dois candidatos e suas capacidades de liderança.

Confesso que se eu fosse um dos dirigentes do Partido Democrata nos Estados Unidos, eu estaria profundamente preocupado.

Hoje tem debate: Biden X Trump


O presidente Biden e o ex-presidente Donald Trump farão o primeiro debate presidencial das eleições de 5 de novembro, esta noite em Atlanta. O debate acontecerá nos estúdios da CNN e será moderado pelos jornalistas da rede, Jake Tapper e Dana Bash. O início está previsto para as 22h, horário de Brasília (9 p.m. ET), e transcorrerá por 90 minutos.

O debate rompe com a tradição de campanhas anteriores, ocorrendo meses antes do habitual e com um novo conjunto de regras com as quais ambos os candidatos concordaram, incluindo a proibição de audiência ao vivo. Os brasileiros poderemos assistir na CNN e na plataforma de streaming Max, anteriormente conhecida como HBO. Os espectadores não assinantes por cabo, podem assistir no site da CNN.

Biden e Trump são os únicos candidatos presidenciais qualificados para a fase de debate. O candidato independente Robert F. Kennedy Jr. não conseguiu atingir o limite, que exigia que os candidatos aparecessem com 15% ou mais em quatro pesquisas nacionais. O evento acontecerá sob regras diferentes de eleições passadas que ocorriam diante de um público ao vivo, muitas vezes em um espaço para eventos em um campus de faculdade ou universidade.

Além dos respectivos dramas jurídicos recentes de ambos os candidatos e a idade de Biden e sua capacidade de cumprir um segundo mandato, espera-se que os candidatos discutam o estado da economia e a política de imigração, uma vez que ambas são questões consistentemente importantes para os eleitores nas sondagens nacionais. Também é possível que os candidatos esclareçam suas posições relativas à política internacional, uma vez que os eleitores continuam divididos sobre se os EUA deveriam enviar ajuda militar à Ucrânia e a Israel nas suas respectivas guerras.

Trump e Biden debaterão pela segunda vez em 10 de setembro.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Eleições Americanas e Elon Musk


Elon Musk, frequentemente descrito como o cidadão privado mais poderoso dos Estados Unidos, parece estar prestes a lançar sua mais ousada e controversa aposta até hoje. Mais arriscado do que suas empreitadas na SpaceX, Tesla, ou suas iniciativas em inteligência artificial e neurotecnologia, Musk está supostamente preparando um ato de vingança massiva contra a campanha de reeleição do presidente Joe Biden. Essa ação, que poderia ser um discurso de apoio a Trump durante a Convenção Nacional do Partido Republicano em 18 de julho, pode ter implicações profundas para o futuro político dos Estados Unidos.

Para compreender o potencial impacto de Elon Musk nas eleições, é crucial reconhecer o vasto alcance de seu poder. Musk controla 3.395 satélites orbitando a Terra, mais do que os governos dos Estados Unidos e da China juntos. Além disso, ele tem desempenhado um papel vital na preservação da Primeira Emenda para milhões de americanos, desafiando governos considerados tirânicos (Austrália e Brasil, por exemplo) e enfrentando grandes empresas de mídia e tecnologia nos tribunais. Através da revolução robótica com seus robôs Optimus e sua influência no setor de energia com a Tesla, Musk se tornou um dos principais guardiões da informação na América do Norte.

A relação entre Elon Musk e o governo Biden tem sido marcada por tensões e conflitos. A administração Biden tem adotado uma postura combativa contra as empresas de Musk, promovendo uma agenda radical que Musk abertamente despreza. Esse contexto de antagonismo político fornece a base para a suposta vingança de Musk. Apesar de suas diferenças com Donald Trump ao longo dos anos, Musk parece acreditar que Trump é uma escolha melhor para os interesses do país mais poderoso do mundo e, consequentemente, para os seus próprios interesses empresariais.

A próxima eleição presidencial americana está se configurando menos como uma disputa para ganhar e mais como uma batalha para evitar a derrota. Os eleitores de Biden e de Trump estão profundamente polarizados, com fortes sentimentos de aversão pelo candidato oposto. Nesse cenário, a influência de Elon Musk pode ser um fator decisivo. Seu controle sobre a informação e sua capacidade de mobilizar recursos tecnológicos e midiáticos podem alterar drasticamente a dinâmica eleitoral.

Enquanto o mundo aguarda os desdobramentos dessa possível intervenção de Musk nas eleições, uma coisa é certa: seu envolvimento intensificará a já fervente arena política americana. Seja como um defensor da liberdade de expressão ou um magnata tecnológico com interesses pessoais em jogo, Elon Musk continua a ser uma figura central, capaz de moldar não apenas indústrias, mas também o futuro político de uma nação. E que nação!

Artigo de Fernando Schüler


Comentei com uma amiga jornalista que ia escrever sobre o caso do Filipe Martins. Ela foi rápida: ‘Não faz isso’, disse ela, com jeito querido. ‘Por quê?’, perguntei, já antevendo a resposta. ‘Porque esse treco de prisões e censura da ‘direita’ não tem jeito. É como aquela traição sobre a qual o casal não fala. Tem muita coisa errada, mas é melhor empurrar para debaixo do tapete.’ Achei criativo. É isso mesmo. Mas resolvi escrever. Talvez eu seja meio implicante. Ou seja o gosto pela filosofia. Na minha intuição, o país precisa tratar das coisas complicadas. E uma delas é esse ‘treco’ da prisão provisória e aparentemente infinita do Filipe Martins.

Ele era assessor do Bolsonaro e me lembro de uma imagem dele apertando a mão do Trump, no Salão Oval. Sua prisão já vai para mais de quatro meses.

O mandado dizia que sua localização era ‘incerta’, que poderia ter havido ‘burla do sistema migratório’, e por isso seria ‘necessária a decretação da prisão cautelar’. Dizia também que ele constou na lista de passageiros daquele voo do Bolsonaro para Orlando, no finalzinho de seu governo. O que ‘poderia indicar que tenha se evadido do país’, para fugir da Justiça. Tudo 100% errado.

O sujeito não fugiu, a localização não era incerta, morava com a namorada, em Ponta Grossa. E já provou inúmeras vezes que não ‘se evadiu’. Para encurtar a conversa, sua prisão é um completo nonsense. O absurdo a fogo brando, com o qual há muito parece que já fomos nos acostumando.

No Brasil de hoje é assim. Viramos colecionadores de absurdos.

Um que está na minha lista dos top 10 é o da Debora. Ela estava lá, nas invasões do 8 de Janeiro. Cabeleireira de São Caetano, mãe de dois guris de 6 e 9 anos. No dia do ‘golpe’ escreveu ‘perdeu, mané’, com batom vermelho, naquela estátua de pedra da Justiça, na frente do STF. Andava com a frase debochada do ministro Barroso na cabeça, foi lá e escreveu. O batom acabou saindo com um pouco de detergente, mas sua imagem está lá. Foi um repórter que flagrou. Ela ali sentada, calmamente, rabiscando a frase terrível, com um ‘sorriso no rosto’, como leio numa reportagem. Achei que tinha lido ‘sorriso golpista’, mas foi imaginação. O fato é que ela está presa há mais de um ano. E pelo jeito será condenada a mais uns quinze ou dezessete. Nossa Suprema Corte acha que ela estava dando um ‘golpe de Estado’ naquele domingo. É possível.

Quem sabe ela poderia realmente ter tomado o poder, se não tivesse perdido tempo com a maldita frase. Cresci com as imagens do golpe de 1964, dos tanques descendo a Presidente Vargas, no Rio, as baionetas, a tropa na rua. E agora aquele batom? Algum plano? Algum apoio militar? Alguma arminha, mesmo que de brinquedo? Esquece. Isso é ou não é um “experimento popperiano”, me diz um conhecido. Não é possível provar ou refutar coisa nenhuma. Há uma tese, produzida em última instância e apoio no mundo da opinião. É o que basta, no Brasil de hoje. A maior chance é que os guris cresçam sem Debora. No último Natal o mais novo foi para o canto da sala e chorou. Disse que, sem a mãe, nada daquilo tinha graça. Todos choraram. E o Natal se foi. Perdeu, manezinho. A frase nua e crua que faltou alguém escrever naquela estátua.

Dói um pouco mergulhar nessas histórias. Mas é necessário. É o jeito de entender o que se passa no país, um pouco abaixo da pele retórica das redes, do bate-boca político. Reconheço que há uma impertinência nisso.

Tempos atrás me perguntaram por que presto tanto atenção a certos ‘detalhes’. Onde está o crime, qual a acusação, onde está escrito na lei tal e tal coisa. Fiquei pensando nisso. No fim me dei conta que é exatamente dessa intransigência em relação a direitos individuais que é feita a tradição liberal. Mas isso não respondia à pergunta.

Há um lado pessoal nisso tudo. Por alguma razão, fui aprendendo na vida a desconfiar da narrativa política. Qualquer narrativa. E criando também um enorme asco pelo abuso de poder. E é com isso que estamos lidando no Brasil.

Se a censura prévia não existe na lei brasileira, mas uma autoridade empurra goela abaixo a censura prévia, o que exatamente isso significa?

Se alguém é preso, por razões inexistentes, no mundo real, estamos ou não falando de abuso de poder?

Tempos atrás também me perguntaram se fazia sentido questionar decisões judiciais.

Na visão do meu interlocutor, não fazia.

Se um ministro manda prender ou manda soltar, dizia ele, ou manda qualquer coisa, é a regra do jogo. Ponto. O raciocínio tinha lá seu apelo, mas era falso como uma nota de 3 reais.

Uma República se define precisamente pelo fato de que ninguém, nem mesmo a mais alta autoridade, está acima das leis e da Constituição. De modo que decisões judiciais estão aí para serem obedecidas. Mas jamais para pedir que os cidadãos deixem de pensar com a própria cabeça.

O gosto pela impertinência vem da história. Voltaire talvez tenha sido o grande mestre, e suas histórias sempre me cativaram. Uma delas é a de Jean Calas, o comerciante de Toulouse queimado na fogueira, em 1762, acusado de matar o filho por motivos de religião.

Voltaire agarrou aquele caso com as unhas. Escreveu, apelou a Paris, aos tribunais, ao rei. E virou o jogo.

A outra história é ainda mais reveladora. Sua defesa do jovem Jean-François de La Barre, acusado de profanar um crucifixo e debochar da religião. La Barre era um tipo iconoclasta, e se recusou a tirar o chapéu numa procissão, e isso era coisa pesada à época. Possivelmente bem mais do que pintar uma estátua com batom, em Brasília. La Barre terminou na fogueira, como Calas. Foi o último francês queimado por blasfêmia. Voltaire mergulhou naquela história, quis saber da culpa, das provas, do trabalho dos juízes. E novamente virou o jogo. Note-se que ele nem sequer conhecia La Barre ou Calas. Sabia apenas que aquilo não era justo, que os juízes eram enviesados, que o devido processo tinha sido atropelado e a excitação religiosa havia ‘tomado o lugar da prova’. E que aquilo ofendia não apenas a memória daqueles dois franceses manés, mas a todos os franceses, que viviam sob as mesmas leis. Mais do que isso, ofendia a própria ideia de justiça. E que por isso era preciso ser intransigente.

Nossa época é muito diferente daquela de Voltaire. O fanatismo religioso foi substituído pela paixão política, e somos mais civilizados. Não queimamos ninguém na fogueira, o que nos dá uma certa vantagem. Mas nosso rastro de pequenos e grandes abusos já vai longe. Na França de La Barre e Calas ainda havia os tribunais, em Paris, e depois o rei, a quem se podia recorrer. E por fim havia a letra de Voltaire. Ele e sua impertinência. No Brasil não temos nada disso. O que temos é um país que vai se acostumando. Empurrando certas histórias para debaixo de um imenso tapete. Até quando? Não faço a menor ideia.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

domingo, 23 de junho de 2024

A Imparcialidade e a Justiça


Blaise Pascal foi um matemático, escritor, físico, inventor, filósofo e teólogo francês. A citação “Nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso”, oferece uma visão clara sobre a falibilidade humana e os limites da imparcialidade.

A imparcialidade é um pilar fundamental da justiça. O sistema judicial moderno é construído sobre a premissa de que julgamentos devem ser feitos sem preconceitos ou interesses pessoais. A afirmação de Pascal ressalta a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade, de alcançar uma verdadeira imparcialidade quando alguém está julgando a si mesmo.Os seres humanos somos, por natureza, movidos a emoções e interesses pessoais que indubitavelmente influenciam nossas decisões.

A natureza humana é intrinsecamente subjetiva. Ela é inevitavelmente influenciada por suas próprias experiências, emoções e desejos. Quando se trata de julgar a si mesmo, esses fatores se intensificam. O indivíduo tem uma tendência natural a se ver de forma mais favorável, a justificar suas ações e a minimizar seus erros.

Na prática, a sabedoria de Pascal é refletida em diversos aspectos da vida cotidiana e nos sistemas de governança. Por exemplo, em conflitos de interesse, é desejável que indivíduos em posições de poder se abstenham de decisões que possam beneficiá-los diretamente, assegurando uma avaliação mais justa e equilibrada.

A citação de Pascal também nos convida a refletir sobre a ética pessoal. Reconhecer nossas próprias limitações e admitir que não somos os melhores juízes de nossas próprias ações. Conduz-nos a uma verdade universal sobre a condição humana: nossa capacidade limitada de julgar a nós mesmos de maneira justa e imparcial. Essa compreensão não só é fundamental para a justiça e a ética, mas também um imperativo a buscar a objetividade e a humildade em nossas vidas pessoais e profissionais.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

A extração do embrião


Você que está defendendo a extração de um embrião com 5 meses e meio de concepção, e é cristão, não combina, nao casa, não dá "match". Se você é um humanista que luta pela proteção à vida dos menos favorecidos, não combina, nao casa, não dá "match". Não tem nada a ver com moralidade e religião. É humanismo mesmo.

Você sabia que aproximadamente 5% dos nascimentos são prematuros com menos de 6 meses? Para um feto com menos de seis meses de gestação (ou seja, antes de 24 semanas), alguns dos principais sinais vitais e marcos de desenvolvimento são os seguintes:

O coração do embrião começa a bater por volta de 5 a 6 semanas de gestação. Movimentos espontâneos podem começar já por volta de 7 a 8 semanas de gestação. Movimentos respiratórios rítmicos podem ser observados a partir de cerca de 20 semanas. O sistema nervoso central começa a se formar nas primeiras semanas da gestação. Atividade cerebral pode ser detectada por eletroencefalograma (EEG) a partir de aproximadamente 20 semanas. Reflexos primitivos, como o reflexo de sucção e de preensão, começam a se desenvolver antes das 24 semanas. O embrião se desenvolve rapidamente nas primeiras semanas. Até as 12 semanas, os principais órgãos e sistemas corporais estão formados.

Entre 12 e 20 semanas, o feto começa a ganhar uma aparência mais humana, com desenvolvimento dos membros, rosto, e órgãos internos. Portanto, não é questão religiosa nem moral nem legal, mas humanista, ciência pura. Se a mulher pode extrair um embrião do seu corpo com essas características, é justo que as pessoas que defendem isso, também defendam a pena de morte para criminosos "indesejados" pelo organismo social!

Em tempo: usei a expressão "extração do embrião" para não chocar sua sensibilidade, mas o correto mesmo é "assassinato da criança"!

domingo, 16 de junho de 2024

Tretas & Mutretas no País da Ratolândia


Era uma vez um país chamado Ratolândia. Governado sob um sistema presidencialista e possuindo uma Suprema Corte influente, Ratolândia era um lugar onde os ratos comuns viviam sob a sombra de complexas tretas e mutretas que favoreciam os ratos gordos – a elite roedora.

Em Ratolândia, o Presidente era o chefe do Executivo, eleito para liderar e tomar as decisões mais importantes para o país. No entanto, a real dinâmica do poder era muito mais complicada. A Assembleia dos Ratos, composta por representantes eleitos, e a Suprema Corte, uma entidade poderosa e reconhecidamente apoiadora dos ratos gordos, jogavam um papel crucial na manutenção do status quo.

O Presidente Ratuis foi eleito prometendo mudanças e combate à corrupção. Contudo, uma vez no poder, ele rapidamente percebeu que as tretas políticas e as alianças com os ratos gordos eram necessárias para manter seu cargo. A Assembleia dos Ratos, dominada por interesses econômicos e políticos dos ratos gordos, controlava grande parte da agenda legislativa.

Para aprovar qualquer medida, Ratuis tinha que negociar com líderes influentes da Assembleia, muitas vezes cedendo a pressões e aceitando compromissos que beneficiavam apenas a elite roedora. Tretas políticas eram frequentes, com traições e conspirações que deixavam a governança instável e repleta de escândalos.

A Suprema Corte de Ratolândia, teoricamente independente, era conhecida por suas decisões que invariavelmente favoreciam os ratos gordos. Composta por juízes que eram frequentemente indicados por presidentes em troca de favores e lealdade, a Corte servia como um baluarte de proteção para os interesses da elite.

Casos de corrupção que envolviam ratos gordos eram frequentemente arquivados ou recebiam sentenças leves. Qualquer tentativa de reforma judicial ou investigação profunda sobre os ratos gordos era rapidamente bloqueada, ou desacreditada pela Suprema Corte.

Enquanto as tretas políticas dominavam o cenário do poder, as mutretas econômicas e sociais continuavam a corroer a base de Ratolândia. Os ratos gordos, através de suas conexões e influência, desviavam recursos públicos para seus próprios interesses. Projetos de infraestrutura eram superfaturados, contratos governamentais eram concedidos sem licitação, e os fundos destinados ao bem-estar dos ratos comuns eram sistematicamente esvaziados.

Os ratos comuns viviam em condições cada vez mais precárias. A promessa de prosperidade e igualdade parecia uma piada cruel enquanto a desigualdade aumentava. As mutretas dos ratos gordos não eram apenas toleradas, mas muitas vezes facilitadas pela legislação e pela falta de fiscalização efetiva.

A insatisfação entre os ratos comuns crescia a cada dia. Liderados por um rato determinado chamado Ratair, eles começaram a se organizar para exigir mudanças reais. Ratair denunciava as tretas e mutretas, convocando manifestações e pressionando por reformas.

Ratair e seu movimento ganharam força, utilizando redes subterrâneas de comunicação para mobilizar os ratos comuns. Eles exigiam transparência, justiça e uma distribuição mais equitativa dos recursos de Ratolândia. As tensões aumentavam, e as manifestações se tornavam mais frequentes e numerosas.

Diante da pressão crescente, o Presidente Ratuis se viu em uma encruzilhada. Ele poderia continuar a proteger os ratos gordos e arriscar uma revolta maior, ou poderia apoiar as demandas dos ratos comuns e enfrentar a resistência da Assembleia dos Ratos e da Suprema Corte.

Optando pela primeira alternativa, Ratuis recebeu a benção da Suprema Corte e o apoio da Assembleia dos Ratos.

Apesar da resistência, a pressão popular liderada por Ratair forçou o governo a ceder. Novas eleições foram convocadas, e muitos dos ratos gordos foram substituídos por representantes mais alinhados com os interesses dos ratos comuns. A Suprema Corte, agora sob escrutínio público, começou a sofrer mudanças estruturais para garantir mais independência e justiça.

Ratolândia começou a mudar lentamente. As tretas e mutretas ainda existiam, mas a vigilância e a participação ativa dos ratos comuns tornaram mais difícil para a elite manter seus privilégios injustos. A sociedade de Ratolândia se movia, mesmo que lentamente, rumo a um futuro mais justo e transparente.

A história de Ratolândia é um reflexo das complexidades e desafios que muitas sociedades enfrentam. Tretas e mutretas são difíceis de erradicar, mas a união e a determinação do povo podem provocar mudanças significativas. Em Ratolândia, a luta dos ratos comuns mostrou que é possível caminhar para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, mesmo diante de um sistema profundamente enraizado em privilégios e corrupção.

Evidentemente a história da Ratolândia é pura ficção e qualquer eventual semelhança com algum país contemporâneo, é mera coincidência.

terça-feira, 4 de junho de 2024

O tumulto no Aeroporto de Roma


Em julho de 2023 o Ministro Alexandre de Moraes estava na Itália para fazer uma palestra na Universidade de Siena. No dia 14 daquele mês, voltando com sua família, o Ministro foi hostilizado segundo várias testemunhas, por um grande número de brasileiros presentes no Aeroporto Internacional de Roma — Leonardo da Vinci, também conhecido como Aeroporto Fiumicino.

Ao chegar ao Brasil no dia seguinte, 15 de julho, foi determinado à Polícia Federal que identificasse os agressores e abrisse inquérito para investigar o caso. A mídia nacional divulgou que o filho de Alexandre de Moraes que o acompanhava na viagem, chegou a ser agredido por um dos envolvidos.

A Polícia Federal identificou apenas três "agressores" que seriam uma mulher Andréia Mantovani e dois homens: o empresário do interior de São Paulo Roberto Mantovani Filho e Alex Zanatta, todos membros da mesma família. Os acusados poderiam responder por agressão, ameaça, injúria e difamação.

No dia 18 de julho, 4 dias após o episódio do Aeroporto, a Procuradoria-Geral da República enviou documento ao STF afirmando que "as agressões sofridas pelo ministro Alexandre de Moraes no aeroporto de Roma pode configurar grave ameaça ao livre exercício das funções constitucionais". A manifestação da PGR embasou a decisão da ministra Rosa Weber, então Presidente do STF, autorizando a realização de buscas e apreensões na casa da família acusada.

Os três acusados também tiveram que depor na PF. “O que ocorre é que no local havia de 10 a 15 pessoas na entrada daquela sala VIP e, sim, havia algumas pessoas se manifestando relativamente ao ministro. Mas ela, pessoalmente, nega em absoluto qualquer ofensa", diz Ralph Tórtima Stettinger Filho, advogado de Roberto e de Andréia Montovani.

O inquérito arrastou-se durante alguns meses, na espera pelas imagens de câmera de segurança a serem enviadas ao Brasil pelas autoridades italianas. Recebidas as imagens, o relator do inquérito, Ministro Dias Toffoli, decidiu mantê-las sob sigilo.

De posse das imagens, a Polícia Federal emitiu relatório afirmando que Roberto Mantovani Filho, um dos investigados, “aparentemente” bateu nos óculos de Alexandre Barci de Moraes, advogado e filho do ministro. As autoridades italianas têm uma versão diferente sobre o episódio, em relatório que acompanhou o envio das imagens. Afirmam que, pela análise do vídeo, Mantovani encostou “levemente” nos óculos do advogado durante uma troca de agressões mútuas.

“Às 18h39, repara-se o único contato físico digno de nota, ocorrido entre Roberto Mantovani e o filho da personalidade (Alexandre de Moraes). Nessa circunstância, esse último, provavelmente exasperado pelas agressões verbais recebidas, estendia o membro superior esquerdo, passando bem perto da nuca do antagonista, que, em simultâneo, fazia a mesma ação utilizando o braço direito, impactando levemente os óculos de Alexandre Barci de Moraes”, diz o documento da polícia italiana.

Em 9 de fevereiro de 2024, o Delegado da Polícia Federal Hiroshi de Araújo Sakaki (responsável pelo caso) concluiu as investigações sem indiciar nenhum dos envolvidos e enviou ao Ministro Dias Toffoli (relator do processo no STF) o seu relatório final.

Em 23 de fevereiro, julgando recursos da defesa dos acusados e da própria PGR, o Plenário Virtual do STF formou maioria para manter sob sigilo o vídeo das câmeras de segurança do aeroporto de Roma que mostram supostas agressões sofridas por Alexandre de Moraes e seus familiares.

Em 21 de março último, quando a Polícia Federal já havia dado o caso como encerrado e apresentado as conclusões do inquérito, o Ministro Toffoli determinou a “complementação” da investigação, o que, na prática reabre a fase de diligências. Nessa oportunidade, o inquérito foi assumido pelo Delegado Thiago Severo de Rezende.

Ontem, segunda-feira, 03 de junho de 2024, a Polícia Federal numa verdadeira cambalhota processual, voltou atrás e decidiu indiciar a família que supostamente ofendeu o ministro Alexandre de Moraes em 2023 no Aeroporto de Roma.

Eis a íntegra da nota divulgada pela defesa dos indiciados nesta 2ª feira, 03 de junho:

“Causa perplexidade e enorme surpresa a nova manifestação da Polícia Federal, agora pelo indiciamento dos investigados. Recorde-se que ela nasce da mesma Polícia Federal que, não faz muito, opinou expressamente pelo arquivamento das investigações! Destaque-se: essa drástica mudança acontece sem que nada de novo, nenhuma outra prova, tenha sido juntada aos autos. Este inquérito, que já havia sido relatado, lamentavelmente tem se revelado um verdadeiro 'vale tudo'. Nele só não vale o respeito aos princípios mais sagrados do Direito. Lamentável sob todos os títulos!”.

É óbvio que a nomeação do Delegado responsável pela 2ª parte do inquérito, para exercer o cargo de oficial de ligação junto à Europol (Agência da União Europeia para a Cooperação Policial), em Haia, na Holanda, por um período de 2 anos, nada tem a ver com sua decisão de indiciar os acusados de agredir o Ministro Alexandre de Moraes e seus familiares. A indicação de indiciamento foi absolutamente técnica e calcada na complementação da investigação determinada pelo Ministro Dias Toffoli

Thiago Rezende foi designado para a função na Europol menos de 3 semanas antes de decidir indiciar a família do empresário que xingou o ministro em Roma.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O Silêncio das Ruas e os Estertores da Madrugada


A noite desce sobre a cidade, envolta em um manto de quietude e sombras. Nas sombras, a cidade assume uma aura de mistério, seus edifícios se erguem como gigantes adormecidos, testemunhas silenciosas de histórias que se desenrolam sob o luar. As luzes da cidade cintilam como estrelas em miniatura, salpicando a escuridão com pontos de brilho tênue.

No coração da noite, a madrugada se aproxima, anunciando sua chegada com os estertores da aurora. O céu se tinge de tons de azul e púrpura, enquanto as primeiras luzes da manhã começam a despontar no horizonte. As ruas, antes vazias e silenciosas, começam a despertar com o anúncio do novo dia.

Mas, antes que a cidade se entregue completamente ao ritmo frenético do dia, há um momento mágico, um instante de transição entre a noite e o dia, quando o silêncio reina absoluto. É nesse momento que a cidade se revela em toda sua beleza e fragilidade, convidando-nos a refletir sobre a efemeridade da vida e a vastidão do universo.

O silêncio das ruas desenha-se na ausência de vozes e passos. É quando os edifícios, monumentos e árvores parecem sussurrar segredos uns aos outros. As ruas, normalmente cheias de movimento e agitação, agora são um palco vazio, esperando que algo aconteça.

A madrugada é um momento de transição. É quando o dia e a noite se encontram, dançando em uma coreografia silenciosa. Os estertores da madrugada são os últimos suspiros da noite, os momentos finais antes do amanhecer. Nessa hora, os bares fecham, e os últimos boêmios saem cambaleando pelas calçadas. Os pássaros começam a ensaiar seus cantos, como músicos afinando seus instrumentos. Os primeiros raios de sol espreitam timidamente, pintando o céu de tons pastéis.

O silêncio das ruas e os estertores da madrugada nos convidam a refletir sobre nossas próprias vidas. O que estamos fazendo aqui? O que nos move? Quais são nossos medos, inquietações e desejos? À medida que a cidade dorme, nossos pensamentos ganham asas. Talvez seja nesse silêncio que encontramos respostas para perguntas que nem sabíamos que tínhamos. Talvez seja nesses estertores que descobrimos que a vida é uma dança delicada entre o visível e o invisível, o palpável e o intangível.

Portanto, quando a madrugada chegar, abra a janela e escute. Escute o silêncio das ruas e os estertores que ecoam no ar. E quem sabe, talvez você encontre algo que estava perdido — ou algo que nunca soube que estava lá.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O crime compensa?

Valmir Pontes Filho

Abracei a carreira jurídica repleto de crenças e esperanças, a adotar para mim o modelo de conduta moral do meu pai e sem jamais a imaginar que a frustração me viria, mais tarde, de modo avassalador. Minha mãe, de começo, queria que eu entrasse na carreira militar... não passaria de soldado raso, imagino!

Cometi erros na relação profissional com certas pessoas e deles me arrependo com absoluta sinceridade. Já o que sofri de ingratidões, perdoei do fundo da minh’alma, já que o outro caminho me levaria a querer “matar” os que me magoaram tomando, eu mesmo, veneno em doses diárias. Pai, afasta de mim este cálice!

Lecionei Direito por mais de 40 anos, com paixão e denodo, para ver, afinal, tal construção jurídica humana – composta de princípios e normas – ser derruída por completo, carcomida pela ignorância, má-fé, interesses escusos e por uma ideologia que põe por terra todos os valores cristãos caros a uma sociedade civilizada. Vitimadas restaram a liberdade – em todos os sentidos que ela possa ter – a decência, a fraternidade e a caridade humanas, o sentido de retidão, proceder ético e respeito à família e à Pátria.

Isto tudo pela ação (ou omissão) de políticos desavergonhados e, pior ainda, de uma “corte suprema” que não merece respeito ou mesmo comiseração. Pois atua com consciência plena dos abjetos propósitos malsãos e perversos que um tal de “sistema” a todos impõe invencível!

Mesmo sem ser especialista no assunto, ouso afirmar que o nosso arcabouço jurídico penal/penitenciário é simplesmente trágico. A cadeia, para os criminosos condenados (respeitados a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal), serve para punir os contraventores, para fazê-los entender que o crime NÃO COMPENSA. A “ressocialização”, quando possível (pois existem os irrecuperáveis, lamentavelmente), que se dê APÓS o cumprimento integral da pena (que já deve ser variada segundo o delito cometido).

Particularmente, não sou nada simpático à dita “progressão de regime”, muito menos às “saidinhas”, que mais servem para que os seus beneficiários (que, ao invés de serem obrigados a trabalhar para seu sustento, recebem uma abominável “bolsa presidiário) saiam a cometer novos crimes. Afinal, pergunto, ao optarem essas pessoas pelo banditismo, não pensam em suas esposas, maridos e filhos, a quem deveriam, honestamente, prover a subsistência? Os bandidos não são “vítimas da sociedade”, mas voluntariamente de si mesmos, posto dotados do livre arbítrio. Até uma criança sabe, desde pequena, discernir entre o que é “certo” e “errado”! Ainda bem que o Congresso, finalmente, está em bom caminho nesse setor.

Na origem de tudo de ruim que estamos a viver está o senso de IMPUNIDADE! Sem o adequado e eficaz combate os malfeitores se multiplicam, seja a praticarem delitos “menores” (como os de furto e roubo à mão armada), como os mais graves, de lesões corporais, homicídio, sequestros etc. Considero um dos mais graves – hediondos até – o de corrupção, já que por meio dele milhares, senão milhões, experimentam a pobreza, a falta de saúde e de educação. Senão a fome, simplesmente!

Mas os valores estão invertidos. Como muito bem assinalou o meu honrado Professor Adriano Pinto: “... o ministro Dias Toffoli anulou toda a apuração e os processos da Operação Lava Jato ‘praticados em desfavor’ de Marcelo Odebrecht. No mesmo dia, o ministro Edson Fachin arquivou, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), os inquéritos que investigavam o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o ex-senador Romero Jucá (MDB-RR) a partir da delação de executivos da antiga Odebrecht, atual Novonor. Também caiu mais uma condenação do ex-ministro José Dirceu”. E conclui, com razão, que tudo isto ocorre “... sob o silêncio obsequioso da OAB, das academias jurídicas e da imprensa subvencionada por verbas públicas”.

Os policiais (civis e militares) são injustamente perseguidos e demonizados, sendo de observar que a câmeras que eventualmente portem em suas vestes hão de obedecer à normas de CADA ESTADO, em respeito ao princípio federativo! E em favor da próprio organismo policial. A campanha insidiosa contra a posse de armas por cidadãos de bem, fiéis cumpridores de seus deveres, é brutal… mas NENHUMA é realizada para apreender o poderoso armamento (de guerra, inclusive) em poder dos biltres que formam e comandam gangues pelo Brasil afora. O Exército é competente para fazer cumprir as “GLOs”, mas não para fiscalizar os “CACs”, cujos praticantes passam por rigorosos exames físicos e mentais? Simplesmente não consigo entender.

Também me causa embaraço a “narrativa” de que os funcionários públicos, notadamente os aposentados, são os culpados de tudo de ruim na economia. Eu trabalhei muito, durante anos a fio, após aprovado em rigoroso concurso público. Hoje, aposentado, ainda contribuo para a previdência... de certo para receber algum benefício no Plano Espiritual (para onde todos vamos, enfim). Sou culpado do quê, afinal?

Desejou-se, por lei (inacreditavelmente aprovada) criar o “crime de fake news”, apenando-o até com prisão. Vale a pena transcrever a seguinte e marcante assertiva: “ ‘Notícia falsa’ é uma explicação pouco honesta para opinião discordante. Na Idade Média, a ‘heresia’ era a versão corrente das ideias condenadas pelos dogmas da Igreja. Pensar diferente ofendia a fé: o corretivo mais indicado era a fogueira para crestar os pecados dos ímpios ou a guilhotina para separar as cabeças recalcitrantes do corpo tomado pelo pecado. (Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-reitor da Universidade Federal do Ceará-UFC) Por obra e graça dos lúcidos que (ainda) existem lá, o Parlamento manteve o veto do (saudoso) ex-Presidente ao malsinado dispositivo.

Preciso, agora na minha velhice (Deus me concedeu uma “prorrogação”, risos), ter LIBERDADE... o direito de NÃO VIVER COM MEDO... mas este, desgraçadamente, não me larga, notadamente quando olho para uma ilustre autoridade judicial, que me faz lembrar da assombrosa figura criada pela (esquisita) teoria de Lombroso.

Continuarei com o meu LIVRE PENSAR, de qualquer modo... que o Criador me proteja!

domingo, 26 de maio de 2024

Confesso que votei


Não conheço o Senador Eduardo Girão pessoalmente. Não havia nenhuma razão objetiva para sufragar seu nome ("sufragar seu nome" é bom demais!) para o Senado na eleicão de 2018. Eu o fiz, menos por acreditar que ele seria um bom representante do Estado naquela Casa Legislativa, mais para protestar contra as alternativas. Para minha surpresa, "saiu melhor do que a encomenda". Grata surpresa!

A eleição de 2018 foi marcada por um cenário político conturbado no Brasil. Escândalos de corrupção, descontentamento popular e uma crescente polarização dividiram o país. Nesse contexto, muitos eleitores se encontraram em uma situação delicada ao escolher seus representantes, frequentemente votando mais em protesto contra as alternativas do que por convicção.

Foi nesse clima que decidi votar em Eduardo Girão. Naquele momento, minha escolha foi motivada mais pelo descontentamento com os demais candidatos do que por uma crença firme na capacidade de Girão. No entanto, o que inicialmente parecia ser uma escolha de protesto acabou se revelando uma decisão acertada.

Desde o início de seu mandato, Eduardo Girão se destacou por sua postura combativa. Demonstrou destemor ao enfrentar questões polêmicas e ao se posicionar contra os desvios de conduta em diversas instâncias do poder. A honestidade em suas análises e a transparência em suas ações políticas foram traços que rapidamente conquistaram a confiança de muitos eleitores, inclusive a minha.

Uma das áreas em que Girão tem se destacado é na luta contra a corrupção. Em um país onde a corrupção é um problema endêmico, ter um representante que não teme denunciar e combater esses desvios é um alívio para os cidadãos. Girão tem se posicionado firmemente contra práticas ilícitas, buscando sempre a responsabilização dos envolvidos e a implementação de medidas preventivas.

Sua atuação na CPI da Covid, por exemplo, foi marcada por uma postura incisiva na busca por respostas e por justiça. Em um momento crítico para o país, sua dedicação e seriedade foram essenciais para trazer à tona verdades que muitos preferiam esconder.

Além da luta contra a corrupção, Eduardo Girão tem se destacado pela defesa de valores e princípios que considera fundamentais para a sociedade brasileira. Sua atuação em defesa da vida, da família e da ética na política tem sido constante. Mesmo diante de críticas e pressões, ele não tem recuado em suas convicções, demonstrando uma firmeza rara no cenário político atual.

O que começou como um voto de protesto transformou-se em um reconhecimento do trabalho sério e comprometido de um senador que tem feito a diferença. Sua postura combativa, aliada à honestidade e à transparência, tem sido um exemplo para muitos e uma esperança de que é possível fazer política de forma ética e responsável.

Eduardo Girão não apenas está cumprindo seu papel, mas excede em muito o que se esperava, tornando-se uma verdadeira grata surpresa no Senado brasileiro.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Você sabe o que é Stasi?

Qualquer semelhança é mera coincidência


A Stasi, ou Ministério para a Segurança do Estado, foi o serviço de inteligência e agência de segurança da Alemanha Oriental (República Democrática Alemã — RDA) durante a Guerra Fria. Fundada em 1950, a Stasi tornou-se uma das agências de inteligência mais temidas e eficazes do mundo, principalmente devido à sua abrangente rede de espionagem e vigilância sobre a população da Alemanha Oriental.

O principal objetivo da Stasi era garantir a estabilidade do regime comunista na RDA, protegendo-o contra qualquer ameaça interna ou externa. Para atingir esse objetivo, a Stasi empregou uma variedade de táticas, incluindo vigilância, espionagem, interrogatórios e repressão política.

Uma das características mais distintivas da Stasi foi a sua extensa rede de informantes, conhecidos como "civis-informantes" ou "colaboradores não oficiais" (IMs). Estima-se que um em cada seis cidadãos da Alemanha Oriental tenha colaborado com a Stasi de alguma forma, seja voluntariamente ou sob coerção. Esses informantes estavam presentes em todos os aspectos da vida pública e privada, incluindo locais de trabalho, escolas, vizinhanças e até mesmo dentro de famílias.

A Stasi também desenvolveu métodos sofisticados de vigilância, incluindo escutas telefônicas, interceptação de correspondências, monitoramento de atividades bancárias e uso de tecnologia de escuta e câmeras escondidas. Eles mantinham registros detalhados sobre a vida de indivíduos considerados suspeitos ou dissidentes, criando dossiês extensos que incluíam informações pessoais, atividades políticas e até mesmo pensamentos íntimos.

Além disso, a Stasi empregava uma vasta rede de agentes infiltrados em organizações políticas, religiosas, culturais e até mesmo em grupos de oposição. Eles usavam esses agentes para coletar informações, desestabilizar movimentos dissidentes e prender líderes de oposição.

A eficácia da Stasi como serviço de inteligência era em parte devido ao seu controle total sobre a população e à sua habilidade de instilar medo e desconfiança entre os cidadãos. A ameaça constante de vigilância e repressão criava um clima de auto-censura e conformidade, tornando difícil para os dissidentes organizarem qualquer forma de resistência.

Após a queda do regime comunista na Alemanha Oriental em 1989, foram descobertos arquivos da Stasi revelando a extensão de suas atividades de espionagem e repressão. A revelação desses arquivos teve um impacto duradouro na sociedade alemã, levantando questões sobre privacidade, liberdade individual e os limites do poder estatal.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Dois saltos mortais triplos carpados



Da Constituição Federal:

1. "Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal:

I - processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade, bem como os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica nos crimes da mesma natureza conexos com aqueles;

Parágrafo único. Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis."

Pois bem, quando do processo da cassação da então Presidente Dilma Rousseff no Senado Federal, presidido pelo presidente do STF como previsto no Parágrafo único acima, os protagonistas Ricardo Lewandowski (presidiente do STF), Renan Calheiros (presidente do Senado Federal) e certamente alguns outros, em um acordo espúrio e inexplicável e flagrantemente inconstitucional, decidiram por separar a votação do impeachment da "inabilitação para o exercício de função pública" por oito anos.

Em seguida, o extinto PSL ingressou com ação no STF para anular aquela parte da decisão do Congresso Nacional. Pasmem! O guardião da Constituição, o STF, por maioria de votos dos seus ministros decidiu manter os direitos políticos da ex-presidente Dilma.

2. "LEI Nº 13.303, DE 30 DE JUNHO DE 2016.

Dispõe sobre o estatuto jurídico da empresa pública, da sociedade de economia mista e de suas subsidiárias, no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Art. 17. Os membros do Conselho de Administração e os indicados para os cargos de diretor, inclusive presidente, diretor-geral e diretor-presidente, serão escolhidos entre cidadãos de reputação ilibada e de notório conhecimento, devendo ser atendidos, alternativamente, um dos requisitos das alíneas “a”, “b” e “c” do inciso I e, cumulativamente, os requisitos dos incisos II e III:

§ 2º É vedada a indicação, para o Conselho de Administração e para a diretoria:

II - de pessoa que atuou, nos últimos 36 (trinta e seis) meses, como participante de estrutura decisória de partido político ou em trabalho vinculado a organização, estruturação e realização de campanha eleitoral;

III - de pessoa que exerça cargo em organização sindical;"

Em 2023, após a eleição do presidente Lula, o PCdoB ingressou com uma ação no STF questionando a constitucionalidade da Lei das Estatais, “aprovada pelo Congresso em 2016 na esteira dos escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras e outras empresas públicas investigadas pela Operação Lava Jato.”

O relator da ação, Ministro Ricardo Lewandowski, em uma decisão monocrática e com uma canetada, suspendeu os efeitos do trecho da lei que restringe indicações de políticos e sindicalistas para as estatais, uma conquista da cidadania.

O Supremo Tribunal Federal analisando o mérito concluiu por maioria, nesta quinta-feira 9, serem constitucionais as restrições à indicação de políticos para a direção de empresas estatais impostas pela chamada Lei das Estatais, tornando sem efeito a liminar do Ministro Lewandowski. Mas há um “trick”, uma pegadinha: apesar de decidir pela validade da Lei das Estatais, porém, o STF manteve as indicações concretizadas durante a vigência da liminar de Lewandowski. Ou seja, as nomeações de políticos e sindicalistas por Lula, continuam válidas.

Deus salve o Brasil!

terça-feira, 7 de maio de 2024

A Prisão de Bolsonaro



A midia "amestrada", a grande mídia, tem diariamente  legitimado, naturalizado, relativizado e vulgarizado a ideia da prisão de Bolsonaro. O Sistema quer colocá-lo na vala comum, igualando-o ao atual presidente que ficou mais de 500 dias preso por condenação em três instâncias da Justiça, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O objetivo é enfraquecer a liderança do ex-Presidente que ao contrário do atual, consegue reunir centenas de milhares de pessoas sempre que convoca uma manifestação. Apesar de Bolsonaro estar inelegível, poderá ser um poderoso "cabo eleitoral" na eleição municipal e principalmente na disputa de 2026.

Depois de várias tentativas de enquadrar Bolsonaro em algum tipo penal (manisfestação do 7 de setembro de 2022, reunião com Embaixadores, negligência na condução da pandemia do Covid 19, venda de jóias de presente oficial, formação do "gabinete do ódio", falsificação no registro de imunização contra a covid-19 do cartão de vacinação e corrupção de menores e pasmem, importunar uma baleia), nada prosperou. Resta então a acusação de tentativa de abolição do Estado democrático de Direito e de golpe de Estado. Mas para isto prosperar, são necessárias provas e não apenas a construção de narrativas.

Aparentemente algo está para acontecer. A liberdade do Coronel Cid pelo ministro Moraes depois de manter sua delação e a dupla visita do "general de Lula" e comandante do Exército, Tomás Paiva, ao coronel Marcelo Câmara, preso desde fevereiro e ex-assessor de Jair Bolsonaro, sinalizam para algo que está sendo construído, só Deus sabe em que fundamentos.

Independente do que acontecer, o ex-Presidente Bolsonaro gestou durante seu termo, uma corrente conservadora no país. O movimento contra o aborto, a ideologia de gênero, a doutrinação de crianças e adolescentes nas escolas e a favor da defesa do liberalismo econômico com uma menor intervenção do Estado, do respeito à família e aos símbolos da pátria, bem como à liberdade religiosa, esse movimento veio para ficar definitivamente. O futuro confirmará!

domingo, 28 de abril de 2024

Quem manda é o Ministro do STF!



A desoneração da folha de pagamento surgiu em 2011 Através da Lei 12.546/2011. Seu objetivo era aliviar a carga tributária de setores empresariais para preservar aqueles que mais empregam mão de obra. Ela consiste na substituição da contribuição previdenciária sobre a folha de pagamento pela contribuição sobre a receita bruta da empresa.

A Lei 13.161/2015 permitiu a aplicação facultativa da desoneração, ou seja, o contribuinte pode escolher qual forma de tributar a folha, seja pela forma tradicional (contribuição sobre a folha de pagamento) ou se pela forma desonerada (contribuição sobre a receita).

"A desoneração atinge setores econômicos que empregam mais de 9 milhões de pessoas. Entidades empresariais e sindicatos ressaltam que ela é importante para a geração e manutenção de emprego e renda".

O princípio da desoneração vinha sendo renovado até 2023, quando recentemente o Congresso Nacional aprovou o PL 334/2023 com relatoria do senador Efraim Filho que previa a prorrogação da desoneração até 2027. Essa aprovação causou desconforto no Governo Lula, principalmente na sua equipe econômica. Por orientação desta, o presidente vetou totalmente a lei aprovada. Como previsto na Constituição, os vetos devem voltar para o Congresso para serem apreciados pelas duas Casas Legislativas em conjunto.

Apesar de todo o empenho do Governo para evitar a rejeição do veto, o Congresso sob pressão de todos os segmentos beneficiados com a desoneração, rejeitou com ampla margem. Uma derrota legislativa para o Governo. Até aqui, tudo no processo constitucional normal.

O natural era acreditar havermos alcançado o final do processo, percorrido todo o ciclo estabelecido pelos instrumentos normativos. Mas não no Brasil. Não para o Governo. Não para a Advocacia-Geral da União (AGU). Segundo esta, a desoneração de setores da economia e de municípios foi feita sem a demonstração do impacto orçamentário. O Governo inconsolado e inconformado, recorreu ao seu parceiro de administração, o STF e fez gestões para que a ação fosse distribuída para o Ministro Cristiano Zanin, ex-advogado pessoal de Lula e indicado por este para o Supremo.

Pois bem, surpreendam-se! O Ministro Zanin concedeu liminar suspendendo a vigência da lei. O que o Congresso Nacional, composto por 513 Deputados e 81 Senadores eleitos pelo povo brasileiro (Art. 1º da Constituição Federal - Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição) aprovou em processo legislativo, foi tornado sem efeito por um desejo solitário de um cidadão que não foi votado pelo povo.

Se eu conseguir que pelo menos um dos meus três leitores reflita sobre isso, atingi meu objetivo!

Deus salve o Brasil!

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Convescote em Londres



Tenho tido muita dificuldade de compreender algumas coisas que estão acontecendo nesses "tempos estranhos" no Brasil, na definição de um ex-Ministro da Suprema Corte do País.

Estou lendo agora na Internet que está acontecendo (começou ontem, dia 24/04 e termina amanhã, 26/04) o "1º Fórum Jurídico — Brasil Ideias". Consta na reportagem do website Hora Brasília que surpreendentemente não é permitida a participação da imprensa e não há entre os convidados nenhum palestrante estrangeiro.

Com relação a não participantes estrangeiros, nada a estranhar. Temos excelentes palestrantes, como por exemplo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). São selecionados entre juristas de destaque e reconhecido gabarito intelectual. Normalmente, são indivíduos com uma vasta experiência na área jurídica, possuindo uma carreira sólida como advogados, professores universitários, membros do Ministério Público ou magistrados em instâncias inferiores.

Quando um evento restringe a participação da imprensa, isso pode levantar suspeitas e sugerir que há algo a ser ocultado ou manipulado. Ao negar o acesso da imprensa a um evento, seja uma reunião, conferência, cerimônia oficial ou qualquer outra atividade de relevância pública, cria-se um vácuo de informação que pode ser interpretado como uma tentativa de controlar a narrativa, evitar a prestação de contas ou esconder atividades questionáveis.

A partir dessa informação constante na manchete da notícia, procurei aprofundar-me no evento. Reúne cerca de 50 pessoas, entre as quais os ministros do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Morais, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. O Procurador Geral da República, Paulo Gonet, o Diretor Geral da Polícia Federal, André Rodrigues, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira além do ministro chefe da AGU, Jorge Messias. Participam ainda o embaixador do Brasil no Reino Unido, Antonio Patriota e mais cinco ministros do STJ, entre eles Luis Felipe Salomão. Também o ex-presidente Michel Temer e o Senador David Alcolumbre.

Todos os participantes, à exceção do embaixador, trabalham no Brasil, mais precisamente em Brasília. Busquei então em qual hotel ou centro de eventos estaria acontecendo o encontro, uma vez que o óbvio seria que a reunião acontecesse onde já estava a (quase) totalidade deles. Mas não acredite no óbvio, no razoável, no senso comum. Não aqui no Brasil. O encontro está acontecendo em Londres. Sim, Londres capital da Inglaterra e cidade mais importante do Reino Unido.

O local do importantíssimo evento é o The Peninsula London Hotel, "cujas diárias iniciam em 1300 Libras (aproximadamente R$ 8300,00)". Seria leviano de minha parte se afirmasse que esse convescote estaria sendo pago com o dinheiro público. Não tenho a informação da fonte financiadora. Mas é razoável supor que, por exemplo, um ministro do STF que ganha pouco mais de 40 mil reais por mês, não gastaria do seu próprio bolso mais da metade do seu salário em apenas 3 dias de hospedagem, afora as diversas outras despesas tais como refeições, passagem etc.

Por favor, alguém que eventualmente leia este texto, ajude-me a entender porque Londres. Acho que a idade está tornando-me cada dia mais obtuso. Não estou conseguindo compreender as coisas do mundo.

O Passaporte de Samuca



Os meus amigos e conhecidos conhecem também meu filho caçula Samuel, o Samuca. É um indivíduo afável, sereno, e seu retardo mental e ausência de verbalização não o impedem de ser apreciador de um barzinho com música ao vivo que lhe absorve por horas seguidas e estampar quase sempre um doce sorriso no rosto.

No final da década de 1990 Samuel morou no Condado de Palm Beach, na Flórida, submetendo-se a tratamento de saúde e frequentando a escola regular William T. Dwyer High School.

Nesse período de pouco mais de 3 anos, tínhamos o hábito de, pelo menos um fim de semana por mês, irmos ao complexo de entretenimento de Disneyworld (Walt Disney World Flórida). Tínhamos o Passe Anual, cujo preço era bastante razoável para moradores naquele estado.

Apesar de ter morado por mais de 6 anos naquele país e das agradáveis lembranças que imagino pairam ainda na sua memória, já lá se vão uns bons 22 anos sem que ele tenha tido a oportunidade de voltar aos Estados Unidos. Foi pensando nisso que resolvi renovar seu Passaporte para um eventual passeio naquele gigante do norte.

Selecionei Identidade, CPF, laudo oficial do Governo do Estado (antigo IPEC) assinado por 3 médicos, laudo da médica Fátima Dourado, provavelmente a maior autoridade em autismo do Estado e uma das maiores do país e o Documento de Interdição do Poder Judiciário, da 7ª Vara da Família de Fortaleza, assinado pela então titular, Juíza de Direito Shirley Maria Viana Crispino Leite. "Armado até os dentes" com documentos e com horário adredemente agendado no Posto da Polícia Federal do Shopping Iguatemi, imaginava que seria "a piece of cake" (para utilizar uma expressão usual em inglês para uma coisa muito fácil) ou a versão mais livre em português, "mamão com açúcar", a renovação do documento do meu filho. Mera ilusão!

Os documentos não foram suficientes. Samuel teria que ter Título de Eleitor e Certificado de Alistamento Militar. Confesso que no momento em que fui informado dessas exigências, veio-me um incontrolável desejo de rir. Rir muito! Imaginei meu Samuca exercendo seu dever cívico de escolher seus governantes (em vez de deliciar-se com o passeio de trenzinho da alegria que percorre os corredores do mesmo Iguatemi) ou desmontando e montando um fuzil (sem tempo para ir participar da roda-de-samba do almoço do sábado no Restaurante Floresta).

Regras são regras. Cumpre-nos segui-las sem prejuízo para o direito de criticá-las. A complexa teia de legislação e regulamentação que envolve o Brasil tem sido frequentemente criticada como um obstáculo ao desenvolvimento do país. Com milhares de leis, portarias, decretos, resoluções e outros instrumentos normativos, a burocracia brasileira pode parecer uma barreira intransponível para o progresso. Essa densa rede de regulamentações cria um ambiente operacional desafiador para empresas, organizações e até mesmo para os cidadãos comuns.

É fundamental que o Brasil enfrente o desafio de simplificar sua burocracia e promover uma regulamentação mais eficiente e transparente. Somente assim o país poderá se alinhar verdadeiramente aos padrões dos países desenvolvidos.

Não me custou muito fazer agendamento por telefone no Posto do TRE no Shopping RioMar para 9:45h de ontem (quarta-feira). Antes disso, madrugar nas dependências do Ginásio Paulo Sarasate onde funciona uma Junta de Alistamento Militar (acho que esse é o nome) de onde saí menos de uma hora depois com o Certificado de Alistamento Militar, um pomposo papel com o timbre do Ministério da Defesa. Aqui cabe uma observação por dever de justiça: muito obrigado à senhora Salênia, servidora daquele órgão que tudo fez para tornar minha vida menos complicada, chegando inclusive a ligar para pessoa amiga na Polícia Federal com o objetivo único de ajudar um contribuinte.

O espaço do TRE no Shopping, dedicado às pessoas que buscam regularizar sua situação junto à Justiça Eleitoral, é um enorme salão com dezenas (eu arriscaria dizer centenas) pequenas mesinhas com computadores e máquinas acopladas para fotografar o potencial eleitor e colher suas digitais. Tudo muito moderno. Ali encontrei centenas de pessoas, a maioria jovens, que certamente estavam em busca do Título para exercer seu primeiro voto. É uma algazarra organizada. Meia hora depois eis que o cidadão Samuel Thomaz está devidamente credenciado para exercer seu legítimo direito, dever cívico, de escolher nas urnas aqueles que estabelecerão as políticas públicas no município, estado e país.

Antes de concluir o processo, fui informado por servidor do Tribunal que devo endereçar um requerimento à Zona Eleitoral, com a juntada de documentos que comprovem a incapacidade do meu filho para exercer esse "dever cívico", sendo então dispensado da obrigatoriedade do voto, sob pena de ter seu Título cancelado no futuro. Eu me questionei silente: por que no momento da confecção do documento já não se cadastra um símbolo indicando essa condição?

Não termina aqui a "via sacra" da renovação do Passaporte de Samuca. Ainda vamos mais uma vez encarar o Posto da Polícia Federal. Seja o que Deus quiser.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Um artigo de Glenn Greenwald (em tradução livre)



Boa noite. É quarta-feira, 10 de abril.

Esta noite: uma guerra virtual eclodiu entre Elon Musk e X, de um lado, e praticamente todo o establishment brasileiro e a esquerda brasileira com a qual estão unidos, do outro. Como temos reportado há dois anos, o regime de censura que foi imposto no Brasil – o quinto país mais populoso do mundo – todo centralizado nas mãos de um único juiz do Supremo Tribunal, é mais extremo, mais repressivo e mais ilegal do que em qualquer lugar do mundo democrático. E isso é muito, dada a extensão da censura. Esse é apenas um indicador do quão extremo é o esquema de censura brasileiro.

Esta plataforma Rumble decidiu no ano passado que preferiria impedir que os brasileiros visualizassem seu conteúdo, apesar de ter construído uma grande e crescente audiência brasileira, em vez de enfrentar multas pesadas e até ameaças criminais de processo por descumprimento da avalanche de ordens de censura que estavam recebendo. recebendo praticamente diariamente.

Na imagem acima, a mensagem é o que as pessoas no Brasil veem agora quando tentam acessar o Rumble, uma mensagem dizendo que o Rumble não está disponível no país por causa de ordens de censura. Rumble anunciou que não serviria mais como arma no regime de censura e bloquearia o acesso de todos os brasileiros, pelo menos daqueles que não usam VPNs, enquanto se aguarda a contestação judicial das leis de censura que agora trouxe.

Na semana passada, o jornalista independente Michael Shellenberger, trabalhando com dois jornalistas brasileiros distintos, divulgou a parte brasileira dos Arquivos do Twitter. Ele documentou como os advogados internos do Twitter no Brasil estavam cada vez mais alarmados com as ordens de censura politicamente motivadas do tribunal, com as quais eram rotineiramente afogados, e estavam preocupados com as consequências que poderiam enfrentar pelo não cumprimento. Entrevistamos Shellenberger na semana passada sobre suas reportagens. Ele estava no Brasil na época e foi entrevistado por vários meios de comunicação no Brasil, geralmente de uma forma muito hostil, muito mais interessado em atacar seu caráter e métodos do que em abordar a substância de suas revelações.

Elon Musk viu tudo isso - obviamente, ele presta atenção aos arquivos do Twitter - e respondeu a tudo isso no fim de semana lançando uma série de ataques muito mordazes contra esse juiz da Suprema Corte que supervisiona o regime de censura, chamando-o de tirano e pedindo seu impeachment. Musk também prometeu que X preferiria desobedecer ordens injustas de censura e até mesmo deixar o Brasil do que continuar a ser usado como arma a serviço deste regime. A mesma decisão que Rumble tomou em relação ao Brasil no ano passado. Isso, por sua vez, provocou ameaças muito agressivas por parte deste juiz. Ele declarou Musk alvo de uma investigação criminal pendente envolvendo notícias falsas e desinformação. Ele acabou de inserir Musk nesta investigação criminal pendente como um dos alvos da investigação criminal. Ele também ordenou que os funcionários de X no Brasil fossem interrogados pela Polícia Federal e os ameaçou explicitamente por escrito, com prisão e processo se X permitisse que qualquer voz proibida retornasse à plataforma.

Tudo isto demonstra a severidade do crescente regime de censura, não só no Brasil, mas em todo o mundo democrático. Precisamente porque o Brasil tem sido tão extremista é que é tão relevante para os americanos, porque está sendo usado como um laboratório para ver até onde pode ir o controle sobre a Internet e o discurso online. A Europa e os Estados Unidos embarcaram no seu próprio regime de censura online. Temos relatado isso extensivamente, a ponto de agora estar na Suprema Corte. O que está sendo feito no Brasil é um prenúncio do que está por vir para o Ocidente. Relataremos tudo o que aconteceu aqui e exploraremos suas implicações bastante significativas.