Nilo Sérgio Bezerra
Um velho engenheiro aposentado que combate o ócio tentando escrever textos inspirados nos acontecimentos do cotidiano. Autor dos livros “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 1” , “INQUIETAÇÕES NOTURNAS, REFLEXÕES NAS MADRUGADAS” e “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 2”.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Talento precoce
Alguém, em sã consciência, acredita que a contratação tenha ocorrido exclusivamente pelo talento extraordinário e pela vasta experiência profissional do jovem advogado?
O Grupo Refit, com dívidas e fraudes tributárias estimadas em cerca de R$ 26 bilhões, investigado por lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem tributária no âmbito da Operação Poço de Lobato, contratou o advogado Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, para atuar em disputa contra a Agência Nacional do Petróleo (ANP) no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Kevin é filho do ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques, que, antes de ascender ao STF, integrou o próprio TRF-1 como desembargador entre 2011 e 2020, corte na qual, segundo fontes do meio jurídico, ainda mantém influência relevante.
A contratação é recente e pontual. Até o momento, Kevin Marques assinou apenas três petições em nome do Grupo Refit, protocoladas entre 27 e 29 de janeiro, no processo que busca reverter a decisão da ANP que determinou a interdição da refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, atualmente sob controle do grupo.
A interdição foi imposta após inspeção técnica da ANP identificar risco elevado de acidentes e incêndios nas instalações. A refinaria já operava sob restrições e havia sido alvo de megaoperação policial por fraudes fiscais, circunstâncias que reforçaram a medida adotada pela agência reguladora.
Na petição mais recente, protocolada em 29 de janeiro, a defesa tenta, em caráter de urgência, suspender os efeitos da fiscalização e do auto de interdição. Os advogados sustentam que a ANP teria descumprido decisão judicial, após o grupo obter no TRF-1 uma reversão parcial de decisão de primeira instância que apontava supostas irregularidades no rito de votação da diretoria da agência.
Segundo essa linha argumentativa, a ANP não poderia ter realizado nova fiscalização, a qual culminou na interdição total da refinaria, sem violar a decisão judicial anterior.
Formado em Direito em 2020 e aprovado no exame da OAB em 2024, Kevin Marques assina a peça ao lado de outros três advogados, entre eles Jorge Berdasco, sócio de escritório vinculado ao controlador do grupo, o empresário Ricardo Magro, apontado pelas investigações como líder do esquema de fraudes.
O episódio reacende, mais uma vez, o debate sobre conflitos de interesse, influência institucional e os limites éticos da advocacia, especialmente em tribunais nos quais parentes próximos de ministros exerceram, ou ainda exercem, papel central.
Porque, afinal, “eu sou apenas um rapaz latino-americano…” — ops! — sou apenas um velho engenheiro aposentado, não cometeria o desatino de propor soluções fáceis para os inúmeros casos semelhantes que se acumulam no país. Mas que algo precisa ser feito… ah, isso precisa!
sábado, 31 de janeiro de 2026
Tradução da Imagem
Do livro “Stolen Elections - The takedown of democracies worldwide” (Páginas 33 e 34)
(De Ralph Pezzullo)
**“E depois de fazermos isso e reformarmos o sistema, devemos ter em mente que existe uma solução simples. De acordo com todo engenheiro de computação e especialista em votação que os denunciantes consultaram, a solução para o problema é o retorno às eleições manuais, consistindo em cédulas de papel, contagem manual e um relatório manual.
Por que os especialistas em computação concordam com isso? Porque eles sabem que não existe software que seja impenetrável.
Mantenham computadores, tabuladores digitais e endereços de VPN fora disso.
Máquinas de votação deveriam ser proibidas!”**
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Escândalos
Os cabas roubaram o INSS. Roubaram dos velhinhos, dos inválidos e até de crianças. Ninguém escapou. Todo mundo perdeu dinheiro. Mas, em vez de o governo ir atrás de quem roubou, preferiu o caminho mais confortável: restituir usando dinheiro de imposto. Traduzindo para o português claro: você pagou pelo roubo duas vezes: a primeira quando desviaram, a segunda quando o Estado resolveu “consertar” o problema com o seu próprio bolso.
Já o Banco Master, além de protagonista no escândalo dos consignados do INSS, simplesmente quebrou, levando junto a poupança de centenas de milhares de brasileiros, talvez milhões. Para quem tinha até 250 mil reais aplicados, o remendo chama-se Fundo Garantidor de Créditos. O fundo devolve o dinheiro, dizem. Ótimo. Só esquecem de explicar um detalhe irrelevante: esse fundo não nasce em árvore, nem brota do chão.
Ele é formado pela contribuição de todos os bancos, proporcionalmente ao tamanho de cada um. Agora sejamos adultos: você acha mesmo que os bancos vão absorver esse prejuízo em silêncio, por espírito cívico? Claro que não. A conta é repassada onde sempre foi. Nos juros mais altos, nas tarifas, no crédito mais caro, no sufoco diário do correntista.
No fim das contas, como manda a tradição nacional, tudo estoura no rabo do cidadão comum. Sempre ele. O mesmo de sempre.
Enquanto isso, o governo segue impávido, fazendo cara de paisagem, como se nada disso lhe dissesse respeito. Como se não devesse explicações. Como se não devesse satisfação. Como se não devesse, ao menos, respeito ao povo deste país.
domingo, 25 de janeiro de 2026
O AMIGO DO AMIGO DO MEU PAI
Vejo, não sem espanto, a carnificina moral a que a grande mídia nacional resolveu submeter, de uma hora para outra, o ministro Dias Toffoli. Rede Globo, Estadão et caterva parecem ter acordado subitamente para o fato de que Sua Excelência teria cometido malfeitos. A indignação, agora exibida em horário nobre e editoriais solenes, soa menos como zelo republicano e mais como amnésia seletiva revertida às pressas.
Em 11 de abril de 2019, portanto há quase sete anos, a revista Crusoé publicou a reportagem intitulada “O amigo do amigo do meu pai”, na qual descrevia, com detalhes e documentos, o envolvimento do ministro com negócios no mínimo reprováveis. Nada disso era obscuro, nada disso era novo. Ao contrário: o material era suficientemente grave para provocar uma reação institucional imediata. E provocou, ainda que da pior forma possível.
O próprio ministro, então presidente do Supremo Tribunal Federal, instaurou de ofício uma investigação, nomeando ilegalmente como relator um colega da Corte. A partir desse gesto inaugural, abriu-se a comporta para uma sucessão de aberrações jurídicas que dispensam adjetivos: inquéritos sem objeto definido, vítimas indeterminadas, investigados escolhidos a dedo e uma jurisprudência moldada ao sabor das conveniências do momento.
Desde então, assistimos à lenta, porém consistente, reescrita informal da Constituição, artigo por artigo, decisão por decisão, sempre com a anuência, registre-se, da maioria do colegiado. Criou-se um novo direito constitucional, onde o que ontem era vedado hoje é aceitável, desde que aprovado pela maioria.
Há algo mais reprovável e antiético do que um juiz julgar causa patrocinada por cônjuge, filho ou parente próximo? Havia. Hoje não há mais. Tornou-se “legal” após uma votação majoritária por 7X4. Não por força de lei, mas por imposição da maioria circunstancial.
Ainda que com menos virulência, a mesma grande mídia passou a tratar com reservas o nebuloso contrato firmado pelo escritório Barci de Moraes com o liquidado Banco Master. Chegamos ao ponto, notável, quase comovente, de ler em editorial do Estadão algo que, em essência, dizia: agora que Jair Bolsonaro foi neutralizado, talvez seja o momento de o Supremo parar de agredir a Constituição. Não com essas palavras, evidentemente, mas com exatamente esse conteúdo.
Confesso que tenho refletido longamente para compreender a origem do ódio visceral que a grande mídia nacional, praticamente em bloco, nutre contra a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. Revirando discursos, editoriais e campanhas “espontâneas”, não encontrei explicação política, moral ou institucional que se sustentasse por si só. A única explicação plausível parece ser financeira.
Durante os três primeiros anos do governo Bolsonaro, os gastos com publicidade oficial somaram 583 milhões de reais. Já no atual governo, entre 2023 e 2025, esse montante saltou para 2,005 bilhões de reais. Não se trata de interpretação: trata-se de números.
É legítimo, portanto, perguntar se o ódio não foi ideológico, mas orçamentário. Se a fúria não nasceu da defesa da democracia, mas da interrupção abrupta de um fluxo generoso de recursos públicos. Talvez o que se convencionou chamar de “defesa das instituições” não passe, em certos casos, de síndrome de abstinência.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Fatos do cotidiano
"O cupim é um inseto social. Vive em colônias altamente organizadas, alimenta-se de celulose, madeira e papel, e quando se instala em ambiente urbano, transforma-se em praga silenciosa, capaz de destruir móveis, estruturas e patrimônios inteiros sem alarde, sem barulho, quase sem ser notado. Seu rastro é discreto: um fino pó de madeira no chão. O estrago, porém, é profundo."
Durante dias, a porta principal do meu apartamento amanhecia com esse pozinho claro espalhado no piso próximo. Varria-se o resíduo, jogava-se no lixo, e a rotina seguia. Aos poucos, no entanto, a porta começou a apresentar pequenos buracos, como feridas abertas em seu corpo. O diagnóstico foi simples e preciso: cupim.
A primeira reação foi a mais comum, tentar um remendo. Comprei um produto que prometia exterminar o inseto. Apliquei algumas vezes. O pozinho persistiu. As feridas se multiplicaram. Ficou claro: não era solução.
O conselho foi direto e sensato: era preciso trocar a porta.
Adquiri então uma porta nova, de uma empresa especializada em venda e montagem. Paguei em duas parcelas no cartão de crédito. Uma porta bonita, branca como devem ser as portas principais, com um elegante puxador de metal. Comprada e paga, imaginei que a substituição seria imediata. Ledo engano.
Passaram-se dez dias. Enviei mensagem perguntando o que faltava para o agendamento da montagem. Silêncio. Recorri então ao amigo que havia indicado a empresa, amigo comum também do proprietário. Ele intercedeu. Finalmente alguém apareceu para medir com exatidão. Medidas conferidas, mais uma semana de espera. A porta chegou.
A largura deveria ser de 90 centímetros; veio uma de 80. Mais alguns dias, mais paciência. Substituíram por outra de 90 centímetros, mas agora com apenas dois metros de altura. A minha fora medida com dois metros e oito centímetros e meio. Nova reclamação. Nova espera. Finalmente, chegou a porta exatamente como devia ser.
Faltava apenas a montagem. Mais alguns dias que viraram semanas. Um mês e alguns dias após a compra, eis que, aleluia, a porta foi instalada. Nova, firme, íntegra. O cupim ficou para trás.
É assim também com o país. Nossa democracia vem sendo corroída, lentamente, pelo cupim da corrupção. Não faz barulho, não age à luz do dia, mas deixa resíduos diários: escândalos, desvios, privilégios, impunidade. Varremos o pó, denunciamos, reclamamos,fingimos normalidade. Enquanto isso, as estruturas apodrecem.
Existem 129 milhões de razões para que isso mude e 300 mil denúncias já foram feitas. Produtos milagrosos não funcionam. Remendos não resolvem. Não se salva uma porta infestada com verniz.
Como não podemos trocar a nação como se troca uma porta, resta-nos trocar aqueles que conduzem o nosso destino como sociedade.
Tayayá em outubro essa oportunidade. Não depende de cupins. Não depende de vendedores. Não depende de intermediários.
Depende de nós!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Quer ser Juíz?
"Quando um juiz é flagrado em um malfeito, as autoridades o afastam do processo, o suspendem por um tempo ou, no máximo, o aposentam com salário e vantagens integrais. Coisa feia, né?"
Do ponto de vista institucional, o exposto acima não é exceção, é praticamente a regra no Brasil.
O que normalmente acontece quando um juiz é flagrado em conduta irregular ou antiética, as sanções mais frequentes são:
• Afastamento do processo
• Disponibilidade (fica sem julgar, mas recebendo)
• Suspensão temporária
• Aposentadoria compulsória, com vencimentos proporcionais ou integrais
Raramente há demissão pura e simples. Mais raramente ainda há responsabilização penal efetiva.
Por que isso ocorre? Isso decorre de:
• Garantias constitucionais da magistratura (vitaliciedade, inamovibilidade, irredutibilidade de subsídios)
• Um modelo pensado para proteger o juiz contra pressões políticas, mas que acabou gerando proteção excessiva contra punições.
O órgão responsável por julgar esses casos, o CNJ, pode aplicar sanções administrativas — mas não pode demitir juízes vitalícios. A demissão só ocorre após sentença judicial transitada em julgado, o que é raro e lento.
Por que soa “feio” (e muita gente acha injusto)? Porque, aos olhos do cidadão comum:
• Erro grave não gera consequência proporcional
• A punição parece prêmio disfarçado
• Cria-se a percepção de corporativismo
• Contrasta fortemente com o rigor aplicado a outros servidores e à população em geral
Essa discrepância corrói a confiança no Judiciário, que vive justamente de credibilidade moral.
Não é só “coisa feia”, é:
• Um problema estrutural
• Uma distorção do sistema de garantias
• Um dos pontos mais criticados por juristas, acadêmicos e pela sociedade civil
Você quer ser Juiz?
Do ponto de vista institucional, o exposto acima não é exceção, é praticamente a regra no Brasil.
O que normalmente acontece quando um juiz é flagrado em conduta irregular ou antiética, as sanções mais frequentes são:
• Afastamento do processo
• Disponibilidade (fica sem julgar, mas recebendo)
• Suspensão temporária
• Aposentadoria compulsória, com vencimentos proporcionais ou integrais
Raramente há demissão pura e simples. Mais raramente ainda há responsabilização penal efetiva.
Por que isso ocorre? Isso decorre de:
• Garantias constitucionais da magistratura (vitaliciedade, inamovibilidade, irredutibilidade de subsídios)
• Um modelo pensado para proteger o juiz contra pressões políticas, mas que acabou gerando proteção excessiva contra punições.
O órgão responsável por julgar esses casos, o CNJ, pode aplicar sanções administrativas — mas não pode demitir juízes vitalícios. A demissão só ocorre após sentença judicial transitada em julgado, o que é raro e lento.
Por que soa “feio” (e muita gente acha injusto)? Porque, aos olhos do cidadão comum:
• Erro grave não gera consequência proporcional
• A punição parece prêmio disfarçado
• Cria-se a percepção de corporativismo
• Contrasta fortemente com o rigor aplicado a outros servidores e à população em geral
Essa discrepância corrói a confiança no Judiciário, que vive justamente de credibilidade moral.
Não é só “coisa feia”, é:
• Um problema estrutural
• Uma distorção do sistema de garantias
• Um dos pontos mais criticados por juristas, acadêmicos e pela sociedade civil
Você quer ser Juiz?
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Ow salada da porra! (Ampliado e melhorado)
Relatório do INSS aponta ‘falha grave’ em mais de 250 mil contratos de consignados do Banco Master. INSS, vocês sabem, é aquele órgão onde atuava o careca que bancava uma mesada de R$ 300 mil para certo cidadão atualmente em temporada prolongada na Espanha.
Enquanto Joesley Batista se reúne com Delcy Rodríguez, que se diz presidente da Venezuela, seu advogado, detalhe pitoresco, adquire luxuoso Resort que antes pertencia aos irmãos de um certo ministro do STF. Negócio fechado não sem antes uma parte do empreendimento passar pelas mãos de um fundo ligado a Vorcaro. Sim, aquele mesmo Vorcaro que contratou uma distinta senhora advogada pela módica quantia de R$ 129 milhões.
Falando em Vorcaro, seu aparelho telefônico encontra-se apreendido pela Polícia Federal. A fuxicada de Brasília sussurra que o conteúdo do celular não é exatamente um rojão, mas algo mais próximo de uma bomba atômica.
E por falar em prejuízo, faltou contar que o fundo de previdência do Amapá (Amapá Previdência) aportou R$ 400 milhões no Banco Master, numa operação conduzida por um administrador que, segundo cochichos de Brasília, tem ligações políticas bem próximas à família de um chefe de um dos Poderes da República.
O negócio tá tão animado que, com a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos, a coisa virou um circo completo: apareceu até um padre no meio da confusão, e a maior facção criminosa do Brasil, o PCC, foi citada lavando dinheiro do tráfico em fundos administrados pela própria Reag, via aqueles esquemas bilionários no setor de combustíveis.
E lá no Riacho Verde, progressista distrito de Várzea Alegre, vive um velhinho aposentado que teve parcela de sua aposentadoria descontada pelo Banco Master, sem jamais ter pisado em Brasília, sem saber quem é Vorcaro, Joesley ou Delcy, e muito menos onde fica o STF.
God bless America!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Hipocrisia
"Alguns se indignam mais com a queda de um ditador do que com milhões passando fome. Se, afinal, a lógica da 'soberania' fosse absoluta, nem a derrota do nazismo seria justificável."
Em um mundo cada vez mais dominado por narrativas políticas moldadas por ideologia, conveniência e alinhamentos circunstanciais, a hipocrisia internacional deixou de ser exceção para se tornar método. Não se trata apenas de incoerências individuais ou deslizes retóricos ocasionais, mas de um padrão sistêmico que orienta discursos, decisões diplomáticas e julgamentos morais no debate global contemporâneo.
O mecanismo é conhecido: condena-se com veemência o inimigo ideológico, enquanto se relativizam, justificam ou simplesmente silenciam ações idênticas, ou até mais graves, praticadas por aliados. Princípios universais, quando existem, passam a ser aplicados de forma seletiva. A régua moral muda conforme o ator envolvido.
O caso da guerra na Ucrânia é emblemático. Em determinados círculos políticos e acadêmicos, observa-se um esforço deliberado para amenizar ou justificar a invasão russa, mesmo tratando-se de um ataque militar clássico contra um Estado soberano, democrático, com eleições reconhecidas internacionalmente e sem histórico de êxodo populacional em massa antes do conflito. A agressão é reinterpretada como “resposta geopolítica”, “provocação da OTAN” ou “conflito de esferas de influência”, como se esses argumentos tivessem o poder mágico de dissolver o direito internacional.
Paradoxalmente, os mesmos atores que relativizam tanques russos atravessando fronteiras internacionais classificam como “invasão” qualquer ação americana ou ocidental que contrarie seus alinhamentos ideológicos, ainda que em contextos radicalmente distintos. O caso da Venezuela ilustra essa distorção. Trata-se de um país submetido há mais de duas décadas a um regime autoritário, marcado por perseguição política, fraudes eleitorais recorrentes e um colapso econômico que levou mais de 8 milhões de pessoas ao exílio, um dos maiores êxodos da história recente. Ainda assim, qualquer menção a pressão internacional ou ação externa é imediatamente rotulada como imperialismo, enquanto o drama humano é convenientemente empurrado para fora do enquadramento moral.
O grau de incoerência atinge o paroxismo quando se observa a reação seletiva a intervenções pontuais. Aplaude-se, sem constrangimento, uma intervenção militar brasileira no Peru destinada ao resgate de uma ex-primeira-dama condenada a mais de 15 anos de prisão por corrupção. Nesse caso, desaparecem as palavras “violação de soberania” ou “ingerência externa”. A ação deixa de ser invasão e passa a ser “gesto humanitário”, “solidariedade regional” ou “decisão política legítima”. Curiosamente, a classificação jurídica do ato muda conforme o lado político do beneficiário.
Essa seletividade não é fruto de ingenuidade nem de desinformação. Ela é, na verdade, o núcleo de uma diplomacia enviesada, na qual afinidades ideológicas se sobrepõem a princípios que deveriam ser universais: soberania, autodeterminação dos povos, legalidade internacional, direitos humanos e responsabilidade democrática.
O resultado é um debate global profundamente empobrecido, no qual conceitos fundamentais perdem significado. “Invasão”, “golpe”, “ditadura”, “democracia” e “direitos humanos” deixam de ser categorias objetivas e passam a funcionar como instrumentos retóricos, acionados ou silenciados conforme a conveniência política do momento.
No fim, a hipocrisia internacional cobra seu preço. Ao corroer a coerência moral, ela mina a credibilidade das instituições multilaterais, desacredita o discurso dos direitos humanos e fortalece justamente aqueles que se beneficiam do caos normativo. Quando tudo é relativo, nada é condenável e o arbítrio encontra terreno fértil.
Se o mundo pretende resgatar algum sentido de ordem, justiça e legitimidade no sistema internacional, será preciso começar por algo simples, embora desconfortável: aplicar os mesmos princípios aos aliados e aos adversários. Sem isso, a diplomacia continuará sendo apenas um exercício sofisticado de cinismo, travestido de virtude.
Em um mundo cada vez mais dominado por narrativas políticas moldadas por ideologia, conveniência e alinhamentos circunstanciais, a hipocrisia internacional deixou de ser exceção para se tornar método. Não se trata apenas de incoerências individuais ou deslizes retóricos ocasionais, mas de um padrão sistêmico que orienta discursos, decisões diplomáticas e julgamentos morais no debate global contemporâneo.
O mecanismo é conhecido: condena-se com veemência o inimigo ideológico, enquanto se relativizam, justificam ou simplesmente silenciam ações idênticas, ou até mais graves, praticadas por aliados. Princípios universais, quando existem, passam a ser aplicados de forma seletiva. A régua moral muda conforme o ator envolvido.
O caso da guerra na Ucrânia é emblemático. Em determinados círculos políticos e acadêmicos, observa-se um esforço deliberado para amenizar ou justificar a invasão russa, mesmo tratando-se de um ataque militar clássico contra um Estado soberano, democrático, com eleições reconhecidas internacionalmente e sem histórico de êxodo populacional em massa antes do conflito. A agressão é reinterpretada como “resposta geopolítica”, “provocação da OTAN” ou “conflito de esferas de influência”, como se esses argumentos tivessem o poder mágico de dissolver o direito internacional.
Paradoxalmente, os mesmos atores que relativizam tanques russos atravessando fronteiras internacionais classificam como “invasão” qualquer ação americana ou ocidental que contrarie seus alinhamentos ideológicos, ainda que em contextos radicalmente distintos. O caso da Venezuela ilustra essa distorção. Trata-se de um país submetido há mais de duas décadas a um regime autoritário, marcado por perseguição política, fraudes eleitorais recorrentes e um colapso econômico que levou mais de 8 milhões de pessoas ao exílio, um dos maiores êxodos da história recente. Ainda assim, qualquer menção a pressão internacional ou ação externa é imediatamente rotulada como imperialismo, enquanto o drama humano é convenientemente empurrado para fora do enquadramento moral.
O grau de incoerência atinge o paroxismo quando se observa a reação seletiva a intervenções pontuais. Aplaude-se, sem constrangimento, uma intervenção militar brasileira no Peru destinada ao resgate de uma ex-primeira-dama condenada a mais de 15 anos de prisão por corrupção. Nesse caso, desaparecem as palavras “violação de soberania” ou “ingerência externa”. A ação deixa de ser invasão e passa a ser “gesto humanitário”, “solidariedade regional” ou “decisão política legítima”. Curiosamente, a classificação jurídica do ato muda conforme o lado político do beneficiário.
Essa seletividade não é fruto de ingenuidade nem de desinformação. Ela é, na verdade, o núcleo de uma diplomacia enviesada, na qual afinidades ideológicas se sobrepõem a princípios que deveriam ser universais: soberania, autodeterminação dos povos, legalidade internacional, direitos humanos e responsabilidade democrática.
O resultado é um debate global profundamente empobrecido, no qual conceitos fundamentais perdem significado. “Invasão”, “golpe”, “ditadura”, “democracia” e “direitos humanos” deixam de ser categorias objetivas e passam a funcionar como instrumentos retóricos, acionados ou silenciados conforme a conveniência política do momento.
No fim, a hipocrisia internacional cobra seu preço. Ao corroer a coerência moral, ela mina a credibilidade das instituições multilaterais, desacredita o discurso dos direitos humanos e fortalece justamente aqueles que se beneficiam do caos normativo. Quando tudo é relativo, nada é condenável e o arbítrio encontra terreno fértil.
Se o mundo pretende resgatar algum sentido de ordem, justiça e legitimidade no sistema internacional, será preciso começar por algo simples, embora desconfortável: aplicar os mesmos princípios aos aliados e aos adversários. Sem isso, a diplomacia continuará sendo apenas um exercício sofisticado de cinismo, travestido de virtude.
domingo, 4 de janeiro de 2026
MARCO RUBIO
Em entrevista à âncora da NBC News, Kristen Welker, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou:
"O Hemisfério Ocidental é NOSSO. China, Rússia e Irã podem SAIR daqui."
Kristen Welker interrompeu-o, argumentando: "Por que os EUA precisam do petróleo venezuelano?", e Rubio prontamente respondeu: "Por que a China precisa? A Rússia? O Irã?Este é o Ocidente. É AQUI QUE VIVEMOS.
Eles NÃO vão entrar no nosso hemisfério, desestabilizar nossa região e forçar os americanos a pagar o preço. Não sob a presidência de Trump. Essa loucura ACABA aqui"
Um recado forte, direto e sem deixar nenhuma dúvida.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Código de Conduta
Muito se tem falado, nos últimos tempos, sobre a proposta de criação de um Código de Conduta para os ministros do Supremo Tribunal Federal, defendida pelo presidente da Corte, Luiz Edson Fachin. À primeira vista, a iniciativa parece irretocável. Afinal, quem poderia se opor a padrões éticos claros, maior transparência e balizas comportamentais para a mais alta instância do Judiciário brasileiro?
O problema, contudo, não reside na ideia abstrata de um código. Ele está na realidade concreta em que tal instrumento seria aplicado.
O Supremo Tribunal Federal não é um órgão administrativo comum, nem uma repartição burocrática sujeita a simples manuais internos de conduta. Trata-se de um colegiado que ocupa o vértice do Poder Judiciário, cuja função essencial é guardar a Constituição Federal, zelar pelos princípios, direitos e garantias nela inscritos e assegurar que nenhum poder, inclusive o próprio Judiciário, ultrapasse os limites constitucionais.
É exatamente nesse ponto que emerge a contradição central. Se uma Corte cuja missão institucional é respeitar e fazer respeitar a Constituição demonstra, de forma recorrente, dificuldade em observá-la, cumpri-la e aplicá-la com a necessária autocontenção, como esperar que esse mesmo colegiado se submeta, com rigor e disciplina, a um Código de Conduta de natureza infraconstitucional?
A hierarquia normativa não admite ambiguidades. A Constituição ocupa o topo do sistema jurídico. Códigos, resoluções e regimentos vêm depois.
Quando o vértice é relativizado, todo o edifício normativo se fragiliza. Um Código de Conduta, por mais bem redigido que seja, não tem o condão de corrigir desvios se a própria Constituição que lhe dá fundamento, deixa de ser tratada como limite intransponível.
Sem o respeito rigoroso à norma suprema, qualquer código corre o risco de se transformar em mera peça retórica, incapaz de produzir efeitos reais. Porque, em última instância, não é a ausência de regras que compromete as instituições, mas a seletividade na observância daquelas que já existem.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
Ave, Galípolo!
Justiça seja feita: Gabriel Galípolo vem se revelando um verdadeiro super-herói dos tempos modernos, desses que não usam capa, não discursam em palanques e não buscam aplauso fácil. Seu protagonismo é silencioso, técnico e, justamente por isso, raro.
Chegou ao Banco Central de mansinho, como membro da diretoria, longe dos holofotes e das paixões políticas. Com o encerramento do mandato do ex-presidente Campos Neto, acabou sendo escolhido por Lula para substituí-lo. A partir daí, muitos apostaram que o novo presidente do Banco Central seria apenas mais um elo obediente à cadeia de comando político.
Não foi o que se viu. Apesar da pressão pública e reiterada de figuras proeminentes do partido no poder, em alguns momentos, do próprio presidente que o nomeou, Galípolo tem resistido. E não apenas resistido: tem conduzido as decisões do colegiado estritamente com base em critérios técnicos, ancorado em dados, indicadores e fundamentos macroeconômicos, como manda o figurino institucional que tantos fingem respeitar, mas poucos efetivamente honram.
Agora, surgem notícias ainda mais reveladoras. Vazam informações de que, no episódio envolvendo o Banco Master, Galípolo teria sido pressionado pelo indivíduo mais poderoso da República, o ministro Alexandre de Moraes. Os desafetos do ministro, e é preciso reconhecer que Sua Excelência é particularmente hábil na arte de cultivar inimigos, o acusam de ter praticado advocacia administrativa, atuando em benefício de um cliente específico. E que cliente: o Banco Master, ligado ao escritório de advocacia de sua esposa e filhos.
Se essas pressões de fato existiram, e os veículos da grande mídia noticiam que, em um único dia, o ministro teria telefonado cinco vezes para Galípolo tratando do assunto, o desfecho fala por si. O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central.
Esse desfecho é eloquente. Ele sugere que Galípolo não cedeu à pressão ilegítima. Sugere que, mesmo diante de um dos centros de poder mais temidos do país, prevaleceu a institucionalidade, o dever funcional e a autonomia técnica. Num país em que tantos se dobram antes mesmo de serem pressionados, esse não é um detalhe menor, é um marco.
Se assim foi, Galípolo não apenas cumpriu seu papel. Ele o elevou.
“Ave, Galípolo, morituri te salutant!”
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Com o pé esquerdo
A expressão idiomática “entrar com o pé esquerdo” significa iniciar algo de forma infeliz, azarada ou desastrosa, o oposto de “entrar com o pé direito”, associado a sorte e bons presságios. Sua origem remonta a antigas superstições, comuns a diversas culturas. O lado direito era tradicionalmente associado ao divino e ao auspicioso, como nos rituais romanos e cristãos, nos quais o “direito” simbolizava bênção e correção. Já o lado esquerdo foi historicamente ligado ao infortúnio e ao maligno, o que explica a palavra “sinistro”, derivada do latim sinister, que significa justamente “esquerdo”.
A força simbólica dessa crença atravessou línguas e séculos. Em inglês, a expressão equivalente é "get off on the wrong foot" (começar com o pé errado), carregando a mesma herança supersticiosa, com raízes medievais. Em espanhol, usa-se "empezar con el pie izquierdo", expressão consagrada na literatura: em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, o protagonista “entra com o pé esquerdo” em suas aventuras ao confundir moinhos com gigantes logo no início da obra, um começo delirante que satiriza o idealismo equivocado. Em francês, há "mettre le pied dans le plat" (pôr o pé no prato), e em alemão, "mit dem falschen Fuß aufstehen" (levantar com o pé errado).
Na minha infância, em Várzea Alegre, quando começaram a aparecer as sandálias do tipo Havaianas, era comum que as tiras se soltassem, o que se chamava de “quebrou o cabresto”. A expressão remetia à ideia de algo que se desprende, que se solta das amarras, que “desembesta”. Pois bem: usando essa linguagem livre e simbólica, pode-se dizer que as sandálias Havaianas quebraram o cabresto neste final de ano e caminham para iniciar 2026 com o pé esquerdo.
Tudo começou com uma publicidade desastrosa, veiculada recentemente, em que a consagrada atriz Fernanda Torres abre o vídeo dizendo: “Não quero que você comece 2026 com o pé direito”. O problema é que Fernanda Torres é uma atriz sabidamente identificada com a esquerda. Poucos dias antes, ela havia participado de um ato público, em trio elétrico e com microfone em mãos, protestando contra o projeto de lei que propõe nova dosimetria para as penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro, o episódio que parte da narrativa oficial denomina “trama golpista”.
A repercussão negativa foi intensa e imediata. Diante da enxurrada de críticas nas redes sociais, incluindo pedidos explícitos de boicote por parte de um amplo segmento da sociedade, a Havaianas decidiu retirar a campanha publicitária estrelada por Fernanda Torres de suas plataformas. Para esse público crítico, o conteúdo do vídeo possuía conotação política clara, o que motivou acusações de “politização esquerdista” da marca.
Enquanto isso, a principal concorrente agiu rapidamente. A marca Ipanema lançou um anúncio de última hora, em nítido contraste com o comercial da Havaianas. A nova campanha trouxe mulheres femininas vestindo camisas com as cores da bandeira do Brasil. O efeito foi imediato: em poucas horas, a Ipanema conquistou milhares de novos seguidores nas redes sociais, além de ampla repercussão em comentários, curtidas e compartilhamentos.
Diante desse cenário, profissionais de publicidade avaliam que a Havaianas deu um tiro no pé, e não apenas no direito. Ao que tudo indica, a marca caminha para entrar em 2026 com o pé esquerdo.
domingo, 21 de dezembro de 2025
Um exercício de futurologia
O ano é 2030. Pela primeira vez em muito tempo, a política brasileira apresenta uma inversão curiosa: o maior problema não está do lado do fracasso, mas do êxito.
À frente do Palácio do Planalto, Flávio Bolsonaro conclui um mandato considerado bem-sucedido até mesmo por críticos moderados. Entregou estabilidade institucional, previsibilidade econômica, redução do ruído ideológico externo e um governo sem sobressaltos graves. Jovem ainda, com capital político intacto, Flávio pleiteia legitimamente a recondução para o mandato 2030 – 2034. Nada mais natural em qualquer democracia funcional.
Mas eis que surge o dilema. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas encerra seu segundo mandato como governador com uma marca inédita: torna-se, por consenso amplo, o melhor governador da história do estado. Infraestrutura entregue, contas organizadas, segurança pública em patamar recorde, obras concluídas e um modelo de gestão que extrapola fronteiras estaduais. O Sudeste, motor econômico do país, clama por sua candidatura ao Planalto.
E é exatamente aí que nasce o problema da direita. Não se trata de um embate entre incompetência e esperança, nem de um duelo entre extremos ideológicos. O impasse é mais sofisticado e, por isso mesmo, mais difícil.
De um lado, um presidente bem avaliado, no exercício do cargo, com o argumento democrático mais forte que existe: “time que está ganhando não se mexe”. De outro, um gestor consagrado, com aura técnica, capacidade comprovada e o apoio espontâneo do maior colégio eleitoral do país, capaz de ampliar a coalizão para além da direita tradicional.
Qualquer decisão gera custo: manter Flávio e frustrar a expectativa de renovação nacional em torno de Tarcísio ou lançar Tarcísio e interromper um governo que funciona, abrindo mão da continuidade. Não é uma crise. É um luxo político, algo raro na história recente do Brasil.
A esquerda, por sua vez, não enfrenta esse tipo de angústia. Em 2030, resolve o problema de forma simples, quase burocrática: vai de Lula novamente.
Aos 86 anos, Lula retorna ao discurso já testado, às narrativas conhecidas, aos símbolos de sempre. Garantirá que ao fim do seu quarto mandato, "cada brasileiro e brasileira estará tomando café da manhã, almoçando e jantando". Não há disputa interna real, nem sucessão organizada, nem novos quadros com musculatura eleitoral suficiente. A esquerda não debate projetos de futuro, debate longevidade política. É a antítese do dilema da direita: onde há escassez de opções, não há conflito.
Isso posto, não vai falar nada sobre o Ministro Alexandre de Moraes, Mãe Dinah?
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Paris
Paris oferece uma mistura rara e irresistível. É a cidade onde os cartões-postais ganham matéria: a Torre Eiffel recortando o céu, o Louvre guardando séculos de arte, o Arco do Triunfo impondo respeito ao final da Champs-Élysées. Ao mesmo tempo, é um mergulho contínuo em cultura. Museus, arquitetura, história viva em cada esquina, da Notre-Dame ao Sacré-Cœur.
Mas Paris não é só monumento. É sabor. É o croissant ainda morno pela manhã, os queijos que desafiam qualquer dieta, os cafés que convidam à conversa sem pressa. É também o vinho, talvez os melhores do mundo, e a champanhe mais sedutora da França, bebida como se fosse parte da respiração da cidade. Some-se a isso o charme de bairros como Montmartre e Le Marais, os passeios preguiçosos às margens do Sena e as compras quase obrigatórias de cosméticos franceses. Paris agrada a todos os gostos e, curiosamente, consegue fazê-lo sem perder identidade.
Minha história com Paris atravessa o tempo. A primeira vez que ali estive foi na década de 1970; a última, já no recente ano de 2023. Vi a cidade mudar, modernizar-se, tornar-se mais diversa e, em certos aspectos, mais cautelosa. Mas vi também aquilo que parecia imutável: sua capacidade de encantar.
Tive o privilégio de viver Paris em duas viradas de ano. A chamada Cidade do Amor, ou Cidade Luz (La Ville Lumière), como preferir, revela-se de maneira única no Réveillon. Centenas de milhares de pessoas tomam a Champs-Élysées. Bebem, cantam, caminham sem rumo certo, num movimento coletivo que lembra a saída do Maracanã em dia de Fla-Flu. É festa, é catarse, é comunhão.
Nessa noite específica, algo mágico acontece: desconhecidos se beijam como velhos amigos de infância. Não há constrangimento, não há cálculo. Apenas a celebração do tempo que se encerra e do que começa. Essa é a lembrança que guardo dos meus dois Bonne Année parisienses. Pelo menos era assim.
Ontem, no entanto, li que as autoridades de Paris, pressionadas pelo temor de atentados terroristas, cancelaram as grandes celebrações de Ano-Novo. Não mais beijos na Champs-Élysées. Não mais champanhe compartilhada sob as luzes. Não mais Bonne Année coletivo.
É difícil não sentir um aperto. Paris sempre foi símbolo de liberdade, encontro, alegria pública. Ver essa tradição silenciada pela insegurança do mundo moderno soa como uma perda que vai além da cidade, é um sinal dos tempos. Tristes tempos!
Ainda assim, Paris tenta resistir. Talvez mais contida, talvez mais vigiada, mas ainda Paris. A cidade da luz pode apagar algumas lâmpadas, mas sua chama cultural, histórica e afetiva permanece acesa na memória de quem a viveu.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
A Lei da Causa e Efeito
Só existe uma lei infalível no Universo e você pode chamá-la como quiser: Lei da Semeadura, Lei do Retorno, Lei da Causa e Efeito, Lei do Karma, Princípio da Causalidade, Lei da Atração, Lei da Plantação, Lei da Reciprocidade… escolha o nome. Mas que ela não falha, não falha mesmo!
Como cidadão que se esforça para permanecer razoavelmente bem informado, observo a política nacional com uma mistura de interesse e crescente indignação. De um lado, um governo que, às portas do fim, não conseguiu deixar qualquer marca positiva, apenas o rastro de escândalos sucessivos, malversação de recursos públicos e tentativas patéticas de acobertar os “malfeitos” de seus próximos.
A surdina com que foram retirados bilhões de reais das já minguadas aposentadorias de nossos velhinhos ultrapassa qualquer limite de crueldade imaginável. Para completar a humilhação, o dinheiro simplesmente sumiu, quase por inteiro, e agora, por força da Justiça e do clamor público, o governo se vê obrigado a devolver o que foi desviado utilizando, veja só, recursos do Tesouro. A tradução é simples: você foi vítima de um roubo gigantesco… e ainda terá de pagar a conta com os seus impostos. É ser punido duas vezes, sem dó e sem remorso.
O desastre se aprofunda quando voltamos os olhos às estatais. Ali se instalou um rombo absolutamente injustificável, produto do consórcio fatal entre corrupção, incompetência e o velho modelo de loteamento político, fórmula que já havia sido catastrófica em períodos anteriores. O exemplo mais gritante é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos: uma instituição cambaleante, que falha com o cidadão e sufoca as famílias de seus milhares de funcionários.
Enquanto o Executivo se empenha em inviabilizar o país cultivando uma corrupção endêmica, assiste-se a uma guerra silenciosa e profundamente desigual, entre o Judiciário e qualquer força que ouse fazer oposição ao governo. Quem acompanhou a campanha de 2022 e as decisões do Tribunal Superior Eleitoral assistiu, perplexo, a um enredo em que um lado operava com liberdade quase absoluta, enquanto o adversário era cerceado ou punido até por atos rotineiros.
Essa disputa assimétrica persiste. Centenas de pessoas, de todas as idades e condições sociais, foram condenadas a penas desproporcionais por um processo, no mínimo duvidoso, rotulado de “trama golpista”, que imputou à massa inteira crimes gravíssimos como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado entre outros.
Minha mãe, que Deus a tenha ao Seu lado, era uma leoa na defesa dos filhos. Se sabia que alguém havia cometido uma injustiça contra qualquer um de nós, repetia, com a convicção de quem conhecia bem o peso moral da vida: “Não se preocupe. Quando ele morrer, vai direto para a Caldeira 18 do inferno, a mais quente”. Nunca soube de onde ela tirou essa imagem, mas confesso: diante de tanta iniquidade, tamanha desfaçatez e tão profundo desprezo pelo povo nos dias atuais, começo a imaginar que haverá uma fila quilométrica rumo à tal Caldeira 18. Ninguém escapa da infalível Lei da Causa e Efeito.
Como cidadão que se esforça para permanecer razoavelmente bem informado, observo a política nacional com uma mistura de interesse e crescente indignação. De um lado, um governo que, às portas do fim, não conseguiu deixar qualquer marca positiva, apenas o rastro de escândalos sucessivos, malversação de recursos públicos e tentativas patéticas de acobertar os “malfeitos” de seus próximos.
A surdina com que foram retirados bilhões de reais das já minguadas aposentadorias de nossos velhinhos ultrapassa qualquer limite de crueldade imaginável. Para completar a humilhação, o dinheiro simplesmente sumiu, quase por inteiro, e agora, por força da Justiça e do clamor público, o governo se vê obrigado a devolver o que foi desviado utilizando, veja só, recursos do Tesouro. A tradução é simples: você foi vítima de um roubo gigantesco… e ainda terá de pagar a conta com os seus impostos. É ser punido duas vezes, sem dó e sem remorso.
O desastre se aprofunda quando voltamos os olhos às estatais. Ali se instalou um rombo absolutamente injustificável, produto do consórcio fatal entre corrupção, incompetência e o velho modelo de loteamento político, fórmula que já havia sido catastrófica em períodos anteriores. O exemplo mais gritante é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos: uma instituição cambaleante, que falha com o cidadão e sufoca as famílias de seus milhares de funcionários.
Enquanto o Executivo se empenha em inviabilizar o país cultivando uma corrupção endêmica, assiste-se a uma guerra silenciosa e profundamente desigual, entre o Judiciário e qualquer força que ouse fazer oposição ao governo. Quem acompanhou a campanha de 2022 e as decisões do Tribunal Superior Eleitoral assistiu, perplexo, a um enredo em que um lado operava com liberdade quase absoluta, enquanto o adversário era cerceado ou punido até por atos rotineiros.
Essa disputa assimétrica persiste. Centenas de pessoas, de todas as idades e condições sociais, foram condenadas a penas desproporcionais por um processo, no mínimo duvidoso, rotulado de “trama golpista”, que imputou à massa inteira crimes gravíssimos como organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado entre outros.
Minha mãe, que Deus a tenha ao Seu lado, era uma leoa na defesa dos filhos. Se sabia que alguém havia cometido uma injustiça contra qualquer um de nós, repetia, com a convicção de quem conhecia bem o peso moral da vida: “Não se preocupe. Quando ele morrer, vai direto para a Caldeira 18 do inferno, a mais quente”. Nunca soube de onde ela tirou essa imagem, mas confesso: diante de tanta iniquidade, tamanha desfaçatez e tão profundo desprezo pelo povo nos dias atuais, começo a imaginar que haverá uma fila quilométrica rumo à tal Caldeira 18. Ninguém escapa da infalível Lei da Causa e Efeito.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
Jumenta de Balaão
A expressão “jumenta de Balaão” vem da Bíblia, mais especificamente do livro de Números, capítulo 22. Tornou-se uma expressão popular para se referir a alguém considerado teimoso, obtuso ou que fala sem perceber o que está dizendo.
Balaão era um profeta contratado pelo rei Balaque para amaldiçoar o povo de Israel. No caminho, montado em sua jumenta, Balaão é parado por um anjo enviado por Deus — mas só a jumenta consegue ver o anjo. Para evitar que Balaão avançasse e fosse morto, o animal se desvia três vezes. Balaão, sem entender nada, bate na jumenta repetidamente.
Nesse momento, acontece o episódio famoso:
• Deus abre a boca da jumenta, e ela fala com Balaão, perguntando por que está sendo espancada.
• Em seguida, Balaão finalmente tem seus olhos abertos e vê o anjo.
(Eu não conhecia a expressão. Extrai-a do texto abaixo e fui pesquisar para compreendê-lo)
"O cara tomou uma facada.
Durante a fraudemia teve as suas mãos amarradas, enquanto lutava para que eu e você pudéssemos sair de casa para ganhar a vida e cultuar a Deus.
Foi massacrado por sugerir medicamentos que o tempo demonstrou serem altamente eficazes.
Virou um pária por defender o meu direito de escolher ser ou não inoculado por um experimento científico.
Foi bombardeado pela mídia prostituída 24 horas por dia, sete dias na semana.
Foi perseguido por todo o sistema controlado pelo crime organizado.
Sabotaram por meios "legais" toda a sua campanha.
Os presídios celebraram sua derrota.
O mundo woke celebrou sua derrota.
Os que gritam "Viva Hamas!" celebraram sua derrota.
Os antissemitas celebraram sua derrota.
O cara que quer ver homem em banheiro de mulher e criança celebrou sua derrota.
O cara que quer matar crianças cada vez maiores no ventre da mãe celebrou sua derrota.
O cara que odeia a tradição judaico-cristã celebrou sua derrota.
O cara que te processa por você dizer que uma mulher é uma mulher celebrou sua derrota.
Pensa bem, mané.
Olha os meus cabelos brancos.
Você acha que tô preocupado com composição política, rejeição ou pesquisa eleitoral?
Fala sério.
Tô preocupado com os meus princípios e pautas.
Se ele indicar a jumenta de Balaão eu voto nela.
Sabe por quê?
Porque ainda visto calça.
Ponto final.
Vai encher na tua página."
(Neto Curvina)
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Perdemos a capacidade de nos indignar!
Talvez seja interessante memorizar o nome dos deputados em vermelho
Diante dos últimos escândalos, Banco Master, INSS e o festival de absurdos que se tornou rotina, o brasileiro médio atingiu a iluminação zen. Nada mais choca, nada mais revolta, nada mais incomoda. Se amanhã anunciarem que o Tesouro foi trocado por vale-coxinha, metade do país vai achar normal e a outra metade vai perguntar se tem desconto à vista.
Crimes contra o povo? Fraudes bilionárias? A economia popular sangrando? Tudo virou detalhe. A sociedade está tão dormente que, se o país pegasse fogo, muita gente acharia que é o “clima seco”.
Enquanto isso, decisões judiciais surgem atropelando a Constituição, o bom senso e a vontade popular como quem passa com o trator pela horta do vizinho. Vivemos, na prática, um regime de exceção gourmet, cuidadosamente embalado e servido pelo STF, que escolhe com precisão cirúrgica quais escândalos devem ser ignorados, ou até acariciados.
E o mais irônico? A nata pensante do país, jornalistas, analistas, formadores de opinião, transformou-se numa plateia de jardim de infância: bate palminha, olha para o teto e finge que não está vendo nada. O país desaba e eles preocupados com o enquadramento da câmera e com a pauta do próximo podcast.
Num cenário desses, resta apenas recorrer à sabedoria popular: “Só Jesus na causa!” E, honestamente, no ritmo em que vamos, nem Ele deve estar muito otimista...
Diante dos últimos escândalos, Banco Master, INSS e o festival de absurdos que se tornou rotina, o brasileiro médio atingiu a iluminação zen. Nada mais choca, nada mais revolta, nada mais incomoda. Se amanhã anunciarem que o Tesouro foi trocado por vale-coxinha, metade do país vai achar normal e a outra metade vai perguntar se tem desconto à vista.
Crimes contra o povo? Fraudes bilionárias? A economia popular sangrando? Tudo virou detalhe. A sociedade está tão dormente que, se o país pegasse fogo, muita gente acharia que é o “clima seco”.
Enquanto isso, decisões judiciais surgem atropelando a Constituição, o bom senso e a vontade popular como quem passa com o trator pela horta do vizinho. Vivemos, na prática, um regime de exceção gourmet, cuidadosamente embalado e servido pelo STF, que escolhe com precisão cirúrgica quais escândalos devem ser ignorados, ou até acariciados.
E o mais irônico? A nata pensante do país, jornalistas, analistas, formadores de opinião, transformou-se numa plateia de jardim de infância: bate palminha, olha para o teto e finge que não está vendo nada. O país desaba e eles preocupados com o enquadramento da câmera e com a pauta do próximo podcast.
Num cenário desses, resta apenas recorrer à sabedoria popular: “Só Jesus na causa!” E, honestamente, no ritmo em que vamos, nem Ele deve estar muito otimista...
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
General Augusto Heleno Ribeiro Pereira
O General Augusto Heleno Ribeiro Pereira é um dos militares mais respeitados de sua geração, reconhecido pela excelência, patriotismo e dedicação exemplar ao Brasil.
🪖 Formação e trajetória militar
Nascido em 1947, no Rio de Janeiro, Heleno ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde se formou em 1969 como primeiro colocado de sua turma. Ao longo da carreira, destacou-se em todos os cursos que compõem a formação dos oficiais de elite do Exército, sendo “tríplice coroado” — isto é, primeiro colocado nos três principais cursos da carreira militar:
• AMAN (formação de oficiais),
• Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO),
• Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME).
Esse feito é raríssimo e simboliza a combinação de inteligência, disciplina e liderança que marcaram toda a sua vida militar.
🌎 Missão no exterior e prestígio internacional
Heleno ganhou projeção internacional ao comandar, entre 2004 e 2005, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Com firmeza e humanidade, conduziu uma operação de pacificação em um ambiente de grande instabilidade, sendo elogiado pela ONU, por governos estrangeiros e pela população haitiana. Sua liderança deu credibilidade e destaque ao Exército Brasileiro no cenário mundial.
🇧🇷 Serviço ao país no governo
Após passar para a reserva, o General Heleno continuou servindo ao país, tornando-se uma voz respeitada na defesa das Forças Armadas, da soberania nacional e dos valores democráticos.
Em 2019, foi nomeado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo do presidente Jair Bolsonaro, cargo estratégico junto à Presidência da República. No GSI, manteve uma atuação pautada pela lealdade à Constituição, pela segurança institucional e pela defesa da integridade do Estado brasileiro.
🏅 Reconhecimento e legado
Ao longo de sua brilhante carreira, recebeu inúmeras condecorações militares e civis, tanto no Brasil quanto no exterior.
É lembrado como um oficial que honrou a farda e serviu à pátria com honra, coragem e integridade, inspirando gerações de militares e civis.
Em resumo, o General Augusto Heleno é símbolo de mérito, patriotismo e retidão, um brasileiro que dedicou sua vida a servir e engrandecer o Brasil, sempre fiel aos valores que fazem das Forças Armadas um pilar de respeito, ordem e amor à pátria.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Cuida, Sidrônio!
Sidônio Palmeira, publicitário e marqueteiro responsável pela campanha presidencial de Lula em 2022, foi oficialmente contratado e empossado como ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) em 14 de janeiro de 2025.
Quaest - Sobre o Governo Lula
(29 de janeiro de 2025)
47 - aprovação
49 - reprovação
2.004 entrevistas presenciais: ±2 pp
Quaest - Sobre o Governo Lula
(9 de novembro de 2025)
47 - aprovação
50 - reprovação
2.004 entrevistas presenciais: ±2 pp
Cuida, Sidrônio!!
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
Missão impossível ou sabotagem planejada?
Consta nos bastidores de Brasília e de Washington que Mauro Vieira (chanceler brasileiro) e Fernando Haddad (ministro da Fazenda) estão tentando mais uma audiência com dois dos nomes mais influentes do governo Trump 2.0: Marco Rubio, que ocupa simultaneamente o cargo de Secretário de Estado e o posto de Conselheiro de Segurança Nacional e Jamieson Greer, o novo Representante de Comércio dos Estados Unidos (U.S. Trade Representative), e ambos são figuras centrais na formulação da política externa e comercial norte-americana, especialmente neste segundo mandato, marcado por linhas duras, pragmatismo absoluto e uma clara reorientação estratégica do papel dos EUA no mundo.
De acordo com fontes diplomáticas, se Vieira e Haddad conseguirem a reunião, o que já é, por si só, uma barreira, pretendem apresentar como pauta a retirada da sobretaxa de 40% imposta aos produtos brasileiros e a revogação das sanções aplicadas pelo governo americano aos membros do Executivo, Legislativo e sobretudo do Judiciário brasileiros.
A intenção pode ser nobre. O plano, porém, é frágil. E os executores, ainda piores. Vamos aos fatos: a dupla escolhida para essa missão já demonstrou reiteradas vezes incapacidade operacional e política.
Mauro Vieira, apesar das décadas de carreira diplomática, conduz um Itamaraty cada vez mais esvaziado, ideologizado e submisso às prioridades do Planalto. Fernando Haddad, por sua vez, é um economista que tenta equilibrar o discurso de responsabilidade fiscal com as pressões internas do partido, e não agrada nem à ala pragmática, nem à ala ideológica do governo.
Agora imagine esses dois, juntos, tentando convencer o responsável por toda a política comercial americana e o Secretário de Estado mais influente desde a Guerra Fria e atual Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, a simplesmente voltarem atrás em decisões estratégicas de Trump. E tudo isso sem levar absolutamente nada para negociar.
É como ir a uma mesa de poker internacional com as mãos vazias, contra adversários que jogam com cartas marcadas, calculadora política e milhões de empregos americanos na retaguarda.
É ingenuidade? É incompetência? Ou é outra coisa? O mais intrigante nesse movimento não é a ingenuidade da missão, é eventualmente o fato de talvez o fracasso não ser um acidente, mas um plano.
Se o governo realmente quisesse negociar com o governo Trump, enviaria negociadores profissionais, diplomatas experimentados em crises e quadros técnicos com capacidade real de barganha.
Mas escolheu Vieira e Haddad. Por quê? Aqui, entra a hipótese incômoda: talvez o governo não queira um acordo. Porque, se a missão fracassar, e tudo indica que fracassará, o Planalto terá a narrativa perfeita:
“Os EUA foram intransigentes. As sanções são injustas. Precisamos buscar parceiros mais compreensivos.”
E adivinhe quem surge imediatamente nessa equação? Aquela velha “civilização ancestral”, o gigante asiático, sempre pronto para acolher governos que desejam relações menos transparentes, menos fiscalizadas e mais convenientes.
Quanto pior for a relação com os EUA, quanto mais distante o Brasil estiver do Ocidente, quanto mais difícil for reverter as sanções, mais fácil será mergulhar de cabeça na influência chinesa.
Entregar uma tarefa hercúlea a quem não tem preparo, autoridade ou carta de negociação não é apenas erro, é quase uma assinatura. Se o objetivo fosse resolver, os emissários seriam outros. Se o objetivo fosse negociar, haveria concessões estudadas. Se o objetivo fosse reaproximar-se dos EUA, a estratégia seria profissional.
Mas não é isso o que se vê. O governo do PT parece preferir o conflito ao entendimento, o isolamento à integração e a aproximação automática com a China a qualquer esforço de reaproximação com o Ocidente. A missão de Vieira e Haddad, nesse sentido, serve mais como álibi do que como esperança.
Quando se envia quem não pode resolver, o fracasso não é acidente, é propósito.
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