domingo, 23 de março de 2025

O Brasil Está Doente


Este país está profundamente enfermo. Não apenas por seus escândalos políticos e pela violência cotidiana, mas pela perda progressiva da empatia e do senso de proporção em sua própria estrutura de justiça e em sua sociedade civil.

Condenar uma mulher trabalhadora, sem antecedentes criminais, à inacreditável pena de 14 anos de prisão pelo simples ato de escrever com batom as palavras "Perdeu, Mané" na base de uma estátua é, no mínimo, uma aberração jurídica e moral. Ainda que não se deseje banalizar ou normalizar a conduta, não há como aceitar que um gesto simbólico e isolado receba tratamento penal próximo ao de crimes hediondos.

Mais estarrecedor do que a sentença, no entanto, foi descobrir o ódio enraizado em parte da sociedade. Ao navegar pelas redes sociais, o que se viu foi um espetáculo de celebração da desgraça alheia. Comentários, em sua maioria de mulheres, aplaudiam o voto do Ministro Relator, algumas inclusive sugerindo aumento da pena. Isso, por si só, já seria chocante. Mas o que torna o quadro ainda mais grave é que essas manifestações partiram de pessoas que provavelmente também são mães.

A mulher condenada é mãe de duas crianças, de 9 e 6 anos. Nem isso pareceu tocar o coração daquelas que, historicamente, são moldadas para proteger e acolher. O que se viu foi um silêncio ensurdecedor por parte do instinto maternal. A cegueira ideológica se sobrepôs à empatia. A militância tornou-se mais forte do que o senso de humanidade.

Vivemos uma época em que o desejo de punição supera o desejo de justiça. Em que o prazer em ver o "inimigo" sofrer se sobrepõe ao princípio da razoabilidade. Onde não há mais espaço para compaixão, apenas para vingança travestida de legalidade.

Sim, a sociedade brasileira está doente. Muito doente. E a doença não se resume às instituições. Ela se infiltrou nos corações e mentes. Quando o sofrimento de uma mulher, de uma mãe, se torna motivo de festa, não estamos mais lidando com justiça. Estamos lidando com barbárie socialmente aceita.

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