domingo, 21 de outubro de 2018

Quem criou Jair Bolsonaro?



Apesar de estar no sétimo mandato de deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro, a larga maioria dos brasileiros nunca tinha ouvido falar em Jair Bolsonaro até recentemente. O despreparado e politicamente incorreto capitão reformado do exército, cujo nome do meio é Messias, não é personagem de um movimento específico do Brasil. Remeta-se à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, à vitória do Brexit no Reino Unido, ao fortalecimento de partidos de centro-direita e extrema-direita na Europa, etc. Mas isso, por si só, não explicaria a meteórica e surpreendente ascensão do militar ao cenário político nacional.

Após mais de 13 anos de supremacia do PT, com extraordinário sucesso no primeiro governo Lula, abalado então no final do termo pelo que se convencionou chamar de mensalão, acentuou-se para a reeleição do presidente em 2006 a imagem do "nós contra eles". Com efeito, após explorar à exaustão esse conceito na campanha eleitoral, o primeiro discurso de Lula após o resultado do pleito (ganhou a eleição em segundo turno, com 60,83% dos votos) reafirma claramente que "o andar de baixo venceu o andar de cima", ao contrário da "esperança venceu o medo" da primeira eleição.

O segundo termo do presidente Lula foi marcado pelas jogadas de marketing do competente João Santana, culminando com o lançamento do PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, que quase nada tinha de novo. “O programa não se sustentava na calculadora, mas foi festejado pela militância petista, pela mídia e especialmente pelos grandes empresários, certos de que teriam acesso a muito dinheiro. O povo acreditou que Lula estava construindo um futuro de prosperidade econômica e social”. No rastro desse programa, e porque o virtual candidato a substituir Lula num próximo mandato - José Dirceu - estava sendo investigado por corrupção e outros crimes, Lula passou a "vender" a imagem da sua ministra Dilma Roussef como uma grande executiva ("mãe do PAC"). Essa seria sua candidata e substituta.

O tempo é o senhor da razão, diz a sabedoria popular. E o tempo demonstrou que nem Dilma era uma competente gestora e muito menos estava preparada para lidar com um presidencialismo de coalizão à brasileira. Some-se a isso a chegada da fatura dos gastos sem controle dos dois termos anteriores, a queda dos preços das commodities, etc. Sentindo o faro da ameaça à reeleição da presidente, Lula tentou iniciar um movimento para substituí-la, mas ela própria e seu núcleo duro que a rodeava, conseguiram neutralizar esse movimento e apesar de ter ganho a eleição, Dilma desaguou no melancólico fim que todos sabemos.

Após seu impedimento em 31 de agosto de 2016, assumiu seu vice-presidente, Michel Temer. Não há necessidade de uma análise mais aprofundada da gestão Temer. Basta que se diga que "nunca antes na história deste país", tivemos um governo tão rejeitado. "Levantamento CNI/Ibope divulgado na tarde desta quarta-feira, 26 de setembro, mostrou que 82% dos brasileiros consideram o atual governo Michel Temer (MDB) como "ruim" ou "péssimo", sendo essa a pior avaliação desde o início do governo. Em junho deste ano, o porcentual era de 79%. Já a população que avalia a administração atual como boa ou ótima manteve-se em 4%, a mesma observada em junho”.

Desenhado esse cenário somado à energia mundial de uma guinada conservadora, surge um capitão reformado que "assim como Trump, Bolsonaro agrada a muitos eleitores por ser visto como um político outsider, que está fora dos esquemas da política tradicional. Ambos não medem as palavras para se expressar e não se furtam em usar palavrões ou ofender alguém – e assim passam a sensação de estarem falando a verdade." Na esteira dos escândalos de corrupção que abalaram a república, envolvendo os maiores partidos e principalmente o Partido dos Trabalhadores, estabelece-se um candidato que em linhas gerais defende a luta contra a corrupção, o conservadorismo nos costumes e o liberalismo na economia. É pouco? Muito, muito pouco. Muito superficial. Mas o seu adversário direto, Fernando Haddad, além de ter que arcar com uma profunda rejeição ao seu partido, o PT, tem sido obrigado a fazer "flexibilizações" no seu programa de governo, de tal sorte que pela terceira vez há registrado mudanças em bandeiras históricas da esquerda brasileira.

O jornalista Josias de Sousa escreveu no último dia 10/10 em seu blog:

"O PT chega ao segundo turno da eleição presidencial um pouco como o personagem da anedota, que mata pai e mãe e, no dia do julgamento, pede misericórdia com um pobre órfão. O PT quer a compreensão de todos para formar uma “frente democrática” de combate a Bolsonaro, personagem que o partido mesmo ajudou a criar com suas cleptogestões e seus pendores hegemônicos. A diferença entre o PT e o ''órfão'' da piada é que o PT deseja que o perdoem sem pedir perdão... "

Hoje, 21 de outubro, a sete dias do segundo turno, a julgar pelas pesquisas divulgadas recentemente, a eleição encontra-se virtualmente definida. Os números do Ibope e Datafolha, quase completamente coincidentes, apontam para 18% de maioria para o candidato do PSL. O jogo está praticamente jogado. Resta-nos a nós, simples mortais, ou melhor dizendo simples eleitores, buscarmos o melhor caminho para o país e rezarmos, rezarmos muito para que aquele que venha a dirigir essa grande nação, inicie o movimento de inflexão ao caminho da paz e do desenvolvimento.

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Atualizado em 17 de maio de 2021, às 19:09h

De Diogo Mainard na Revista Crusoé:

Lula "...preparou o terreno para o triunfo de Jair Bolsonaro, seu verdadeiro poste, que cumpriu a missão de perseguir Sérgio Moro e aniquilar a Lava Jato, aliando-se aos Ministros do STF que anularam todos os seus processos."

sábado, 20 de outubro de 2018

Jamal Khashoggi, o jornalista saudita desaparecido.

Tenho acompanhado pela imprensa internacional, o noticiário em torno do desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi. O senhor Kashoggi havia ido à Turquia para solicitar à embaixada do seu país, um documento que lhe permitiria casar com a noiva turca. Muito há de se comentar sobre esse episódio, mas gostaria de centrar minha atenção apenas no triângulo Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos. Como cada país eventualmente criará sua versão para os fatos, de sorte que livre o envolvimento dos seus maiores.

A Arábia Saudita, pelo fato do “desaparecimento” ter acontecido no seu território (porque dentro de sua embaixada na Turquia), inicialmente negou veementemente o acontecido, afirmando que o jornalista havia sido atendido e saído da embaixada. Diante do clamor internacional, principalmente dos países europeus, deixaram vazar a versão de que, ao ser interrogado, aconteceu um acidente e ele havia morrido. Parece-me uma preparação para jogar a culpa em um oficial subalterno qualquer, isentando as autoridades da embaixada e mais que isso, do governo saudita, de toda e qualquer culpa. Isso poderá acontecer nas próximos dias.

Os Estados Unidos, porque o senhor Khashoggi era também cidadão americano e correspondente de um dos mais influentes jornais daquele país, inicialmente, através do seu presidente Donald Trump, cobrou a solução do episódio com veemência, insinuando até que poderia haver retaliação contra a Arábia. O leão transformou-se em um gatinho indolente, tão logo o rei da Arábia (Salman bin Abdulaziz Al Saud) falou-lhe ao telefone. A entrevista de hoje do presidente Trump, já teve um ar absolutamente conciliador, enquanto enviava seu Secretário de Estado para uma visita ao reinado. Compreensível. Mais do que estar entre os três maiores produtores de petróleo e gás do planeta e os trinta e um bilhões de dólares anuais de comércio bilateral, a Arábia Saudita é o mais fiel e longevo aliado americano naquela parte do mundo, de fundamental importância para a geopolítica dos Estados Unidos. É portanto do interesse americano, aceitar qualquer que seja a versão engendrada pelo reino árabe para justificar um eventual assassinato do jornalista.

E como fica a Turquia? Ora, esse país afirma, com rara convicção, que existem provas do assassinato do jornalista por membros da inteligência saudita. Para livrar-se da acusação de espionagem no território da Arábia Saudita (as embaixadas são consideradas território do país que as nomeia, sendo portanto invioláveis), criou uma fantasiosa versão de que áudios gravados testemunhando a tortura e assassinato do jornalista, haviam sido transmitidas pelo seu relógio para o celular que se encontrava na posse da noiva, do lado de fora da embaixada. E assim caminha a humanidade, com cada país criando as mentiras para sua conveniência. Não nos enganemos: todos vão aceitar as versões de todos. O “The Washington Post” fica sem seu colaborador e a noiva fica sem seu futuro marido.



Atualizado em 20/10/2018

O governo Saudita, pela primeira vez admite que o jornalista Jamal Khashoggi foi morto dentro do consulado, "em uma briga com agentes".

O presidente Trump acaba de dar uma entrevista afirmando que "ainda é cedo para os Estados Unidos decidirem se vão estabelecer alguma sanção ao país".

Só falta a Turquia liberar a fita gravada com a prova da tortura de Jamal. Mas deve estar esperando que a comunidade internacional venha a digerir completamente sua versão do relógio e do celular da vítima. Afinal, espionar consulado ou embaixada diz respeito à imunidade e à inviolabilidade diplomática, previstas na Convenção de Viena sobre as Relações Diplomáticas.



Atualizado em 13/12/2018

O Senado americano acaba de aprovar nesta quinta-feira, por unanimidade, uma resolução condenando o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pelo assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, aumentando a pressão sobre o presidente Donald Trump, que se alinhou ao reino saudita após o assassinato brutal.

Mais informação no site oficial da CNN em ===> https://edition.cnn.com/2018/12/13/politics/corker-saudi-crown-prince-khashoggi/index.html

A DEMOCRACIA DA VENEZUELA

Em maio de 2018, mais precisamente no dia 20, o presidente Maduro foi reeleito para mais um mandato de seis anos (será presidente até 2025) à frente do governo venezuelano. A eleição, com a oposição fragmentada entre meia dúzia de líderes, foi recheada de denúncias por ter horário ampliado, suspeitas de fraude, boicote de parte da oposição, abstenção de 54% etc.

Apesar de todo o aparato paramilitar de pressão, utilização desavergonhada da máquina pública, distribuição de benesses e ameaças, o candidato à reeleição teve apenas algo em torno de 67% dos votos apurados. Pouco mais de 29% dos aptos a votar. Qual a legitimidade de um governante que é eleito com esse percentual de votos do seu povo?

Desde então, a crise do país vizinho só foi agravada. O sumiço de comidas das gôndolas dos supermercados, os constantes apagões, o caos da saúde com o desabastecimento de medicamentos, transporte, água, inflação em inimagináveis 1.000.000% (hum milhão por cento) prevista para este ano, são o retrato real da desgraça que se abateu sobre aquele povo.

Por conta desse quadro dantesco, os habitantes da Venezuela têm fugido do seu território por todos os meios e para todos os lados. É assim que, segundo a Organização Internacional das Migrações, a Venezuela tem números semelhantes aos da crise no mediterrâneo. “De acordo com porta-voz da OIM, as cerca de 40 mil pessoas por mês que deixam a Venezuela em direção à Colômbia se assemelham ao número de imigrantes que chegavam à Itália em 2015, no auge da crise de refugiados.”

O êxodo venezuelano, estimado em próximos de 2,3 milhões de pessoas desde 2014, já é razão de preocupação para toda a América Latina. A chegada maciça dessas pessoas nos países próximos, colapsando as infraestruturas locais, já começam a gerar indesejáveis surtos de xenofobia. Essa fuga incontrolável do território venezuelano, remete às fugas da Cuba de Fidel. Com a diferença substancial que Cuba é uma ilha, o governo cubano proibia a migração e sua população é muito próxima de um terço apenas (11,48 milhões de habitantes – 2016) da população venezuelana (31,57 milhões de habitantes – 2016). A Venezuela pode despejar milhões de pessoas em curtíssimo espaço de tempo nos países fronteiriços, uma vez que suas fronteiras não são fechadas.

Na edição de ontem (19/09), grande veículo de comunicação impressa do Brasil, publicou a foto abaixo:

“Venezuelano percorre 500km em cadeira de rodas até a Colômbia em busca de remédios.Trajeto feito com filho incluiu montanhas, frio e calor extremos."

Mas nem só de miséria vive a Venezuela. Recentemente, na volta de uma viagem à China, o presidente Maduro fez uma escala em Estambul para, segundo ele, “"Hicimos una parada en Estambul, de Beiging a Estambul casi 12 horas de vuelo", explicó. "Atendí una invitación para visitar el centro histórico de Estambul y almorzar con algunas autoridades de la ciudad". Nas fotos, amplamente divulgadas nas redes sociais, vê-se o consagrado chef Salt Bae, apoiado pelo não menos famoso cozinheiro Nusret Gökçe, servindo suculenta refeição ao governante venezuelano e sua esposa Cilia Flores, com direito ao final pitar um charuto cubano sacado de uma caixa de madeira identificada por uma placa de prata gravada com seu nome. E assim caminha a humanidade...




Atualizado em 14/12/2018

Êxodo venezuelano deve superar 5 milhões em 2019

A ONU afirmou hoje que o número de venezuelanos fugindo do desastre econômico e humanitário da ditadura de Nicolás Maduro deve chegar a 5,3 milhões até o fim de 2019.
Se confirmado esse número, registra a Folha, será o maior êxodo na história moderna latino-americana.
Cerca de metade desse total de refugiados deve optar pela Colômbia; outros devem rumar para Equador, Peru e outros países do Cone Sul, incluindo o Brasil.
Segundo Eduardo Stein, representante especial do Alto Comissariado da ONU, hoje cerca de 5.000 venezuelanos fogem do país todo dia. Em agosto deste ano, houve um pico de 13 mil fugas diárias.
“A região terá de responder a uma emergência que em algumas áreas foi quase semelhante a um grande terremoto”, disse Stein.
Estima-se que, desde 2015, 3,3 milhões de pessoas tenham fugido da catástrofe chavista.

Atualizado em 29/07/2019

Mujica, sobre a Venezuela: “É uma ditadura, sim, nada além de uma ditadura”

Com atraso de alguns anos, José Pepe Mujica, o velhinho amado pela esquerda latino-americana, finalmente reconheceu que o regime de Nicolás Maduro na Venezuela é uma ditadura.

“É uma ditadura, sim, nada além de uma ditadura”, afirmou o ex-presidente do Uruguai ao sair de uma reunião do Movimento de Participação Popular (MPP), grupo que integra a Frente Ampla, coalizão de esquerda que governa o país desde 2005.

Logo em seguida, Mujica citou outras ditaduras. “Mas há também ditadura na Arábia Saudita, com um rei absoluto. Há ditadura na Malásia, onde matam 25 pessoas por dia. E na República Popular da China, o que me dizem?”, perguntou.

Em maio, Mujica foi criticado por um comentário feito sobre a repressão das Forças Armadas chavistas aos manifestantes que pediam a saída de Maduro do poder. Na ocasião, o uruguaio disse que as pessoas “não deveriam ficar na frente dos blindados”.

Donald Trump, mais doido do que "pião cancão"!



O presidente dos Estados Unidos, virtualmente o homem mais poderoso do mundo, escreveu no seu twitter ontem à noite:

Donald J. Trump ‏@realDonaldTrump

Report just out: “China hacked Hillary Clinton’s private Email Server.” Are they sure it wasn’t Russia (just kidding!)? What are the odds that the FBI and DOJ are right on top of this? Actually, a very big story. Much classified information!

A prática inusitada de uma autoridade nesse nível comunicar-se com sua aldeia através de uma rede social, até podia justificar-se pelos "novos tempos, novas tecnologias". Mas envolver outras nações, tão poderosas quanto e com as quais os Estados Unidos nunca tiveram uma relação próxima, e mais que isso escrever que está brincando (just kidding!), é algo absolutamente imperdoável. O cidadão que se investe, aqui ou alhures, de cargo público de tamanha relevância, há que respeitar a majestade do cargo. Exige-se o mínimo de postura de equilíbrio e de tratamento dos assuntos de Estado com seriedade, mormente na maior democracia do planeta.

Junte-se a isso uma série de acontecimentos considerados de gravidade em qualquer país do mundo, tais como:

1 - Recentes problemas judiciais de próximos como seu ex-advogado particular Michael Cohen (que em delação premiada confessou que Trump o teria orientado a pagar para silenciar duas mulheres que teriam tido um caso com o então candidato) e Paulo Manafort, ex-coordenador da campanha de Trump, condenado por júri popular (Grande Júri) por acusação de fraude bancária e tributária, além do lançamento do livro de sua ex-auxiliar Omarose Onee Manigault, acusando-o de racista, sexista, intolerante e em declínio mental.

2 - Inquérito do Procurador Especial Robert Mueller, que investiga se a Rússia interferiu na votação de 2016, se houve um conluio da campanha de Trump com Moscou e se Trump obstruiu a justiça ao demitir o então diretor do FBI James Comey, que estava formalmente encarregado da investigação.

3 - A implantação de um regime sumário de expulsão de indocumentados, separando pais de filhos menores e enjaulando (literalmente) esses últimos em gaiolas de ferro, com grave repercussão internacional.

4 - Discussão pública com seu Secretário de Justiça, o senador republicano Jeff Sessions, por este não obedecer à sua solicitação de que deveria parar as investigações sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016.

5 - Divulgação de opiniões absolutamente inapropriadas, desmerecendo as instituições de inteligência dos Estados Unidos (FBI, CIA, NSA etc.).

6 - Vazamento de comentário (nunca desmentido) da prestigiada assessora de comunicação da Casa Branca, Kelly Sadler, de que a oposição do senador John McCain à nomeação da nova diretora da CIA não importa “porque ele está morrendo de qualquer maneira”. Fato grave se considerarmos que o recém falecido ex-senador John McCain (republicano como Trump) era considerado herói de guerra (ficou mais de cinco anos preso no Vietnam), de família tradicional de membros das forças armadas e um dos mais respeitados senadores do congresso americano. Por isso mesmo o senador John McCain, que planejou seu funeral nos últimos meses após ser diagnosticado com câncer no cérebro, deixou expressamente recomendado que não queria que o presidente Donald Trump participasse das cerimônias do seu sepultamento.

7 - Guerra aberta com a quase unanimidade da mídia americana, acusando-a indiscriminadamente e cotidianamente de gerar "fake news" a seu respeito.

8 - A sem precedente decisão de revogar o acesso aos documentos reservados da inteligência dos Estados Unidos, do ex-diretor geral da CIA John Brennan, e a ameaça de fazê-lo a outros ex- membros dos órgãos de inteligência do país.

Tudo isso, sem contar com as idas e vindas do seu relacionamento com a república da Coréia do Norte, a retirada do acordo de desarmamento com o Irã, a rejeição à Aliança do Pacífico (TPP), a pressão ao congresso americano para aprovar recursos para a construção do discutível muro na fronteira com o México, a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris para controle do clima no planeta (assinado em 2015 por 195 países), seus inúmeros supostos casos de misoginia e racismo etc. etc. etc.

Qualquer dos episódios listados acima, de per si, já justificaria a instrução de um processo de impeachment. Não nos Estados Unidos. Para lembrar o marqueteiro de Bill Clinton, James Carville - "It's the economy, stupid". E para a aparente e temporária salvação de Donald Trump, a economia americana está "bombando", para usar uma expressão tão ao gosto dos jovens. O PIB americano está rondando os 4%, a inflação flerta com 2% ao ano e o índice de desemprego é menor do que 4%, o que é considerado pleno emprego. Com esses indicadores, é improvável que o Congresso ouse abrir um processo de impedimento, mesmo que os Democratas consigam retomar a maioria nas duas casas nas eleições de 6 de novembro próximo (midterm election). Estarão em disputa todas as 435 vagas da Câmara (House of Representatives), 35 das 100 cadeiras do Senado e eleição para governador em 39 estados.

Recentemente, em almoço com amigos em Los Angeles, provoquei um engenheiro americano (republicano apaixonado) para dar-me sua opinião sobre o governo Trump. Ele discorreu uns 15 minutos sobre como o presidente estava cumprindo os compromissos de campanha, da maravilha que vivia a economia etc. Quando terminou, perguntei o mesmo a uma senhora sentada ao meu lado: "no comments", respondeu. Quando o nosso amigo que terminara de dar seu testemunho teve um momento de distração, ela me passou o papel abaixo: assim é o Trump!

sábado, 22 de outubro de 2016

A eleição de Trump




Tive oportunidade de acompanhar nos últimos 16 dias a movimentação acerca da eleição nos Estados Unidos. Foram muitas horas de talk shows, notícias, e principalmente conversas com republicanos e democratas no dia a dia. Na verdade eles não sabem que existem 31 candidatos a presidente do país. Para a maioria, os candidatos são Hillary e Trump. Quando muito, se o nativo for ligado em política, ele fala em Gary Johnson e Bill Stein, candidatos respectivamente do Libertarian Party e Green Party.

Se você pensa que a política brasileira é "suja", tem baixo nível, acompanhe essa eleição de 8 de novembro. No penúltimo debate, Donald Trump patrocinou a presença de duas das ex-amantes de Bill Clinton na primeira fila de convidados, uma vez que estava sendo acusado de "sexual assault" por cerca de 9 mulheres. Esse assunto tem sido explorado diariamente pela mídia, visto que a quase totalidade dos jornais e cadeias de televisão declararam seu apoio à candidata democrata. Para termos uma idéia, 46 dos jornais diários apoiam Hillary, enquanto apenas 3 (jornais regionais e sem expressividade numérica de circulação) declararam apoio ao candidato republicano. É uma tradição local que os veículos de comunicação declarem claramente seu apoio político.

Donald Trump é um bilionário cuja fortuna está ligada à construção civil, e um "outsider" da política americana. Enquanto isso, Hillary é ex-primeira dama do Arkansas, ex-primeira dama do país, senadora por Nova Iorque, ex-secretária de estado americana e absolutamente engajada em movimentos políticos nos últimos 30 anos. Ambos têm uma rejeição anteriormente nunca vistas. Ele por sua incontinência verbal. Promessa de construção de um muro entre o território americano e o México. Favorável à proibição de entrada de mulçumanos no país, expulsão sumária de 11 milhões de indocumentados, relação amistosa com o governo russo (Putin), além de declarações extremamente conservadoras. Hillary, por outro lado, representa o status quo. E assim como no Brasil, os políticos estão muito desacreditados no país. A discussão sobre a vulnerabilidade de seus emails, é apenas o pano de fundo para a acusação de troca de interesses para beneficiar a Fundação Clinton, mantida pelo seu marido e ex-presidente Bill. E ainda a acusação da troca de favores entre a Secretaria de Estado e o FBI. O famoso "quid pro quo", versão americana.

Depois desse curto período, veio-me à mente uma expressão muito utilizada nas peladas futebolísticas da minha adolescência: "do pescoço prá baixo, é canela".

Publicado em 22 de outubro de 2016