quinta-feira, 28 de maio de 2026

Nojo!


Aristóteles sustentava que o verdadeiro objetivo da vida humana não era o trabalho, mas a contemplação. Para o filósofo grego, a plenitude da existência residia na reflexão, no cultivo do pensamento e no exercício elevado da razão. Muitos séculos depois, Bertrand Russell, em seu célebre ensaio Elogio ao Ócio, advertia que o excesso de trabalho embrutece o indivíduo, reduzindo-o a uma rotina mecânica, repetitiva e esvaziada de sentido.

Mais recentemente, o sociólogo italiano Domenico De Masi difundiu o conceito de “ócio criativo”. Ao contrário do que muitos imaginam, a expressão não remete à preguiça ou à inatividade, mas a um estado de liberdade intelectual, produção criativa e menor submissão às imposições rígidas da vida moderna. Trata-se, em essência, da possibilidade de dedicar tempo ao que verdadeiramente importa, com autonomia, prazer e propósito.

Nos dias atuais, o período que mais se aproxima desse ideal, ainda que de forma imperfeita, é para muitos, a aposentadoria. É quando finalmente podemos direcionar nossas energias para aquilo que realmente nos realiza.

Esse é precisamente o meu caso.

Continuo lendo e escrevendo, tanto pelo prazer pessoal quanto para compartilhar reflexões com um pequeno círculo de amigos que me acompanha, e procuro, ainda que com alguma dificuldade, acompanhar as transformações da sociedade, os avanços tecnológicos e as mudanças culturais do nosso tempo. Para isso, recorro principalmente a análises publicadas na internet e, ocasionalmente, a debates e mesas-redondas transmitidos por emissoras abertas ou canais por assinatura.

Recentemente, porém, dois episódios específicos chamaram minha atenção pela intensidade e pela virulência com que grande parte da mídia tradicional, talvez sua maioria, se posicionou.

1. A convocação de Neymar para a Seleção Brasileira

Assisti a diversos programas esportivos dedicados à análise da lista de convocados elaborada pelo técnico Carlo Ancelotti. Confesso que raramente vi tamanho grau de hostilidade direcionado a um atleta que, além de ser o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, é admirado por seus colegas de profissão e idolatrado por parcela expressiva da população, especialmente pelas gerações mais jovens.

Tenho a convicção, e sinceramente espero estar equivocado, de que, caso Neymar não tivesse manifestado publicamente simpatia por determinado espectro político, seria hoje celebrado pelos mesmos comentaristas que atualmente o atacam e desqualificam. A hipocrisia parece evidente.

2. A visita de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos

Neste segundo episódio, grande parte da mídia e de seus analistas políticos apostou, quase de forma unânime, que o encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump jamais aconteceria. O argumento predominante era o de que o homem mais poderoso do mundo, líder da maior potência econômica e militar do planeta, não desperdiçaria tempo com um senador brasileiro.

Acrescentavam, ainda, que Trump estaria envolvido em temas muito mais relevantes: delicadas negociações internacionais envolvendo o Irã, discussões estratégicas relacionadas ao Estreito de Hormuz, tratativas sobre urânio enriquecido, além das celebrações do Memorial Day e compromissos familiares ligados ao casamento de seu filho primogênito.

O encontro, entretanto, aconteceu.

E não apenas isso: além da reunião reservada no Salão Oval da Casa Branca, espaço tradicionalmente associado a encontros de alta relevância institucional, Flávio Bolsonaro também foi recebido, no dia seguinte, em reuniões privadas com duas das figuras mais influentes do governo Trump depois do próprio presidente: o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.

Diante dos fatos, muitos dos mesmos comentaristas que anteriormente previam o fracasso da visita rapidamente alteraram o discurso. Passaram a minimizar os encontros, classificando-os como simples “convescotes” destituídos de importância política.

O cinismo foi tão explícito que inevitavelmente desperta uma reflexão: será que essas pessoas não sentem qualquer constrangimento diante de seus próprios pais, esposas, filhos ou amigos?

Embora distintos em natureza e contexto, os dois episódios possuem um traço comum profundamente revelador: ambos expõem o comportamento enviesado, seletivo e frequentemente rancoroso de parcela significativa da mídia e de determinados formadores de opinião quando os personagens envolvidos pertencem a um campo político que lhes causa antipatia.

Gostaria de concluir esse despretensioso texto de forma educada e em alto estilo:
“Chupa, invejosos! Tenho nojo de vocês!”

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