domingo, 15 de março de 2026

Pelo mundo


Zurique, Suíça

Era a década de 1970, não me recordo exatamente o ano. Estava de férias em Zurique, na Suíça. Naquela época, quando ainda não existiam smartphones com suas facilidades, eu levava comigo uma máquina fotográfica das mais caras: uma Canon.

Utilizava o transporte público da cidade, que já então era exemplar em qualidade e pontualidade. Em determinado momento, desci em uma praça que me chamou a atenção pela limpeza impecável e pelo jardim cuidadosamente paisagístico e ornamental.

Depois de caminhar um pouco e fazer várias fotografias, resolvi sentar-me em um banco muito parecido com os que existiam na pracinha de Várzea Alegre, hoje conhecida como Praça dos Motoristas.

Após um breve descanso, levantei-me e segui de volta para a parada de ônibus, pronto para continuar explorando a cidade. Foi então que, sem perceber, deixei no banco a máquina Canon que tanto dinheiro me havia custado.

Somente depois de uma boa meia hora dentro do ônibus, ao descer na parada seguinte e preparar-me para fazer outra foto, percebi o que havia acontecido: a máquina havia ficado esquecida no banco da praça anterior.

Voltei imediatamente à parada e procurei identificar a linha que poderia me levar de volta ao local. Fiz o trajeto sem muita esperança. Minha cabeça de brasileiro simplesmente não conseguia imaginar que ainda encontraria ali meu precioso equipamento.

Mesmo assim, retornei à praça, quase uma hora depois. E lá estava ela. Quietamente repousando no mesmo banco onde eu a havia deixado: minha Canon, intacta, esperando por mim.

Tóquio, Japão

A maior cidade do mundo é, surpreendentemente, silenciosa, limpa, organizada e impecável. Em Tóquio, todos parecem respeitar as regras de convivência urbana, vivendo em harmonia com as normas sociais que estruturam a vida coletiva.

Em 1992, tive o privilégio de passar uma semana no Japão. Entre os vários compromissos daquela viagem, participei de um jantar oferecido pelo vice-presidente da NEC para a América Latina. Estávamos em uma sala reservada para o nosso pequeno grupo, que não passava de dez pessoas.

O restaurante era uma construção muito antiga, de atmosfera simples e elegante. As paredes exibiam alguns mapas antigos e poucos quadros representativos da cultura japonesa. Durante o jantar, fomos brindados com uma apresentação musical executada em um instrumento que, segundo o anfitrião, tinha mais de mil anos de história.

O instrumento, que me lembrou o pau do galamarte que eu mesmo construía em Várzea Alegre quando criança, ou mesmo aqueles bancos rústicos de tronco de árvore ainda encontrados no interior do Ceará, possuía duas ou três cordas dispostas horizontalmente. Era tocado com grande habilidade por uma mulher vestida e caracterizada à maneira tradicional, semelhante às imagens de gueixas que costumamos ver no cinema.

Ao longo do jantar, a conversa acabou enveredando para o tema da remuneração de executivos. O anfitrião passou então a explicar como eram estruturados os salários no Japão e citou como exemplo a própria empresa. Segundo ele, a diferença entre o menor e o maior salário dentro da organização era de apenas oito vezes.

Fazendo um paralelo com o Brasil, seria como se um funcionário mais humilde recebesse um salário mínimo, enquanto o presidente da empresa ganhasse apenas oito salários mínimos. Ele acrescentou que, de modo geral, os salários no Japão não eram particularmente elevados.

Nesse momento, perguntei quem, afinal, recebia os maiores salários no país. Ele respondeu com naturalidade:

— Os professores universitários. Porque são eles que estão preparando o Japão do futuro.

Não é por acaso que o Japão se tornou a potência econômica que é hoje.

Helsinque, Finlândia

Em junho de 2016 eu atravessava um período de muita solidão. Resolvi programar férias para viajar, tentar encontrar motivação e excitamento para o vazio que se apoderara de mim.

Sempre tive o desejo de conhecer os países nórdicos. Era curioso abrir qualquer avaliação mundial sobre excelência em serviços, qualidade e expectativa de vida, avanços sociais etc, e encontrar invariavelmente a Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca no topo da tabela. Eu precisava ver de perto aquele sucesso.

A ideia inicial era viajar direto para Helsinque, capital da Finlândia e permanecer durante algo em torno de cinco dias em cada capital. Deixar para comprar as passagens entre países quando lá estivesse (avião, trem ou navio), bem como as reservas de hotel feitas através do Booking (com possibilidade de cancelamento ou reprogramação de datas), davam-me a liberdade e flexibilidade para viver essa nova aventura.

O voo Fortaleza / Helsinque seria feito parte pela TAM (Fortaleza/São Paulo/Paris) e parte (Paris/Helsinque) pela companhia aérea finlandesa Finnair. Foi uma programação muito conveniente, uma vez que demorava pouco mais de uma hora no aeroporto de Guarulhos e quatro horas no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. A primeira grande surpresa da viagem, foi chegar com vinte e cinco minutos de antecedência no aeroporto de Helsinque, às 22:30h e encontrar o sol brilhando, como se fosse as 17:00h do Ceará. Com efeito, naquela época do ano o por do sol era sempre em torno de 22:50h e a noite durava apenas cerca de seis horas, informaram-me.

Devidamente acomodado no Hotel Haaga, da rede Best Western, procurei o "concierge" na recepção para que ele me desse um mapa da cidade (muito comum em quase todos os hotéis da Europa). Estendido o mapa no balcão da recepção, pedi para mostrar-me as áreas mais seguras, uma vez que eu pretendia dar uma caminhada. Explorar os arredores e eventualmente comer alguma coisa. O rapaz não entendeu. Insisti que queria caminhar um pouco. ainda assim ele ficou me olhando sem entender exatamente o que eu perguntara. Pedi então que me indicasse áreas aonde houvesse possibilidade de assalto ou algo assim. Sua cara de surpresa não escondia a avaliação de quão estúpida era aquela pergunta. "Não existe isso aqui", respondeu-me. "Você pode andar por onde quiser até a hora que lhe for conveniente".

Bom dia, Brasil!

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