domingo, 25 de janeiro de 2026

O AMIGO DO AMIGO DO MEU PAI


Vejo, não sem espanto, a carnificina moral a que a grande mídia nacional resolveu submeter, de uma hora para outra, o ministro Dias Toffoli. Rede Globo, Estadão et caterva parecem ter acordado subitamente para o fato de que Sua Excelência teria cometido malfeitos. A indignação, agora exibida em horário nobre e editoriais solenes, soa menos como zelo republicano e mais como amnésia seletiva revertida às pressas.

Em 11 de abril de 2019, portanto há quase sete anos, a revista Crusoé publicou a reportagem intitulada “O amigo do amigo do meu pai”, na qual descrevia, com detalhes e documentos, o envolvimento do ministro com negócios no mínimo reprováveis. Nada disso era obscuro, nada disso era novo. Ao contrário: o material era suficientemente grave para provocar uma reação institucional imediata. E provocou, ainda que da pior forma possível.

O próprio ministro, então presidente do Supremo Tribunal Federal, instaurou de ofício uma investigação, nomeando ilegalmente como relator um colega da Corte. A partir desse gesto inaugural, abriu-se a comporta para uma sucessão de aberrações jurídicas que dispensam adjetivos: inquéritos sem objeto definido, vítimas indeterminadas, investigados escolhidos a dedo e uma jurisprudência moldada ao sabor das conveniências do momento.

Desde então, assistimos à lenta, porém consistente, reescrita informal da Constituição, artigo por artigo, decisão por decisão, sempre com a anuência, registre-se, da maioria do colegiado. Criou-se um novo direito constitucional, onde o que ontem era vedado hoje é aceitável, desde que aprovado pela maioria.

Há algo mais reprovável e antiético do que um juiz julgar causa patrocinada por cônjuge, filho ou parente próximo? Havia. Hoje não há mais. Tornou-se “legal” após uma votação majoritária por 7X4. Não por força de lei, mas por imposição da maioria circunstancial.

Ainda que com menos virulência, a mesma grande mídia passou a tratar com reservas o nebuloso contrato firmado pelo escritório Barci de Moraes com o liquidado Banco Master. Chegamos ao ponto, notável, quase comovente, de ler em editorial do Estadão algo que, em essência, dizia: agora que Jair Bolsonaro foi neutralizado, talvez seja o momento de o Supremo parar de agredir a Constituição. Não com essas palavras, evidentemente, mas com exatamente esse conteúdo.

Confesso que tenho refletido longamente para compreender a origem do ódio visceral que a grande mídia nacional, praticamente em bloco, nutre contra a figura do ex-presidente Jair Bolsonaro. Revirando discursos, editoriais e campanhas “espontâneas”, não encontrei explicação política, moral ou institucional que se sustentasse por si só. A única explicação plausível parece ser financeira.

Durante os três primeiros anos do governo Bolsonaro, os gastos com publicidade oficial somaram 583 milhões de reais. Já no atual governo, entre 2023 e 2025, esse montante saltou para 2,005 bilhões de reais. Não se trata de interpretação: trata-se de números.

É legítimo, portanto, perguntar se o ódio não foi ideológico, mas orçamentário. Se a fúria não nasceu da defesa da democracia, mas da interrupção abrupta de um fluxo generoso de recursos públicos. Talvez o que se convencionou chamar de “defesa das instituições” não passe, em certos casos, de síndrome de abstinência.

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