Um velho engenheiro aposentado que combate o ócio tentando escrever textos inspirados nos acontecimentos do cotidiano. Autor dos livros “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 1” , “INQUIETAÇÕES NOTURNAS, REFLEXÕES NAS MADRUGADAS” e “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 2”.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Fatos do cotidiano
"O cupim é um inseto social. Vive em colônias altamente organizadas, alimenta-se de celulose, madeira e papel, e quando se instala em ambiente urbano, transforma-se em praga silenciosa, capaz de destruir móveis, estruturas e patrimônios inteiros sem alarde, sem barulho, quase sem ser notado. Seu rastro é discreto: um fino pó de madeira no chão. O estrago, porém, é profundo."
Durante dias, a porta principal do meu apartamento amanhecia com esse pozinho claro espalhado no piso próximo. Varria-se o resíduo, jogava-se no lixo, e a rotina seguia. Aos poucos, no entanto, a porta começou a apresentar pequenos buracos, como feridas abertas em seu corpo. O diagnóstico foi simples e preciso: cupim.
A primeira reação foi a mais comum, tentar um remendo. Comprei um produto que prometia exterminar o inseto. Apliquei algumas vezes. O pozinho persistiu. As feridas se multiplicaram. Ficou claro: não era solução.
O conselho foi direto e sensato: era preciso trocar a porta.
Adquiri então uma porta nova, de uma empresa especializada em venda e montagem. Paguei em duas parcelas no cartão de crédito. Uma porta bonita, branca como devem ser as portas principais, com um elegante puxador de metal. Comprada e paga, imaginei que a substituição seria imediata. Ledo engano.
Passaram-se dez dias. Enviei mensagem perguntando o que faltava para o agendamento da montagem. Silêncio. Recorri então ao amigo que havia indicado a empresa, amigo comum também do proprietário. Ele intercedeu. Finalmente alguém apareceu para medir com exatidão. Medidas conferidas, mais uma semana de espera. A porta chegou.
A largura deveria ser de 90 centímetros; veio uma de 80. Mais alguns dias, mais paciência. Substituíram por outra de 90 centímetros, mas agora com apenas dois metros de altura. A minha fora medida com dois metros e oito centímetros e meio. Nova reclamação. Nova espera. Finalmente, chegou a porta exatamente como devia ser.
Faltava apenas a montagem. Mais alguns dias que viraram semanas. Um mês e alguns dias após a compra, eis que, aleluia, a porta foi instalada. Nova, firme, íntegra. O cupim ficou para trás.
É assim também com o país. Nossa democracia vem sendo corroída, lentamente, pelo cupim da corrupção. Não faz barulho, não age à luz do dia, mas deixa resíduos diários: escândalos, desvios, privilégios, impunidade. Varremos o pó, denunciamos, reclamamos,fingimos normalidade. Enquanto isso, as estruturas apodrecem.
Existem 129 milhões de razões para que isso mude e 300 mil denúncias já foram feitas. Produtos milagrosos não funcionam. Remendos não resolvem. Não se salva uma porta infestada com verniz.
Como não podemos trocar a nação como se troca uma porta, resta-nos trocar aqueles que conduzem o nosso destino como sociedade.
Tayayá em outubro essa oportunidade. Não depende de cupins. Não depende de vendedores. Não depende de intermediários.
Depende de nós!
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