terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Entre o possível e o desejável


Minha chapa preferida, se o cenário político brasileiro permitisse algum grau de racionalidade estratégica, seria formada por Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro. Não por entusiasmo ideológico, mas por cálculo político e pragmatismo, virtudes raras em tempos de polarização emocional.

Tarcísio reúne características hoje escassas no debate público: é um político de centro-direita, técnico, ponderado, com perfil desenvolvimentista e histórico consistente como gestor. Passou por diferentes cargos públicos, lidou com grandes orçamentos, entregou obras, enfrentou estruturas complexas do Estado e, até aqui, preserva algo cada vez mais valioso na política brasileira: a ficha limpa. Não é pouco.

Michelle Bolsonaro, por sua vez, cumpriria um papel complementar e estratégico. Independentemente das avaliações pessoais que se façam, é inegável sua forte inserção no eleitorado evangélico, um segmento numeroso, organizado e decisivo. Além disso, sua presença tenderia a atrair a maioria dos votos do campo bolsonarista, reduzindo fissuras internas e ampliando a base eleitoral da chapa. Política, gostemos ou não, é também aritmética.

Mas, como dizem os americanos, it is what it is.

O cenário real que se desenha está longe desse arranjo ideal. As alternativas concretas parecem se resumir a Flávio Bolsonaro ou a algum nome indicado pelo chamado “centro”, como Ratinho Jr., Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite. Cada um com seus méritos e limitações, mas nenhum capaz de entusiasmar ou representar, de forma clara, uma síntese nacional minimamente robusta.

Quanto a Lula, ele simplesmente não está, e nunca esteve, no meu radar. Se antes já não me convencia, após os três últimos anos do chamado “Lula 3” minha rejeição tornou-se definitiva. Escândalos recorrentes, normalização da corrupção, uso da estrutura do Estado em benefício próprio e de aliados, degradação institucional e um discurso que tenta transformar pragmatismo oportunista em virtude moral. Nada disso aponta para um projeto de país; aponta apenas para a preservação de poder.

O que mais me surpreende e confesso, entristece, não é a existência desse projeto, mas a quantidade ainda expressiva de brasileiros dispostos a endossá-lo. Não por ignorância, mas muitas vezes apesar da informação disponível. É aí que a decepção deixa de ser apenas política e se torna social.

Talvez por isso eu venha tentando, de forma quase desesperada, parar de escrever sobre política no meu blog. Tenho tentado, Deus sabe quanto. Há momentos em que o cansaço cívico se impõe: a sensação de falar para pessoas que não escutam, de argumentar em um ambiente onde fatos competem em desvantagem com paixões.

Quem sabe, um dia eu consiga mesmo parar de me preocupar. Abandonar o comentário público, recolher-me a um certo egoísmo tardio e voltar-me apenas aos meus prazeres privados: leitura, memória, viagens, silêncio. Não por covardia, mas por exaustão. Afinal, quando a política deixa de ser espaço de razão e responsabilidade coletiva, insistir nela pode se tornar não um dever, mas um fardo.

E talvez esse seja o sinal mais preocupante de todos.

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