Um velho engenheiro aposentado que combate o ócio tentando escrever textos inspirados nos acontecimentos do cotidiano. Autor dos livros “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 1” , “INQUIETAÇÕES NOTURNAS, REFLEXÕES NAS MADRUGADAS” e “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 2”. Para adquirir qualquer livro, faça contacto através do WhatsApp (85) 9.9998.5816.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Entre o possível e o desejável
Minha chapa preferida, se o cenário político brasileiro permitisse algum grau de racionalidade estratégica, seria formada por Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro. Não por entusiasmo ideológico, mas por cálculo político e pragmatismo, virtudes raras em tempos de polarização emocional.
Tarcísio reúne características hoje escassas no debate público: é um político de centro-direita, técnico, ponderado, com perfil desenvolvimentista e histórico consistente como gestor. Passou por diferentes cargos públicos, lidou com grandes orçamentos, entregou obras, enfrentou estruturas complexas do Estado e, até aqui, preserva algo cada vez mais valioso na política brasileira: a ficha limpa. Não é pouco.
Michelle Bolsonaro, por sua vez, cumpriria um papel complementar e estratégico. Independentemente das avaliações pessoais que se façam, é inegável sua forte inserção no eleitorado evangélico, um segmento numeroso, organizado e decisivo. Além disso, sua presença tenderia a atrair a maioria dos votos do campo bolsonarista, reduzindo fissuras internas e ampliando a base eleitoral da chapa. Política, gostemos ou não, é também aritmética.
Mas, como dizem os americanos, it is what it is.
O cenário real que se desenha está longe desse arranjo ideal. As alternativas concretas parecem se resumir a Flávio Bolsonaro ou a algum nome indicado pelo chamado “centro”, como Ratinho Jr., Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite. Cada um com seus méritos e limitações, mas nenhum capaz de entusiasmar ou representar, de forma clara, uma síntese nacional minimamente robusta.
Quanto a Lula, ele simplesmente não está, e nunca esteve, no meu radar. Se antes já não me convencia, após os três últimos anos do chamado “Lula 3” minha rejeição tornou-se definitiva. Escândalos recorrentes, normalização da corrupção, uso da estrutura do Estado em benefício próprio e de aliados, degradação institucional e um discurso que tenta transformar pragmatismo oportunista em virtude moral. Nada disso aponta para um projeto de país; aponta apenas para a preservação de poder.
O que mais me surpreende e confesso, entristece, não é a existência desse projeto, mas a quantidade ainda expressiva de brasileiros dispostos a endossá-lo. Não por ignorância, mas muitas vezes apesar da informação disponível. É aí que a decepção deixa de ser apenas política e se torna social.
Talvez por isso eu venha tentando, de forma quase desesperada, parar de escrever sobre política no meu blog. Tenho tentado, Deus sabe quanto. Há momentos em que o cansaço cívico se impõe: a sensação de falar para pessoas que não escutam, de argumentar em um ambiente onde fatos competem em desvantagem com paixões.
Quem sabe, um dia eu consiga mesmo parar de me preocupar. Abandonar o comentário público, recolher-me a um certo egoísmo tardio e voltar-me apenas aos meus prazeres privados: leitura, memória, viagens, silêncio. Não por covardia, mas por exaustão. Afinal, quando a política deixa de ser espaço de razão e responsabilidade coletiva, insistir nela pode se tornar não um dever, mas um fardo.
E talvez esse seja o sinal mais preocupante de todos.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Cúmplices do Fracasso
Há um ponto em que a divergência política deixa de ser apenas opinião e passa a se tornar responsabilidade histórica. Quando uma parcela significativa da sociedade opta por ignorar escândalos recorrentes, desorganização fiscal, desinstitucionalização de órgãos técnicos e alinhamentos internacionais questionáveis, não se trata mais de preferência ideológica, mas de uma renúncia consciente ao juízo crítico. A persistência do apoio não ocorre por falta de informação, ela ocorre apesar dela.
O fenômeno revela algo mais profundo: a substituição da análise racional por vínculos emocionais, identitários ou tribais. Para esse grupo, os fatos deixam de ser critérios de avaliação e passam a ser incômodos a serem relativizados, explicados ou simplesmente descartados. A economia pode piorar, a dívida crescer, a inflação corroer renda e a credibilidade institucional se desgastar, nada disso importa quando a política é vivida como torcida organizada, não como gestão da coisa pública.
Essa postura cobra um preço coletivo. Governos não se mantêm apenas pelo poder que exercem, mas pela permissão que recebem. Quando parte da sociedade, em um flagrante efeito manada, aceita a degradação institucional como custo aceitável para preservar um projeto de poder, ela contribui ativamente para a normalização do fracasso. Não é apenas o governante que erra; é o eleitor que abdica do papel de fiscal e passa a atuar como cúmplice passivo.
No fim, a tragédia não é apenas econômica ou política, é cívica. Uma nação não se enfraquece somente por maus governos, mas pela disposição recorrente de seus cidadãos em tolerá-los, justificá-los e, pior, repeti-los. A história é implacável com sociedades que trocam responsabilidade por lealdade cega: cedo ou tarde, a conta chega, e nunca é paga apenas por quem a ignorou.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
CÚPULA DO STF SE PÕE CONTRA O POVO
Por Fernando Gabeira em 27.01.2026
Pensei em escrever um artigo sobre o discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos. Mark Carney acha que vivemos um momento de ruptura, e não de transição. A ordem internacional, que já não era grande coisa, se rompeu para dar lugar claramente à lei do mais forte. Nesse contexto, é preciso se preparar, pois quem não estiver na mesa estará no menu. Tema importante para o Brasil, mas posso voltar a ele, algumas vezes, antes das eleições.
Neste momento, tenho de escrever sobre o escândalo do Banco Master. Não esperava, a esta altura da vida, aos 40 minutos do segundo tempo, encontrar nosso país nesta condição patética. A nota do ministro Edson Fachin, as manifestações do procurador-geral e o post de Gilmar Mendes confirmam a ideia de uma cúpula judiciária unida para se blindar. Usando a máscara de salvadores da democracia, querem impor uma situação marcada, como diz um jornal alemão, pela ganância que afunda o STF.
No fundo, consideram ameaça à democracia questionar o contrato milionário de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Ou criticar o inacreditável ministro Dias Toffoli por artificialmente levar o processo do Master para o Supremo e sentar em cima dele com uma decisão de sigilo rigoroso.
Logo Toffoli, que vendeu parte de seu resort para a empresa ligada ao cunhado do dono do Master. Logo Toffoli, que anulou uma multa de R$ 10 bilhões da J&F e recebeu em seu resort um advogado da empresa como sócio no mesmo resort. A imprensa diz que o resort é da família do Toffoli. A esta altura, não escrevo sobre formalidade. Os donos são um irmão que é padre, outro que vive numa casa modesta, e sua própria mulher desconhece a empresa dona do resort.
Pessoalmente, a convite do deputado Capitão Augusto, conheci o projeto da região, Angra Doce, e naveguei na Represa Chavantes. Ouvi algumas pessoas mencionando o resort de Toffoli. Nos últimos dias, apareceu um vídeo onde o ministro lá recebe um banqueiro e um empresario. Jornalistas que se hospedaram no resort de Toffoli encontraram um pequeno cassino em seu interior.
Apoiar toda essa degradação é defender a democracia? O Senado poderia fazer algo. Mas não faz por medo. Alguns senadores têm questões no STF, outros temem a possibilidade de ter. Os mais à esquerda estão presos à miopia da corrente política. Acham que, apesar de tudo, os ministros são importantes para conter o adversário.
Não percebem que um Supremo corrompido pela ganância é exatamente o combustível que impulsiona seus adversários? Não percebem que esse estado patético das instituições fortalece o apoio popular a quem pode destruí-las? Não percebem que a juventude está encontrando uma causa para sua rebeldia? Fazemos leitura diferente da História, não só no Brasil, mas em outros lugares do mundo. Consideram que tudo isso é secundário porque Lula é imbatível nas eleições. É provável que estejam certos nesse cálculo. Mas que tipo de país o vencedor herdará?
O deputado Nikolas Ferreira iniciou solitariamente uma marcha e chegou a Brasília com milhares de pessoas, grande parte jovens como ele. Gritavam: “Acorda, Brasil”. Nesse nível de abstração, é algo que deveria valer para todos.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Talento precoce
Alguém, em sã consciência, acredita que a contratação tenha ocorrido exclusivamente pelo talento extraordinário e pela vasta experiência profissional do jovem advogado?
O Grupo Refit, com dívidas e fraudes tributárias estimadas em cerca de R$ 26 bilhões, investigado por lavagem de dinheiro e crimes contra a ordem tributária no âmbito da Operação Poço de Lobato, contratou o advogado Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, para atuar em disputa contra a Agência Nacional do Petróleo (ANP) no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Kevin é filho do ministro do Supremo Tribunal Federal, Kassio Nunes Marques, que, antes de ascender ao STF, integrou o próprio TRF-1 como desembargador entre 2011 e 2020, corte na qual, segundo fontes do meio jurídico, ainda mantém influência relevante.
A contratação é recente e pontual. Até o momento, Kevin Marques assinou apenas três petições em nome do Grupo Refit, protocoladas entre 27 e 29 de janeiro, no processo que busca reverter a decisão da ANP que determinou a interdição da refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro, atualmente sob controle do grupo.
A interdição foi imposta após inspeção técnica da ANP identificar risco elevado de acidentes e incêndios nas instalações. A refinaria já operava sob restrições e havia sido alvo de megaoperação policial por fraudes fiscais, circunstâncias que reforçaram a medida adotada pela agência reguladora.
Na petição mais recente, protocolada em 29 de janeiro, a defesa tenta, em caráter de urgência, suspender os efeitos da fiscalização e do auto de interdição. Os advogados sustentam que a ANP teria descumprido decisão judicial, após o grupo obter no TRF-1 uma reversão parcial de decisão de primeira instância que apontava supostas irregularidades no rito de votação da diretoria da agência.
Segundo essa linha argumentativa, a ANP não poderia ter realizado nova fiscalização, a qual culminou na interdição total da refinaria, sem violar a decisão judicial anterior.
Formado em Direito em 2020 e aprovado no exame da OAB em 2024, Kevin Marques assina a peça ao lado de outros três advogados, entre eles Jorge Berdasco, sócio de escritório vinculado ao controlador do grupo, o empresário Ricardo Magro, apontado pelas investigações como líder do esquema de fraudes.
O episódio reacende, mais uma vez, o debate sobre conflitos de interesse, influência institucional e os limites éticos da advocacia, especialmente em tribunais nos quais parentes próximos de ministros exerceram, ou ainda exercem, papel central.
Porque, afinal, “eu sou apenas um rapaz latino-americano…” — ops! — sou apenas um velho engenheiro aposentado, não cometeria o desatino de propor soluções fáceis para os inúmeros casos semelhantes que se acumulam no país. Mas que algo precisa ser feito… ah, isso precisa!
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