domingo, 1 de março de 2026

Mané Cachacinha


Na década de 1950, enquanto o mundo aprendia a dançar ao som do rock’n’roll, o interior do Ceará assistia ao florescimento de um pensador cuja obra era inteiramente oral, e quase sempre etílica. Seu nome: Mané Cachacinha , filósofo de meio-fio, doutor honorário em aguardente aplicada.

Sua origem jamais foi esclarecida. Alguns sustentam que nasceu do fundo de uma garrafa reaproveitada; outros afirmam que era a própria cana-de-açúcar encarnada, enviada à Terra para provar que álcool e poesia são apenas variações químicas da mesma saudade.

Mané vivia em permanente estado de “iluminação líquida”, isto é, das oito da manhã às oito da manhã seguinte. Nessas epifanias contínuas, cunhou um bordão que atravessou décadas:

“Várzea Alegre é natureza!”

A frase parecia simples, mas carregava densidade filosófica recitada junto ao balcão da bodega, sob a mira do copo americano devidamente abastecido. “Várzea Alegre” era o lugar físico e “natureza” era tudo o mais, explicação metafísica para o universo, justificativa para sonecas públicas na praça, síntese da condição humana e, possivelmente, referência à cachaça “desdobrada” que corria pela cidade com a regularidade bíblica de um rio sagrado.

Para Mané Cachacinha, natureza não era paisagem. Era destino!

Décadas depois, nas minhas inúmeras (menos do que eu desejaria) andanças por este mundo de meu Deus, deparei-me com uma história que elevava o etilismo à categoria de saga irlandesa regada a uísque. Estávamos em viagem de estudos ao Japão e em um momento de lazer, arrodeando uma garrafa de Shochu, alguém na mesa contou sobre a morte e cremação de Uncle Patrick.

Uncle Patrick (Tio Patrick), protagonista irlandês de reputação líquida imbatível. Diz a tradição oral, que na Irlanda possui graduação acadêmica, que Patrick encontrou seu fim mergulhado num gigantesco tanque de uísque, em uma destilaria de Dublin. Se Manoel dialogava com a cachaça, Patrick havia firmado tratado internacional com o uísque.

Mas é na cremação que a narrativa atinge seu clímax mitológico. Levado ao forno, o fígado de Uncle Patrick teria mantido as chamas acesas por sete dias consecutivos. Seu fígado, curado em décadas de malte, recusava-se a cumprir protocolos biológicos comuns. Queimava como se ainda defendesse sua honra alcoólica. Não era mais órgão, era combustível com memória.

O que une Mané Cachacinha e o Uncle Patrick não é o vício, é a coerência. Ambos viveram de acordo com o próprio discurso. Mané incendiava neurônios em vida e produzia poesia involuntária, Uncle Patrick incendiou o próprio epílogo.

Há dimensões inacreditáveis na lenda de Uncle Patrick:

- Um fígado funcionando como fonte térmica prolongada é biologicamente improvável, mas narrativamente inevitável. A ciência discorda, o folclore irlandês aplaude.
- Morrer afogado em uísque e ser cremado por ele é a versão alcoólica do princípio universal: você é o que consome. Uncle Patrick tornou-se, literalmente, energia derivada de si mesmo.
- Num mundo obcecado por fontes alternativas de energia, Uncle Patrick ofereceu um modelo involuntário de autossuficiência energética pós-morte. Não é recomendável, mas é conceitualmente impressionante.

Imagino Mané Cachacinha ouvindo essa história, apoiado no balcão, girando lentamente o copo como quem consulta o oráculo do fundo do copo. Depois ergueria os olhos enevoados e concluiria, com a autoridade dos que já dormiram sob todas as árvores da praça:

“Várzea Alegre é natureza.”

E estaria certo!