Um velho engenheiro aposentado que combate o ócio tentando escrever textos inspirados nos acontecimentos do cotidiano. Autor dos livros “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 1” , “INQUIETAÇÕES NOTURNAS, REFLEXÕES NAS MADRUGADAS” e “… E A VIDA ACONTECEU! FASE 2”. Para adquirir qualquer livro, faça contacto através do WhatsApp (85) 9.9998.5816.
domingo, 29 de março de 2026
Coincidência ou falta de sorte?
Não é coincidência, é falta de sorte mesmo. Ou, para quem prefere uma leitura mais cética, um padrão incômodo que se repete com precisão cirúrgica toda vez que Luiz Inácio Lula da Silva assume a Presidência da República. O Brasil parece destinado a viver, a cada novo mandato petista, pelo menos um escândalo de proporções monumentais, daqueles que abalam instituições, envergonham a opinião pública e deixam um rastro de prejuízos bilionários para o contribuinte. Os escândalos menores, esses nem vale a pena listar: são rotina. O curioso é o timing. Como se a “desventura” acompanhasse o cidadão comum de Porto Alegre a Boa Vista toda vez que o mesmo nome volta ao Palácio do Planalto.
No primeiro governo Lula (2003-2006), o Mensalão explodiu em 2005 como uma bomba no coração do Congresso. Esquema de pagamento mensal de propinas a parlamentares em troca de apoio ao Executivo. Roberto Jefferson denunciou, José Dirceu caiu, o PT foi abalado, mas Lula sobreviveu politicamente e foi reeleito. O país assistiu atônito ao espetáculo de “caixa 2” institucionalizado, com malas de dinheiro e delações que revelavam o modus operandi da base aliada.
No segundo mandato (2007-2010), o Petrolão, ou o gigantesco esquema de corrupção na Petrobras revelado anos depois pela Lava Jato, ganhou corpo. Contratos superfaturados, empreiteiras pagando propina sistematicamente, diretores indicados pelo PT no comando da estatal. Bilhões desviados. Lula sempre negou saber, mas as investigações apontaram para um sistema que funcionou com eficácia impressionante durante seus governos. O escândalo se estendeu à sucessora, mas plantou raízes profundas nos anos petistas.
Agora, no terceiro governo (2023 em diante), a “falta de sorte” parece ter dobrado a aposta. Dois escândalos de envergadura internacional despontaram: a fraude no INSS (conhecida como Operação Sem Desconto ou Farra do INSS) e a orgia financeira do Banco Master.
A fraude no INSS envolveu descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas, sem autorização real da maioria das vítimas. Associações e sindicatos firmavam acordos com o INSS para cobrar mensalidades por “serviços” que poucos sabiam que contratavam. Estimativas falam em R$ 6,3 bilhões desviados entre 2019 e 2024, com forte aceleração nos anos de 2023 e 2024. A Controladoria-Geral da União (CGU) e a Polícia Federal atuaram, mas o esquema ganhou fôlego com omissões, afrouxamento de regras e indicações políticas questionáveis. Relatos mencionam até ligações com figuras próximas ao governo, incluindo menções ao filho do presidente (Lulinha) e ao irmão (Frei Chico) em investigações e CPMI, o que, naturalmente, o Planalto nega ou minimiza. Milhões de idosos foram lesados. O rombo recai sobre o sistema previdenciário, que já patina com contas públicas apertadas.
Paralelamente, o Banco Master se transformou em um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil. Liquidação pelo Banco Central, prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, rombo estimado em dezenas de bilhões (alguns falam em R$ 40-50 bilhões ou mais). CDBs com juros irreais, carteiras de crédito sem lastro, envolvimento com fundos de previdência de estados e municípios, créditos consignados problemáticos e tentativas de venda que levantaram suspeitas. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) pode ser chamado a cobrir parte da conta, ou seja, mais uma vez o contribuinte entra no jogo. O caso respingou em instituições, políticos e até ministros do STF, gerando desconforto no governo, que tenta enquadrá-lo como “herança” ou “golpe de magnatas”, mas as investigações avançam e revelam uma teia complexa de operações questionáveis.
O que chama atenção não é apenas a escala desses escândalos, mas o padrão comportamental. Em todos os casos, a narrativa oficial é a mesma: “Não sabíamos”, “foi traição de companheiros”, “herança do governo anterior” ou “perseguição da mídia e da oposição”. Lula condena em discurso, mas o estrago já está feito. O Mensalão não derrubou o governo. O Petrolão foi digerido com anulações posteriores no Judiciário. Agora, INSS e Banco Master testam novamente a resiliência política do petismo.
Não se trata aqui de ignorar que corrupção existe em outros governos. O Brasil tem histórico longo e bipartidário de malfeitos. Temer, FHC e tantos outros tiveram seus casos. Mas o volume, a sistematicidade e o timing nos mandatos de Lula chamam a atenção até do observador mais desinteressado. É como se, ao voltar ao poder, o mesmo estilo de gestão (forte aparelhamento de estatais e órgãos públicos, alianças amplas com custo alto, tolerância seletiva com aliados), criasse terreno fértil para que esses “infortúnios” floresçam.
O contribuinte brasileiro, especialmente o aposentado que vê seu benefício minguar ou o trabalhador que banca o rombo via impostos e FGC, não pode se dar ao luxo de tratar isso como mera “falta de sorte”. São recursos públicos, dinheiro suado, que evaporam em esquemas sofisticados. Enquanto isso, o discurso oficial foca em narrativas de “luta contra a desigualdade” ou culpa externa.
Talvez não seja coincidência. Talvez seja o resultado previsível de um modelo de poder que prioriza controle político sobre transparência e eficiência. O Brasil merece instituições mais robustas, fiscalização implacável e menos “desventuras” cíclicas. Porque, no fim das contas, quem paga a conta dessa falta de sorte recorrente não é o “cidadão sortudo” do Planalto, mas o povo que tenta sobreviver entre um escândalo e outro.
sábado, 21 de março de 2026
O escândalo de Bolsonaro (Ah ah ah)
Brasília, 20 de março de 2026 – A Polícia Federal (PF) prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, na terceira fase da Operação Compliance Zero. A prisão preventiva foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso. Vorcaro é investigado por supostamente comandar o que a PF considera a maior fraude da história do sistema financeiro brasileiro.
De acordo com a PF, o esquema envolve emissão e venda de títulos de crédito falsos (CDBs com rendimentos irreais de até 40% acima da Selic), corrupção, lavagem de dinheiro e influência indevida sobre servidores do Banco Central. A operação apura ainda a existência de uma suposta “milícia privada” montada pelo banqueiro para intimidar opositores.
Principais acusações da PF
- Ameaças e intimidação: Vorcaro é acusado de ameaçar e intimidar jornalistas, ex-funcionários, concorrentes e testemunhas. A investigação aponta que ele teria criado um grupo chamado “A Turma”, responsável por monitoramento ilegal, obtenção de informações sigilosas e coação, inclusive com o uso de hackers e vigilância clandestina. Há indícios de tentativas de acesso a documentos sigilosos do Ministério Público Federal.
- Ocultação de patrimônio: A PF encontrou evidências de que Vorcaro transferiu mais de R$ 2,2 bilhões para contas de familiares (incluindo o pai) com o objetivo de esconder bens.
- Continuação do esquema criminoso: Mesmo após as fases anteriores da operação, o banqueiro teria mantido o esquema bilionário de fraudes. O ministro Mendonça justificou a prisão preventiva citando “risco concreto de destruição de provas” e de continuidade da organização criminosa.
Rede de influência investigada
A operação também apura uma ampla rede de contatos e contratos celebrados por Vorcaro com figuras ligadas ao poder público. Entre os pontos destacados nas investigações estão:
- Contrato de R$ 129 milhões (distribuídos em 36 meses, ou cerca de R$ 3,58 milhões mensais) com o escritório Barci e Barci Sociedade de Advogados, comandado pela advogada Viviane Barci de Moraes (esposa do ministro Alexandre de Moraes) e seus filhos.
- Aquisição parcial do Resort Tayayá, pertencente aos irmãos do ministro do STF Dias Toffoli, por cerca de R$ 35 milhões.
- Contratação do ex-ministro Guido Mantega(ex-Petrobras e Fazenda nos governos Lula e Dilma) como assessor, com remuneração de R$ 1 milhão por mês.
- Contratação do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski como assessor por R$ 5 milhões (R$ 250 mil mensais). Após a nomeação de Lewandowski para o Ministério da Justiça no terceiro governo Lula, a gestão do contrato teria sido transferida para seu filho.
- Contrato de R$ 11 milhões com a empresa BK Financeira (antiga “Vamos Florir Comércio de Flores Ltda.”), de propriedade de Bonnie de Bonilha, nora do senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. A empresa atuaria na prospecção exclusiva de operações de crédito consignado.
- Empréstimo de R$ 22 milhões para empresa de cunhada do Deputado Hugo Mota (Presidente da Camara) para suposta implantação de um novo bairro na cidade de João Pessoa.
Além disso, a investigação menciona reunião de Vorcaro com o presidente Lula no Palácio do Planalto (em pelo menos uma ocasião sem registro na agenda oficial) e autorizações do governo para demissões de gerentes na Caixa Econômica Federal por tentarem obstruir a compra de títulos podres do Banco Master.
Vorcaro já havia sido preso anteriormente na primeira fase da operação, em novembro de 2025, quando tentava embarcar para os Emirados Árabes Unidos.
A defesa do banqueiro está tentando viabilizar uma delação premiada, para diminuir a eventual pena do Sr. Vorcaro.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Relatório Mundial da Felicidade
Foi divulgado ontem, 19/03, o anual World Happiness Report (Relatório Mundial da Felicidade) que apura o ranking dos países mais felizes do mundo. Para surpresa de ninguém e pelo 9º ano consecutivo, a Finlândia foi apurada como a campeã da felicidade. O Brasil está na posição 32.
Os 10 países mais felizes do planeta em 2026:
1. Finland
2. Iceland
3. Denmark
4. Costa Rica
5. Sweden
6. Norway
7. Netherlands
8. Israel
9. Luxembourg
10. Switzerland
Os 5 países menos felizes do mundo são:
Botswana (No. 143), Zimbabwe (No. 144), Malawi (No. 145), Sierra Leone (No. 146) e Afganistão (No. 147).
Por oportuno, sugiro que você leia o meu artigo publicado em 21 de agosto de 2022, sob o título "Várzea Alegre não é Finlândia". Link abaixo
https://nilosergiobezerra.blogspot.com/2022/08/varzea-alegre-nao-e-finlandia.html?m=1
quinta-feira, 19 de março de 2026
Trump sendo Trump
O presidente Donald Trump recebeu, nesta quinta-feira, na Casa Branca, a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.
Diante de jornalistas, Takaichi fez uma avaliação direta do cenário internacional. Segundo ela, o mundo atravessa um período de grande instabilidade:
— “Neste momento, tanto no Oriente Médio quanto no mundo como um todo, estamos vivendo um ambiente de segurança muito severo.”
Em seguida, dirigiu-se pessoalmente ao presidente americano com uma afirmação que rapidamente repercutiu:
— “Acredito firmemente que só você, Donald, pode alcançar a paz no mundo todo.”
A declaração, incomum pela franqueza e pelo grau de personalização, foi interpretada como um sinal claro de alinhamento estratégico do Japão em relação aos Estados Unidos.
No entanto, o momento mais inesperado do encontro viria a seguir. Questionado por um jornalista japonês sobre o fato de os Estados Unidos não terem informado previamente seus aliados, incluindo o Japão, a respeito de ataques realizados contra o Irã, Trump respondeu com uma provocação histórica:
— “Quem sabe mais sobre surpresa do que o Japão? Ei, por que vocês não me avisaram sobre Pearl Harbor?”
A referência ao ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, episódio que levou os Estados Unidos a entrarem na Segunda Guerra Mundial, causou desconforto imediato, sobretudo considerando a presença da chefe de governo japonesa.
Do ponto de vista diplomático, a resposta pode ser considerada inadequada. Ainda assim, ela reflete um traço característico do estilo de Trump: reagir de forma direta, por vezes provocativa, especialmente quando confrontado.
Trump, como se costuma dizer, segue sendo Trump. Imagine o que não dirá a um Chefe de Estado que eventualmente esteja na defesa de narcotraficantes...
domingo, 15 de março de 2026
Pelo mundo
Zurique, Suíça
Era a década de 1970, não me recordo exatamente o ano. Estava de férias em Zurique, na Suíça. Naquela época, quando ainda não existiam smartphones com suas facilidades, eu levava comigo uma máquina fotográfica das mais caras: uma Canon.
Utilizava o transporte público da cidade, que já então era exemplar em qualidade e pontualidade. Em determinado momento, desci em uma praça que me chamou a atenção pela limpeza impecável e pelo jardim cuidadosamente paisagístico e ornamental.
Depois de caminhar um pouco e fazer várias fotografias, resolvi sentar-me em um banco muito parecido com os que existiam na pracinha de Várzea Alegre, hoje conhecida como Praça dos Motoristas.
Após um breve descanso, levantei-me e segui de volta para a parada de ônibus, pronto para continuar explorando a cidade. Foi então que, sem perceber, deixei no banco a máquina Canon que tanto dinheiro me havia custado.
Somente depois de uma boa meia hora dentro do ônibus, ao descer na parada seguinte e preparar-me para fazer outra foto, percebi o que havia acontecido: a máquina havia ficado esquecida no banco da praça anterior.
Voltei imediatamente à parada e procurei identificar a linha que poderia me levar de volta ao local. Fiz o trajeto sem muita esperança. Minha cabeça de brasileiro simplesmente não conseguia imaginar que ainda encontraria ali meu precioso equipamento.
Mesmo assim, retornei à praça, quase uma hora depois. E lá estava ela. Quietamente repousando no mesmo banco onde eu a havia deixado: minha Canon, intacta, esperando por mim.
Tóquio, Japão
A maior cidade do mundo é, surpreendentemente, silenciosa, limpa, organizada e impecável. Em Tóquio, todos parecem respeitar as regras de convivência urbana, vivendo em harmonia com as normas sociais que estruturam a vida coletiva.
Em 1992, tive o privilégio de passar uma semana no Japão. Entre os vários compromissos daquela viagem, participei de um jantar oferecido pelo vice-presidente da NEC para a América Latina. Estávamos em uma sala reservada para o nosso pequeno grupo, que não passava de dez pessoas.
O restaurante era uma construção muito antiga, de atmosfera simples e elegante. As paredes exibiam alguns mapas antigos e poucos quadros representativos da cultura japonesa. Durante o jantar, fomos brindados com uma apresentação musical executada em um instrumento que, segundo o anfitrião, tinha mais de mil anos de história.
O instrumento, que me lembrou o pau do galamarte que eu mesmo construía em Várzea Alegre quando criança, ou mesmo aqueles bancos rústicos de tronco de árvore ainda encontrados no interior do Ceará, possuía duas ou três cordas dispostas horizontalmente. Era tocado com grande habilidade por uma mulher vestida e caracterizada à maneira tradicional, semelhante às imagens de gueixas que costumamos ver no cinema.
Ao longo do jantar, a conversa acabou enveredando para o tema da remuneração de executivos. O anfitrião passou então a explicar como eram estruturados os salários no Japão e citou como exemplo a própria empresa. Segundo ele, a diferença entre o menor e o maior salário dentro da organização era de apenas oito vezes.
Fazendo um paralelo com o Brasil, seria como se um funcionário mais humilde recebesse um salário mínimo, enquanto o presidente da empresa ganhasse apenas oito salários mínimos. Ele acrescentou que, de modo geral, os salários no Japão não eram particularmente elevados.
Nesse momento, perguntei quem, afinal, recebia os maiores salários no país. Ele respondeu com naturalidade:
— Os professores universitários. Porque são eles que estão preparando o Japão do futuro.
Não é por acaso que o Japão se tornou a potência econômica que é hoje.
Helsinque, Finlândia
Em junho de 2016 eu atravessava um período de muita solidão. Resolvi programar férias para viajar, tentar encontrar motivação e excitamento para o vazio que se apoderara de mim.
Sempre tive o desejo de conhecer os países nórdicos. Era curioso abrir qualquer avaliação mundial sobre excelência em serviços, qualidade e expectativa de vida, avanços sociais etc, e encontrar invariavelmente a Suécia, Finlândia, Noruega e Dinamarca no topo da tabela. Eu precisava ver de perto aquele sucesso.
A ideia inicial era viajar direto para Helsinque, capital da Finlândia e permanecer durante algo em torno de cinco dias em cada capital. Deixar para comprar as passagens entre países quando lá estivesse (avião, trem ou navio), bem como as reservas de hotel feitas através do Booking (com possibilidade de cancelamento ou reprogramação de datas), davam-me a liberdade e flexibilidade para viver essa nova aventura.
O voo Fortaleza / Helsinque seria feito parte pela TAM (Fortaleza/São Paulo/Paris) e parte (Paris/Helsinque) pela companhia aérea finlandesa Finnair. Foi uma programação muito conveniente, uma vez que demorava pouco mais de uma hora no aeroporto de Guarulhos e quatro horas no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. A primeira grande surpresa da viagem, foi chegar com vinte e cinco minutos de antecedência no aeroporto de Helsinque, às 22:30h e encontrar o sol brilhando, como se fosse as 17:00h do Ceará. Com efeito, naquela época do ano o por do sol era sempre em torno de 22:50h e a noite durava apenas cerca de seis horas, informaram-me.
Devidamente acomodado no Hotel Haaga, da rede Best Western, procurei o "concierge" na recepção para que ele me desse um mapa da cidade (muito comum em quase todos os hotéis da Europa). Estendido o mapa no balcão da recepção, pedi para mostrar-me as áreas mais seguras, uma vez que eu pretendia dar uma caminhada. Explorar os arredores e eventualmente comer alguma coisa. O rapaz não entendeu. Insisti que queria caminhar um pouco. ainda assim ele ficou me olhando sem entender exatamente o que eu perguntara. Pedi então que me indicasse áreas aonde houvesse possibilidade de assalto ou algo assim. Sua cara de surpresa não escondia a avaliação de quão estúpida era aquela pergunta. "Não existe isso aqui", respondeu-me. "Você pode andar por onde quiser até a hora que lhe for conveniente".
Bom dia, Brasil!
terça-feira, 10 de março de 2026
Quando o Aliado Atira
Há uma velha piada que ilustra bem como certas situações se resolvem da forma mais inesperada possível.
Dois amigos caçadores estão na floresta quando um deles cai desmaiado. Não respira, olhos revirados, completamente inerte. O outro, desesperado, pega o celular e liga para o serviço de emergência.
— Meu amigo morreu! O que eu faço?
A atendente responde com calma:
— Primeiro, confirme se ele está realmente morto.
Segue-se um breve silêncio. De repente, ouve-se um tiro. O caçador volta ao telefone:
— Está morto com certeza. E agora, o que eu faço?
A releitura dessa anedota, para quem observa a política brasileira recente, sugere uma metáfora curiosa.
Durante anos, dois atores centrais do debate público pareciam caminhar lado a lado em uma mesma caçada: a grande mídia, simbolizada aqui pela Rede Globo, e setores do Supremo Tribunal Federal. O alvo seriam os chamados “golpistas”, “extremistas”, “fascistas” e uma variedade de outros “istas” atribuídos ao campo político associado a Jair Bolsonaro.
Nesse enredo, a narrativa predominante apresentava uma convergência de esforços: decisões judiciais, investigações, reportagens e análises que, direta ou indiretamente, apontavam para a necessidade de conter ameaças percebidas à ordem institucional.
Contudo, como em certas histórias, a dinâmica entre aliados pode mudar de forma abrupta.
Com o surgimento de informações provenientes de mensagens atribuídas ao empresário Rubens Vorcaro, episódio amplamente discutido no noticiário político, alguns ministros da corte passaram a enfrentar questionamentos públicos mais intensos. A situação lembrou, metaforicamente, o caçador que encontra o companheiro no chão: inesperadamente vulnerável.
Nesse momento entra a mídia investigativa. Reportagens da jornalista Malu Gaspar, publicadas em O Globo, trouxeram novos elementos e ampliaram o escrutínio público sobre figuras do sistema de poder. Para alguns observadores, esse movimento soou como o “tiro” da piada, não para salvar o aliado caído, mas para confirmar sua morte simbólica no debate público.
A metáfora, evidentemente, é provocativa. Ela sugere que relações entre instituições (mídia, Judiciário, política), não são permanentes nem imutáveis. Alianças circunstanciais podem se desfazer quando surgem novos fatos, interesses ou disputas de poder.
Isso levanta uma pergunta inevitável para quem tenta compreender o funcionamento do sistema político e informacional: por que certos veículos ou atores mudam de posição aparentemente de forma tão brusca?
Talvez por isso a metáfora da piada funcione tão bem: em certos momentos da vida pública, quando todos esperam uma tentativa de socorro, alguém puxa o gatilho.
E então surge a pergunta que inquieta observadores e analistas: que forças, humanas, institucionais ou meramente circunstanciais, são capazes de provocar mudanças de rumo tão rápidas na grande imprensa e em outros centros de poder?
As respostas definitivas talvez permaneçam restritas aos bastidores onde as decisões realmente se formam. Talvez sejam conhecidas apenas por Deus e por um pequeno número de iniciados que, discretamente, participam dos mecanismos do poder.
domingo, 8 de março de 2026
Os Cartórios e a Segurança Jurídica no Brasil
Em um cenário de erosão institucional cada vez mais evidente — em que escândalos sucedem escândalos e a confiança pública parece tornar-se um bem cada vez mais escasso — há instituições que, silenciosamente, continuam a cumprir seu papel essencial. Entre elas está o sistema cartorário brasileiro.
Longe de ser apenas um resquício burocrático do passado, o cartório constitui um dos pilares mais sólidos da segurança jurídica no país. Enquanto outras estruturas frequentemente vacilam — seja pela instabilidade política, pela corrupção sistêmica ou pela ineficiência administrativa — os cartórios permanecem como garantidores da autenticidade e da estabilidade dos atos civis. Neles, um título de propriedade, uma certidão de nascimento ou um contrato registrado continuam a representar algo fundamental: certeza jurídica.
A força do sistema cartorário não se baseia em modernidade aparente ou em discursos grandiloquentes, mas na tradição de rigor que sustenta sua atuação. O tabelião responde civil e criminalmente por seus atos; os registros são públicos e verificáveis; e a chamada fé pública assegura que aquilo que ali se registra possui presunção de veracidade perante toda a sociedade.
Em um país em que, muitas vezes, o “pode-se” parece sobrepor-se ao “deve-se”, o cartório insiste no valor do formalismo como garantia de segurança. A escrita documentada, a verificação da identidade, a presença das partes e o registro público não são meros rituais burocráticos — são mecanismos de proteção jurídica.
Não se trata de nostalgia institucional. Trata-se de uma constatação prática: em tempos de incerteza, o cartório oferece lastro. Quando a palavra se fragiliza, o documento registrado permanece. Quando outras instituições enfrentam questionamentos, a fé pública cartorária continua a sustentar transações, relações familiares, patrimônios e direitos.
Defender os cartórios, portanto, não é defender burocracia. É defender a existência de um espaço institucional onde o dever jurídico ainda prevalece sobre a improvisação. Um espaço em que a segurança não é promessa retórica, mas prática cotidiana.
Em meio às incertezas que marcam a vida pública brasileira, o cartório permanece como um dos raros lugares onde o cidadão ainda pode segurar um documento nas mãos e afirmar com confiança: isto é meu, isto é verdadeiro, isto existe.
De Jesus Cristo e Napoleão
Numa manhã qualquer em um manicômio, um paciente reclama com o companheiro que acabara de passar por ele sem lhe prestar continência.
— "E por que eu faria continência para você?", pergunta o outro, intrigado.
— "Porque eu sou o imperador e grande líder militar Napoleão Bonaparte!", responde o paciente, com convicção.
— "E quem disse que você é Napoleão?"
— "Foi Jesus Cristo, claro!", insiste ele.
Nesse momento, o suposto Jesus Cristo que estava ali por perto, intervém:
— "Eu? Eu nunca disse isso!"
Essa pequena anedota sempre me vem à cabeça quando lembro de certas mensagens vazadas dos telefones do Sr. Vorcaro, responsável pelo Banco Master. Em alguns trechos, dá a impressão de que o referido senhor se imagina uma espécie de Napoleão moderno.
Fica então a pergunta inevitável:
Quem seria o “Jesus Cristo” do Vorcaro/Napoleão?
sábado, 7 de março de 2026
E Deus criou o Brasil...
No início dos tempos, quando Deus estava criando a Terra, começou a distribuir os povos e os fenômenos naturais pelos diferentes territórios: inundações, terremotos, maremotos, furacões, tsunamis, vulcões etc.
Colocou quase metade da população do planeta na Ásia (China, Índia, Bangladesh e arredores) e destinou à região as grandes enchentes e inundações.
Nos arquipélagos do Japão e da Indonésia, instalou povos de olhos puxados e cabelos lisos e, junto com eles, enviou terremotos e tsunamis.
Para regiões como Chade, Somália e Síria, reservou longos períodos de secas e estiagens.
Nas Filipinas, determinou altíssima exposição a tufões, inundações e terremotos.
E assim foi organizando o mundo.
Quando chegou a vez do Brasil, porém, fez algo diferente: criou algumas das praias mais bonitas do planeta, estabeleceu temperaturas agradáveis durante quase todo o ano, concedeu terras férteis e de alto rendimento agrícola e praticamente nenhuma ocorrência de grandes catástrofes naturais.
Terminada a obra, São Pedro, que acompanhava o trabalho como uma espécie de secretário celestial, resolveu fazer uma observação:
— Senhor, não parece justo. Todos os povos receberam algum tipo de tragédia natural, forças devastadoras da natureza… menos o Brasil. Por que privilegiar tanto esse país?
Ao que o Criador respondeu calmamente:
— Espere só até ver o povinho que eu vou colocar lá.
Durante muito tempo essa piada circulou apenas em rodas de amigos, contada para provocar risadas. Mas, diante de tantos acontecimentos dos últimos anos, perseguições, injustiças, escândalos de corrupção e a desfaçatez com que muitas autoridades se comportam, às vezes fico pensando se essa história não tem, lá no fundo, um certo grão de verdade…
domingo, 1 de março de 2026
Mané Cachacinha
Na década de 1950, enquanto o mundo aprendia a dançar ao som do rock’n’roll, o interior do Ceará assistia ao florescimento de um pensador cuja obra era inteiramente oral, e quase sempre etílica. Seu nome: Mané Cachacinha , filósofo de meio-fio, doutor honorário em aguardente aplicada.
Sua origem jamais foi esclarecida. Alguns sustentam que nasceu do fundo de uma garrafa reaproveitada; outros afirmam que era a própria cana-de-açúcar encarnada, enviada à Terra para provar que álcool e poesia são apenas variações químicas da mesma saudade.
Mané vivia em permanente estado de “iluminação líquida”, isto é, das oito da manhã às oito da manhã seguinte. Nessas epifanias contínuas, cunhou um bordão que atravessou décadas:
“Várzea Alegre é natureza!”
A frase parecia simples, mas carregava densidade filosófica recitada junto ao balcão da bodega, sob a mira do copo americano devidamente abastecido. “Várzea Alegre” era o lugar físico e “natureza” era tudo o mais, explicação metafísica para o universo, justificativa para sonecas públicas na praça, síntese da condição humana e, possivelmente, referência à cachaça “desdobrada” que corria pela cidade com a regularidade bíblica de um rio sagrado.
Para Mané Cachacinha, natureza não era paisagem. Era destino!
Décadas depois, nas minhas inúmeras (menos do que eu desejaria) andanças por este mundo de meu Deus, deparei-me com uma história que elevava o etilismo à categoria de saga irlandesa regada a uísque. Estávamos em viagem de estudos ao Japão e em um momento de lazer, arrodeando uma garrafa de Shochu, alguém na mesa contou sobre a morte e cremação de Uncle Patrick.
Uncle Patrick (Tio Patrick), protagonista irlandês de reputação líquida imbatível. Diz a tradição oral, que na Irlanda possui graduação acadêmica, que Patrick encontrou seu fim mergulhado num gigantesco tanque de uísque, em uma destilaria de Dublin. Se Manoel dialogava com a cachaça, Patrick havia firmado tratado internacional com o uísque.
Mas é na cremação que a narrativa atinge seu clímax mitológico. Levado ao forno, o fígado de Uncle Patrick teria mantido as chamas acesas por sete dias consecutivos. Seu fígado, curado em décadas de malte, recusava-se a cumprir protocolos biológicos comuns. Queimava como se ainda defendesse sua honra alcoólica. Não era mais órgão, era combustível com memória.
O que une Mané Cachacinha e o Uncle Patrick não é o vício, é a coerência. Ambos viveram de acordo com o próprio discurso. Mané incendiava neurônios em vida e produzia poesia involuntária, Uncle Patrick incendiou o próprio epílogo.
Há dimensões inacreditáveis na lenda de Uncle Patrick:
- Um fígado funcionando como fonte térmica prolongada é biologicamente improvável, mas narrativamente inevitável. A ciência discorda, o folclore irlandês aplaude.
- Morrer afogado em uísque e ser cremado por ele é a versão alcoólica do princípio universal: você é o que consome. Uncle Patrick tornou-se, literalmente, energia derivada de si mesmo.
- Num mundo obcecado por fontes alternativas de energia, Uncle Patrick ofereceu um modelo involuntário de autossuficiência energética pós-morte. Não é recomendável, mas é conceitualmente impressionante.
Imagino Mané Cachacinha ouvindo essa história, apoiado no balcão, girando lentamente o copo como quem consulta o oráculo do fundo do copo. Depois ergueria os olhos enevoados e concluiria, com a autoridade dos que já dormiram sob todas as árvores da praça:
“Várzea Alegre é natureza.”
E estaria certo!








